Bolívia desperta contra modelo neoliberal de Rodrigo Paz
Ao assumir o governo, Rodrigo Paz prometeu um modelo social-democrata, mas rapidamente alinhou-se às políticas dos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump. O país passou a integrar o chamado "Escudo das Américas" – cúpula criada em Miami que reúne o governo americano e lideranças latino-americanas de orientação fascista, em sintonia com o reavivamento da Doutrina Monroe.
No plano interno, Paz adotou medidas antipopulares, como a eliminação dos subsídios aos combustíveis e uma nova lei de terras que favorece a reconcentração fundiária nas mãos da oligarquia boliviana e de empresas transnacionais.
O descontentamento popular começou ainda no segundo mês de mandato, quando setores da população exigiram a manutenção dos subsídios aos combustíveis, essenciais para o controle do custo de vida. A resposta do governo foi a repressão aos protestos pacíficos da categoria dos motoristas.
Em maio, a Central Operária Boliviana (COB) convocou uma greve geral, rapidamente apoiada pelo movimento indígena, transportadores e setores populares. A principal reivindicação é a renúncia imediata do presidente.
As manifestações refletem o desgaste da maioria da população, que viu sua capacidade de sobrevivência encolher diante das medidas impostas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), gerando um forte choque econômico sobre as camadas populares.
O governo respondeu com recrudescimento repressivo: detenções em massa levaram centenas de pessoas a masmorras do regime, mais de cem feridos – a maioria por munição real – e pelo menos quatro mortos.
Vídeos que circulam em redes sociais mostram a expansão do fascismo e ataques racistas contra indígenas. Em La Paz, foi registrado um caso de queima da Wiphala – bandeira que representa a interculturalidade, a plurinacionalidade e a resistência indígena na região andina.
Há ainda um processo crescente de judicialização contra líderes visíveis do movimento e ameaças de morte ao ex-presidente Evo Morales. De acordo com o Ph.D. Adolfo Mendoza Leigue, em comunicação com esta redação, trata-se de uma radicalização da direita boliviana sustentada por poderes fáticos, incluindo CIA, DEA, narcopolícias, agronegócio e mineração ilegal.
Redação Internacional
Ascensão e queda: os dois pilares que levaram Rodrigo Paz ao poder e a crise que se instalou
Rodrigo Paz chegou à presidência apoiado em dois elementos-chave: seu vice-presidente, Edman Lara, e as promessas de campanha. Lara representava o setor popular e foi peça fundamental para a vitória. A agenda de campanha estava focada em três pilares: estabilização da economia, solução para a questão dos hidrocarbonetos e solução para a crise de circulante.
Ao assumir a presidência, em novembro do ano passado, uma de suas primeiras medidas foi afastar ou anular o vice-presidente, retirando-lhe diversas atribuições. Esse movimento é significativo, uma vez que, na Bolívia, o vice-presidente ocupa um papel central, incluindo a presidência do Parlamento.
O primeiro decreto editado por Paz, o DS 5503, fez parte de um pacote de medidas econômicas de choque. Com ele, foram eliminados os subsídios aos hidrocarbonetos e liberalizada a importação de diesel. A medida provocou a elevação dos preços da gasolina e do diesel para quase o dobro e, consequentemente, um aumento nos preços da cesta básica. Isso gerou os primeiros atritos com o setor popular, que saiu às ruas.
Após quase uma semana de pressão, conseguiu-se a revogação do decreto, mas a situação não se alterou: a gasolina continuou a preços internacionais, embora o dólar tenha sido estabilizado – a questão cambial é um problema que se arrasta há anos, e atualmente convive-se com um câmbio paralelo. Outra medida adotada por Paz foi a redução do Estado, com a justificativa de que não há recursos disponíveis.
Neste ano, ocorreram dois eventos importantes. Em 1º de maio, o governo anunciou que não haveria reajuste salarial – algo que tradicionalmente ocorria com base na taxa de inflação. No dia 10 de abril, foi promulgada a Lei 1720, ou Lei de Terras, que converte a pequena propriedade rural em média propriedade. A medida permite a reconcentração fundiária e fragiliza a pequena propriedade e a propriedade comunal, pois, ao se tornar média propriedade, a terra passa a integrar o mercado financeiro, podendo ser adquirida, hipotecada ou absorvida. A lei foi aprovada sem consulta prévia, sob pressão de Branko Marikovic, um grande proprietário de terras da região oriental.
A norma provocou a mobilização dos povos indígenas de Beni e Pando, que exigiram sua revogação. A partir daí, o conflito se ampliou: à marcha do oriente somaram-se setores da Central Operária Boliviana (COB), que inicialmente reivindicavam aumento do salário mínimo, regulação da situação dos hidrocarbonetos e controle da cesta básica. Os transportistas também aderiram, pois, desde a mudança na política de preços da gasolina e do diesel, o país passou a importar combustível de baixa qualidade, o que causou danos à frota de veículos da população – eles exigem reparações.
Professores pedem reajuste salarial. Mineradores também se somaram, devido a uma lei mineral que prejudica o pequeno produtor. Trabalhadores fabris, operários e o movimento indígena como um todo também engrossaram as manifestações. Há ainda a demanda pelo arquivamento da lei antiprotesto, que o governo pretendia levar ao Parlamento.
Após a primeira onda de marchas, com o objetivo claro de revogar a Lei de Terras, tiveram início os primeiros enfrentamentos. A polícia reprimiu pontos de vigília, perseguiu e prendeu lideranças. A COB elaborou uma pauta conjunta, à qual se somou o pedido de renúncia do presidente, por descumprimento de promessas e por desrespeito ao setor popular. O vice-presidente também se manifestou publicamente, declarando discordar das medidas adotadas pelo chefe do Executivo.
Inicialmente, o governo convocou para o diálogo e apresentou um compromisso firmado entre a CSUTB e o poder público. No entanto, tratou-se de uma tática preventiva de dirigentes não reconhecidos pelas bases, o que apenas aumentou o descontentamento. Várias tentativas de diálogo fracassaram, já que há presos políticos. A população passou a exigir o cumprimento integral dos 22 pontos da pauta da COB.
A Lei 1720 acabou revogada, mas, nesse ponto, os diferentes setores já não queriam apenas a revogação do pacote de leis – exigiam a renúncia do presidente, que não apresentou nenhum avanço. Além disso, há inconsistências: o governo anuncia falta de recursos, mas promoveu reajustes salariais para autoridades e diretores de ministérios; comprou equipamento antidistúrbios e recebeu material da Argentina. O movimento popular vem sendo criminalizado, com acusações de financiamento por ONGs e até por narcotráfico. Cada declaração do governo aumenta a indignação da população.
Na segunda-feira (18), a jornada foi a mais contundente: há feridos por balas de borracha, cerca de 100 presos. O governo lançou uma plataforma na qual a cidadania pode denunciar anonimamente as marchas e os dirigentes, enviando fotos e vídeos. Foi expedida ordem de prisão contra Evo Morales, dirigente das seis federações do trópico. Neste momento, em La Paz, encontram-se diferentes setores populares já com a consigna da renúncia, e, nos próximos dias, prevê-se a chegada de mais contingentes.
Colaboração e elaboração por: Natalia Linares Canedo - Colectivo comunicacional El Club del té con té
Publicado pelo Inverta em 20 de maio de 2026

