Quem faz o movimento?

Reproduzimos na integra entrevista concedida por Rosida Ferreira, publicada em Jornal INVERTA Nº 20 em novembro de 1993

I - Como foi sua infância?

RF - Minha infância foi sofrida porque fui uma criança que tive que enfrentar a lavoura cedo. Meu pai trabalhava em terras, mas elas não eram dele, era num sistema de arrendamento por três anos. No primeiro ano, as terras eram mato bruto, tinham que ser limpas. Os dois anos seguintes eram dedicados ao plantio e a produção tinha que ser dividida ao meio com o fazendeiro. O trabalho era árduo, pois meu pai não tinha trator, não tinha capital, só a mão-de-obra. O trabalho era feito por toda a família, meus pais, eu e mais seis irmãos. Ao fim do arrendamento meu pai tinha que sair deixando a terra plantada de capim colonião para o gado do fazendeiro. Aí começava todo de novo. Eles exploravam tanto a nossa família, que as vezes a gente trabalhava até aos domingos. Eu comecei a ir pra roça com 7 anos, só fui à escola com 12 anos, não tinha como estudar por causa do trabalho. Entrava na escola às 7h e saía 1l h30. Chegava em casa almoçava, botava a enxada nas costas e ia para o trabalho e só voltava às 18h. Não tinha mais vontade de estudar porque estava cansada, esgotada, pedia para os meus pais me tirarem da escola porque não aguentava mais trabalhar e estudar. Como meu pai tinha idéia de capitalista, dizia: você tem que estudar e trabalhar. Só aguentei por três anos e saí da escola.

I - Quando e como começou sua militância política?

RF- Quando cheguei ao Rio, com 24 anos, não tinha nada, nem onde morar. Desempregados eu e meu marido, me ofereceram um pedacinho de terra, mas me tomaram e tive que partir para o aluguel. Passaram-se cinco anos e em 1964 eu estava numa ocupação de terra, em Japeri. Fiquei lá dois anos, depois fui pra Morro Agudo, sem terra, fiquei morando numa casa simples. Algum tempo depois, fui junto com um primo para a ocupação de Marapicu. Lá ia às reuniões dos camponeses, mas naqueles movimentos não havia uma direção política avançada, apenas uma direção de que o povo sem terra tinha que lutar por ela. Depois de algum tempo, como não consegui um pedacinho de terra, fui pra ocupação de Vila de Cava, fiquei acampada 18 dias. Houve muitas brigas, com morte inclusive de um companheiro da OPPL (Organização Popular é Pra Lutar  - Gesivaldo Gomes Alves. Trabalhei alguns anos, vendo que a terra não era muito boa para o plantio, mas sem querer sair, já que os companheiros já estavam na terra. Mais tarde, comecei a participar da Associação de Moradores de Ouro Fino, la também a direção era social-democrata e fazia um trabalho partidário. Foi indo em assembléias no Brizolão da minha comunidade, que encontrei umas companheiras da OPPL elas me passaram a política socialista, foi ai que comecei a meditar e entendi que a nossa sociedade só podia mudar com a organização do povo, com uma Revolução Socialista. Ai sim, o povo ia ter seus direitos.

I - A companheira já esteve na Igreja, fale o que encontrou e porque que saiu?

RF – Participei da Igreja Protestante durante 35 anos, entrei porque vivia deprimida, não tinha uma solução pra nada, não tinha emprego nem casa, vivia chorando, desesperada, querendo morrer. Uma vez me joguei no rio Guandu e outra vez debaixo de um carro. Os crentes diziam que eu estava com espírito ruim e me convidaram para ir para a Igreja, como não tinha esclarecimento fui e passei a me sentir aliviada das coisas que sentia. Mas, quando encontrei uma política socialista, uma política real e igualitária, fui estudar, meditar e então vi o que a Igreja estava fazendo. A política de la não era correta, lá dentro só tinha capitalista, explorador. Assim, saí devido a consciência que adquiri.

I - A companheira sempre diz que quando adquiriu a consciência socialista, nasceu de novo. Explica como é isso?

RF - Quando a gente tem dentro aquele egoísmo, aquele capitalismo, aquela hipocrisia e pega tudo isso e enterra, e pega a politica socialista, aí pode dizer: nasci de novo!

I - O que você acha da revisão na Constituição e da CPI da Corrupção?

RF - Acho que lá dentro tem uma grande podridão, isso não vai resolver problema nenhum, cada dia eles vão arrumando mais projetos pra enganar o povo, mas eles não vão resolver a fome, a miséria e a corrupção nesta sociedade porque só o que vai resolver é a Revolução Socialista, para que este seja um país social, igualitário, pois temos direitos iguais.

I - E a campanha contra a fome?

RF - Essa campanha é pra enganar as massas que não têm consciência. Mas o povo que tem consciência eles não conseguem enganar. A mim por exemplo, eles não conseguem, o negócio deles é a eleição. Esta história de dar uma bolsinha de compra, um prato de sopão,é pra ver se consegue
o voto do povão. Acho tudo isso errado.

I - Como você está vendo a organização atual do povo?

RF - Estou vendo o povo se organizando pra conquistar seus direitos, pra isso é preciso que eles tenham certo esclarecimento, porque os sindicatos, as associações, estão atreladas com seus políticos e isso é um tapa-boca, não podemos reivindicar pro patrão, então o povo está se organizando e passando por cima das direções sindicais e populares. Só falta uma direção correta pra que eles lutem melhor.

I - Quais são suas expectativas nas eleições gerais?

RF - Não espero muito, talvez a situação fique pior, com esta crise no Congresso talvez nem aconteçam eleições.

I - Como você vê a situação no mundo?

RF - A situação dos países capitalistas está igual a do Brasil. Agora, a situação dos países socialistas, como Cuba, por exemplo, que é o coração de todos os países, é diferente. Lá o povo obteve conquistas e esta é uma razão pra lutarmos pra que o Brasil conquiste as mesmas coisas que o povo cubano conquistou.

I - Qual a saída pra crise e pro mundo?

RF – É o povo se organizar e buscar seus direitos. É buscar a proposta socialista, por que de outra maneira a gente não vai ter saída, nem pro Brasil, nem pro mundo.

I - Uma mensagem para nossa juventude, pro nosso povo.

RF- Tenho 59 anos, e gostaria de ver meu país socialista, talvez alcance, talvez não. Mas alguma coisa boa quero deixar pra juventude e desejo que eles lutem até o fim, como nossos companheiros que morreram na luta e não se entregaram, como Prestes, são estes os passos que temos que seguir.

Nota de falescimento: https://inverta.org/jornal/agencia/movimento/camarada-rosida-presente