A eleição presidencial na Colômbia

Entre a continuidade do progressismo e a opção da ultradireita

Com uma participação de 57,7% do eleitorado, ligeiramente superior em comparação com disputas eleitorais anteriores, os resultados do primeiro turno da eleição presidencial realizada em 31 de maio passado na Colômbia indicam que as preferências eleitorais pela ultradireita, representada por Abelardo de la Espriella, alcançaram 43,7% (10.366.143 votos); o candidato progressista, Iván Cepeda, obteve 40,9% (9.703.921 votos). Outra facção da direita conseguiu 6,9%, o denominado centro político 5,2%, e o restante 3,3% (outros candidatos e voto em branco). Assim, no segundo turno a ser realizado no próximo dia 21 de junho, ultradireita e progressismo se enfrentarão, em uma eleição que se mostra muito disputada e na qual ainda não é possível determinar qual dos projetos políticos em contenda sairá vitorioso. Embora a ultradireita possua uma vantagem não desprezível, que buscará consolidar durante o tempo restante de campanha, o progressismo ainda tem a opção de reverter o quadro.

Uma melhor compreensão da situação pela qual a Colômbia atravessa implica levar em conta tendências recentes de seu processo político. Desde o momento em que avançaram as negociações em busca de uma solução política para o conflito social armado e se conseguiu a assinatura do Acordo de Paz entre o Estado colombiano e a extinta guerrilha das FARC em novembro de 2016, foi se consolidando na Colômbia uma redefinição do campo político, que teve expressões destacadas na revolta social de maio a julho de 2021, no governo de direita de Iván Duque (2018-2022), e na vitória eleitoral de 2022, que tornou possível um governo progressista, cujo mandato termina em 7 de agosto deste ano. Tal redefinição ainda não possui vetores estáveis de saída e pode se estender por um lapso relativamente longo. No essencial, disputam-se com grande intensidade dois projetos políticos: Um, de "capitalismo progressista" (democrático, produtivo, desneoliberalizador, de reconhecimento e materialização de direitos, com inclusão política, social e cultural); outro, de "capitalismo neoliberal redefinido" (plutocrático, autoritário, de acumulação extrema de riqueza e com conteúdos fascistas). Nesse marco, não parece haver espaço para projetos do denominado centro político; tampouco, por enquanto, para projetos de esquerda revolucionária.

Com o governo progressista de Gustavo Petro, que registrou, entre outros, importantes avanços sociais, novos acentos na orientação do processo econômico e da política econômica, afirmação da soberania e da autodeterminação como princípio regente das relações internacionais, buscou-se posicionar uma senda reformista e modernizante da ordem social vigente, aberta timidamente em razão de sua força insuficiente, de suas próprias limitações e erros e, sobretudo, pela férrea oposição da direita e pelos condicionantes estruturais que teve que enfrentar, próprios da organização e dos desenhos institucionais (constitucionais e legais) do poder de classe. Todos os campos da vida política, econômica, social e cultural têm sido atravessados pelo confronto entre a visão progressista impulsionada pelo atual governo e as visões das classes dominantes e suas diferentes expressões políticas, que resistem a qualquer mudança no existente regime de privilégios, o qual fez da Colômbia um dos países mais desiguais do mundo e se sustentou em uma "democracia de exceção" que se reproduziu com base na conjunção de processos eleitorais a cada quatro anos e um persistente exercício estrutural da violência.

Na atual conjuntura política, é preciso considerar igualmente o duplo caráter que possuem os processos eleitorais no presente. Por uma parte, tratam-se de momentos transitórios que condensam e exacerban a natureza conflitiva e contraditória da ordem social vigente e são expressivos tanto dos projetos políticos das classes dominantes para preservar e reproduzir o regime de dominação de classe quanto dos projetos que se contrapõem a essas pretensões e buscam impulsionar e consolidar alternativas políticas de diferente alcance. Por outra, por efeito dos processos de neoliberalização, o campo eleitoral tornou-se um novo mercado de definição de preferências por "produtos eleitorais", cuidadosamente elaborados mediante a estimulação extrema de sentimentos e paixões, na qual as possibilidades que oferece o "tecnocapitalismo" constituem uma força propulsora ilimitada. Assim é que no processo eleitoral nos encontramos diante de uma conjunção entre a existente "realidade verdadeira" e a produzida "realidade virtual e aumentada", com fronteiras difusas e uma tendencial superposição (e mesmo anulação) da segunda sobre a primeira.

Nesse marco, a possibilidade de uma continuidade do progressismo no governo, por efeito de uma vitória eleitoral do candidato Iván Cepeda, é concebida pela direita como uma ameaça de ordem sistêmica que deve ser confrontada a todo custo, pois ela implica uma opção de consolidação de processos de reforma democratizadora em todos os campos da vida social e, portanto, de redefinição substantiva das relações de poder e de dominação no médio e longo prazo.

Essa circunstância explica o significado da atual eleição presidencial e, sobretudo, as estratégias a que a direita tem recorrido, todas elas coincidentes com o que se tem observado nos processos eleitorais realizados nos últimos anos em diferentes lugares do planeta. Dentro delas se encontram, entre outras:

Primeiro, a deturpação da "realidade verdadeira" através do desconhecimento dos avanços do governo progressista e da maximização dos numerosos problemas atuais que o país enfrenta. Todos estes, herdados, são apresentados sem história e como resultado do governo atual. Nesse sentido, busca-se avivar o descontentamento, particularmente em setores pobres e médios da população.

Segundo, a formulação de uma estratégia encaminhada não apenas a concitar os apoios da direita, mas a ocupar outros campos do espectro político, do denominado centro. Por essa razão, houve no primeiro turno dois candidatos da direita. Uma, Paloma Valencia, que se manifestou moderada e disposta a ampliar influências no denominado centro político. Outro, de extrema direita, que se projetou como outsider, supostamente afastado dos partidos do establishment, "dos mesmos de sempre" e em representação dos "nunca". Como era sabido, para o segundo turno presidencial produziu-se a unificação; mais que produto de acordos políticos, tratou-se da simples adesão, pois se trata de cuidar da condição do outsider.

Terceiro, o outsider representa na realidade uma operação de ocultamento dos conteúdos de projetos de direita no presente. Por uma parte, dos processos de radicalização em direção à extrema direita, que se têm observado em escala planetária, através dos quais, desde dentro, ou seja, desde a "institucionalidade democrática" existente, o ideário de "direita democrática" resulta insuficiente e precisa ser superado por um novo movimento político e cultural, aparentemente sem passado, concebido para proteger a "democracia", defender princípios e valores fundantes da civilização ocidental. Por outra, buscam mostrar-se como transgressores da ordem vigente (que seria progressista, sem o ser), expressando uma nova rebeldia em defesa da liberdade e da pátria, da família e da propriedade privada. Nesse marco, o progressismo é mostrado como um projeto continuísta e conservador com um destino definido: o comunismo, a estatização, o fim da liberdade e da propriedade privada e do livre empreendimento.

Quarto, projetou-se uma nova imagem do outsider, com a qual se conseguiu ocultar seu passado obscuro de advogado de defesa, no passado, de líderes criminosos narcotraficantes e paramilitares (por essa razão com fortuna de origem questionada). Seu ideário é de ultradireita, fascista, misógino, homofóbico e completamente subordinado à política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Para lograr o apoio das instituições religiosas, especialmente das igrejas pentecostais, declarou-se defensor da fé e de uma "pátria milagro", de inspiração divina. Fez do "Tigre" o animal que o representa, assim como Javier Milei fez com o leão; defende abertamente o uso da violência, pois sua pretendida ação política haverá de avançar "pela razão ou pela força".

Quinto, enquanto a concepção democrático-liberal do progressismo o leva a ser deliberativo, disposto à transação e à negociação, à busca de acordos nacionais a fim de resolver os problemas que afetam a sociedade, para a ultradireita esses propósitos causam desordem e insegurança, estimulam a criminalidade e requerem ser enfrentados com ordem e autoridade, incluindo a muito fascista pretensão de "estripar" o contendOR, como expressou o candidato Abelardo de La Espriella.

Sexto, a estratégia da ultradireita condensou-se em uma incesante produção de "realidade virtual e aumentada", amplificada através de uma ação combinada dos meios massivos corporativos e individuais de comunicação, conseguindo concitar simpatias em importantes setores da população, segundo expressou sua elevada votação no primeiro turno.

Sétimo, no processo eleitoral evidenciou-se a ingerência direta dos Estados Unidos. O presidente Donald Trump, o Secretário de Estado Marco Rubio e outros altos funcionários mostraram abertamente sua preferência pelo candidato da ultradireita. Igualmente, todos os governantes de ultradireita da Região.

Todo o anterior sustenta-se adicionalmente na mobilização coletiva das classes dominantes, de suas expressões políticas e sindicais/gremiais, dos poderes corporativos. O candidato da ultradireita representa para os que dominaram o país a opção de recuperar os espaços perdidos durante o atual quadriênio, em um país no qual a instituição presidencial e o governo se compreenderam dentro da lógica da propriedade latifundiária e como garantidores da reprodução do regime de privilégios e das diversas formas da acumulação capitalista.

Como se percebe, o candidato progressista, Iván Cepeda, enfrenta condições extremamente complexas para lograr sua vitória no segundo turno. A seu favor, encontram-se as realizações -limitadas como já se disse- do governo progressista; a principal força política organizada, o Pacto Histórico (com uma importante presença parlamentar); o movimento social e popular (ainda que não tenha conseguido um fortalecimento significativo durante o governo atual e não tenha desdobrado com suficiência novas formas de produção de poder social "desde baixo"); também setores das camadas médias da população.

De acordo com as dinâmicas meramente eleitorais, tem a possibilidade de concitar apoios dos até agora indecisos ou que não votaram no primeiro turno, também de segmentos do denominado centro político. Sua ação comunicativa, muito criticada no primeiro turno, teve melhoras significativas, conseguindo captar maior apoio sobretudo na população jovem, e permitindo evidenciar, além disso, por uma parte, que o outsider na realidade não o é, pois representa "os mesmos de sempre"; e por outra, lograr maior atenção em sua proposta programática, que no essencial, além de persistir teimosamente na superação da violência e na construção da paz através de saídas negociadas, é contentiva de continuidade e aprofundamento de reformas democráticas no político, econômico, social e cultural mediante a busca de um grande acordo político que convoca o conjunto da sociedade colombiana. Nesse sentido, trata-se, dentro da visão de um "capitalismo progressista", de uma alternativa democrática, contrária à senda autoritária, com conteúdos fascistas e de aprofundamento neoliberal que representa o candidato da ultradireita. Assim é que há lugar para a esperança e para contemplar a vitória no segundo turno do progressismo.

Finalmente, é preciso assinalar que a eleição presidencial na Colômbia possui alcances que transcendem o espaço nacional e adquirem um significado geopolítico, o que se explica por sua localização geográfica, o acesso a recursos estratégicos, bem como pela particular relação de subordinação aos Estados Unidos observada ao longo da história, e sua condição de "sócio global" da OTAN.

Nesse sentido, os resultados da eleição presidencial haverão de demonstrar se, em uma Região que leva mais de duas décadas de intensa disputa sobre seu destino, reforçam-se ainda mais as pretensões hegemônicas e de dominação imperialista dos Estados Unidos exibidas mais recentemente com a agressão militar à Venezuela e a guerra econômica genocida contra Cuba, e soma-se um novo país à já existente condição de vassalagem que caracteriza numerosos governos e projetos políticos e movimentos de direita e ultradireita, todos alinhados com o "Corolário Trump" à "Doutrina Monroe". Ou se, pelo contrário, se consegue preservar um contrapeso progressista, que somado aos atuais governos do México e do Brasil possa contribuir para uma geografia da resistência relativamente estável e para a prolongação de projetos políticos que, sem questionar substantivamente a ordem capitalista, buscam reduzir as desigualdades, aprofundar a democracia e levar adiante reformas com alcances sociais. Essa circunstância explica, como já se disse, a política de ingerência dos Estados Unidos no processo eleitoral colombiano, que se soma ao já observado em todos os processos eleitorais realizados recentemente na Região.

Sobre este xadrez também incidirão de maneira significativa, por uma parte, os resultados da eleição presidencial em outubro deste ano no Brasil e, em menor medida, no Peru e no Haiti. E, por outra, as resistências e as lutas dos povos, que já mostram intensidade e profundidade, por exemplo, na Bolívia e na Argentina, bem como a resolução da situação de Cuba. O anterior, em meio a uma reconfiguração da ordem mundial que ainda não exibe vetores de saída plenamente definidos, e na qual os traços da multipolaridade, além de não serem suficientemente sólidos, não demonstraram capacidade de contenção frente aos recentes excessos e agressões imperialistas contra povos e nações.

Jairo Estrada Álvarez

Professor do Departamento de Ciência Política

Universidade Nacional da Colômbia

Publicado pelo Inverta em 29 de julho de 2026

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