A ruína do laboratório neoliberal do mundo e a importância da Primera Línea para a continuidade da resistência

Os protestos referentes à desigualdade social no Chile não são algo espontâneo e sim um esgotamento do sistema neoliberal neste país. É interessante voltar às questões históricas para analisarmos os atuais acontecimentos no Chile.

Todo Cambia

Cambia lo superficial

Cambia también lo profundo

Cambia el modo de pensar

Cambia todo en este mundo

Cambia el rumbo el caminante

Aúnque esto le cause daño

Y así como todo cambia

Que yo cambie no es extraño

Cambia, todo cambia

Cambia, todo cambia

Cambia, todo cambia

Cambia, todo cambia

(Julio Numhauser Navarro)

Os protestos referentes à desigualdade social no Chile não são algo espontâneo e sim um esgotamento do sistema neoliberal neste país. É interessante voltar às questões históricas para analisarmos os atuais acontecimentos no Chile. No período da ditadura de August Pinochet, o Chile foi um dos primeiros países em que se aplicaram as políticas econômicas de Milton Friedman, guru do neoliberalismo. O ponto desse sistema foram os Chicago Boys, um grupo de estudantes que receberam bolsas do governo dos EUA para o curso de pós-graduação em economia na Universidade de Chicago, entre 1957 e 1970. Ali aprenderam que o neoliberalismo é o modelo político do capitalismo, que acredita no poder do livre mercado e tem como um de seus principais resultados as privatizações. Antes do golpe de estado de Pinochet em 1973, os Chicago Boys escreveram El Ladrillo (O Tijolo), um documento que detalhava o plano neoliberal para o Chile pós-Allende, juntamente com a CIA. Depois do golpe militar, El Ladrillo foi implementado e também os Chicago Boys passaram a ocupar cargos no governo; eles e seus aluno continuam participando ativamente da vida política chilena. Durante a ditadura de Pinochet, as políticas neoliberais foram intensificadas com a privatização de várias empresas estatais e a diminuição dos gastos com políticas sociais. O sistema Neoliberal chileno foi imposto pelas armas, fato que deixou a população com as mãos atadas, sem forças para lutar por mudanças. Depois de muitas repressões e inflações, a economia chilena se estabiliza em 1988; em contrapartida, grande parte da população chilena estava vivendo abaixo da linha de pobreza. Na esfera macroeconômica, as empresas estavam muito bem, já à população estava bem mal. Os Chicago Boys acreditam que o sistema neoliberal é um sucesso porque o Chile chegou a ter o Produto Interno Bruto mais alto da América Latina. As pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza diminuem ano a ano, mas a desigualdade social está cada vez mais latente. Para os Chicago Boys, a desigualdade não tem muita importância o que é importante para o Chile é tirar as pessoas da linha da pobreza.

Há de se fazer menção à mudança que aconteceu no Chile em outubro de 2019: as manifestações consistem no grito dos povos nas ruas contra esse neoliberalismo perverso que ocorre no Chile. Se por um lado temos os Chicago Boys que defendem as políticas neoliberais, por outro temos o coração da resistência que é a Primera Línea, um grupo de jovens de diferentes classes sociais, raças, etnias e graus de escolaridade que protegem o resto dos manifestantes da polícia chilena, que responde às manifestações com truculência e muitas vezes acabam violando os direitos humanos a mando do governo chileno. A maioria dos componentes da Primera Línea são trabalhadores, estudantes universitários, adolescentes, mapuches e tem até alguns cachorros que também estão na resistência com os seus donos. A Primera Línea chilena é bem parecida com a linha de frente da Ucrânia em Maidan – Praça da Independência em Kiev em 2013: são os heróis anônimos da resistência para a população que participa das manifestações, e vândalos e delinqüentes para os que não estão de acordo com as manifestações. São os guardiões de várias pessoas que estão lutando contra o sistema excludente e estão inclusive dispostos a sacrificar suas vidas, como alguns participantes proferem: “Somos um grande Cavalo de Tróia e se não nos escutam, vamos explodi-los de dentro”.

 

Daiane C. Resende