Criminalização da vida

No RS, em 24 de junho foi denunciado para audiência publica de direitos humanos e para a imprensa processo perpetrado por dois promotores do MP gaúcho para desocupação de dois acampamentos do MST, remetendo à perseguição feita pela ditadura militar às ligas camponesas.

A criminalização da vida.

 Por:  Juventude 5 de Julho São Paulo – J5J- SP

 "Um abraço de muitos braços para o MST, amigos elogiados pelo ódio dos inimigos"
(Eduardo Galeano)

 

 No Rio Grande do Sul, no dia 24 de junho foi denunciado para a audiência pública de direitos humanos e para a imprensa um processo que chama a atenção. O processo movido  por dois promotores do ministério publico gaúcho pedindo a desocupação de dois acampamentos do MST. Esse fato nos remete à perseguição feita pela ditadura militar às ligas camponesas. Os próprios promotores, que se basearam em um estatuto da terra votado após o golpe de 1964, fazem essa conexão. A ação foi fulminante: barracos, plantações, animais e até o posto de saúde e a escola foram postos abaixo. Famílias à beira da estrada, novamente. Cena melancólica e revoltante que se repete no Brasil há muito tempo. 

 A ação desses malfeitores frente a mobilização popular por uma reivindicação social, prevista na constituição, demonstra a facilidade com que se transita entre legal e ilegal quando o assunto é reprimir qualquer forma de real avanço social.

 A moralidade burguesa e o pseudo-respeito aos direitos humanos vão pro lodo quando se trata de “dar porrada” em movimentos populares.

 Além da desocupação de dois acampamentos o processo implicava em ações civis públicas (ACP) para retirar crianças das guardas de pai e mãe que estivessem participando de marchas. Ações civis públicas que transformam a comarca de Carazinho e o entorno das fazendas Palma , Nene  e Southal  em zonas especiais impedindo a realização de qualquer atividade do MST.

  Os próximos passos devem ser o fim do Instituto Educar de Pontão e do Iterra em Veranópolis e a busca pelo fim do MST.

  A argumentação que sustenta essas ações é coberta de falácias e anti-comunismo. Vai desde acusar o MST de organização criminosa que quer terras para montar um estado paralelo a imaginar campos clandestinos onde agentes internacionais treinariam os militantes do MST em artes de guerrilha.

 Este tipo de raciocínio fundado em mentiras não é novo. Basta estudar a história da luta de classes e veremos diversas maneiras que a elite dominante acha para reagir a pressões populares. As constantes mentiras difamatórias da grande mídia e a repressão institucionalizada com seus braços semi-ilegais, os esquadrões da morte e os grupos para-militares são formas recorrentes para criminalizar e punir movimentos sociais de base popular. Vemos há algum tempo a detestável fábrica de intoxicação ideológica chamada revista VEJA apresentar o MST como o demônio na terra.

 

 Ao mesmo tempo a repressão policial ataca. Desde o massacre de Eldorado dos Carajás onde 19 sem-terras foram assassinados não se via tamanha afronta aos movimentos sociais que reivindicam reforma agrária. Seus participantes não têm dinheiro, não são donos de canais de televisão, jornais e revistas. Não são promotores, advogados e governadores. Não têm armas nem instrução militar. Muitas vezes nem alfabetizados são. Mas são homens e mulheres revoltados com as injustiças do sistema que vivemos, são a maioria de explorados e famintos, são aqueles que sabem o que é ser solidário com o próximo sem pedir nada em troca. São aqueles que têm a capacidade e a vontade de fazer o mundo de nossos netos um mundo minimamente digno.     

 

Como disse Eduardo Galeano representando muitos outros, o ódio que as classes dominantes direcionam ao MST para nós é o maior dos elogios. Mas quem deveria sentar no banco dos réus não são os lutadores que buscam um direito, é o próprio aparelho judiciário que deveria ser acusado e julgado.

Enquanto aqueles que detêm o monopólio da força, mostram suas garras em todo o pais assassinando e reprimindo de forma legal ou encobertos por sua legitimação legal, os que lutam por terra, abrigo, educação crítica  e pão são criminalizados.São criminalizados os que lutam por justiça, não necessariamente a justiça dos promotores públicos mas a justiça social.  Enquanto vivermos nesta sociedade valerá a pena parafrasear o nome de um grupo de RAP, o Somos Nós a Justiça. Como demonstra o governo de Yeda Crusius lutar pela sobrevivência é um crime. A vida é criminalizada. Ai está a democracia burguesa onde a morte impera sobre a vida.