Fábrica de Monstros: Quando a Tinta Prepara a Pólvora
Fábrica de Monstros: Quando a Tinta Prepara a Pólvora
Sabemos que quando a grande mídia começa a repetir a mesma ladainha, alguém está afiando as facas.
Autor: Jorge Enrique Jerez Belisario | internet@granma.cu
2 de março de 2026 08:03:22
O mundo acordou no fim de semana com a notícia da Operação Fúria Épica. O nome, tão grandioso quanto vazio, não conseguiu esconder a brutalidade dos eventos: bombas caindo sobre Teerã, centenas de mortos e muitos prédios civis destruídos. Mas como chegamos a esse ponto?
O que aconteceu, que de forma alguma foi um acesso de fúria, baseou-se, em sua essência, em uma operação muito mais silenciosa e, à sua maneira, tão eficaz quanto qualquer bombardeio: a operação midiática.
Nos Estados Unidos, a máquina de propaganda nunca descansa. Ela não precisa. Durante meses, os principais meios de comunicação ocidentais atuaram como vanguarda do Pentágono. Eles empregaram o que alguns analistas chamam de "distorção perceptiva": apresentar cada movimento defensivo do Irã como uma ameaça ofensiva, ignorando o contexto histórico e saturando o espectro noticioso com o mantra de que o programa nuclear persa representa um perigo existencial para o mundo.
No discurso desses meios de comunicação, verbos como "bombardeou" ou "atacou" são usados para descrever os agressores, associados a ações táticas precisas e, portanto, suscetíveis a justificativas estratégicas. "Alvos militares" são mencionados para reforçar a ideia de uma guerra limpa e racional. Enquanto isso, para a resposta dos atacados, expressões como "lançou uma barragem" e "chuva de mísseis" são usadas, evocando violência descontrolada, barbárie e uma ameaça existencial.
É sistematicamente omitido que esses mísseis também atingem instalações militares ou de inteligência, o que leva o leitor a inferir que o ataque iraniano foi indiscriminado e direcionado contra civis. Essa assimetria se torna uma inversão moral: o agressor (aquele que bombardeia primeiro) é apresentado como um ator racional e defensivo, enquanto aquele que reage é retratado como uma besta irracional.
A mídia ocidental aperfeiçoou a técnica de desumanizar o inimigo por meio de rótulos que o despojam de sua complexidade. Os aliados regionais do Irã são sistematicamente chamados de "representantes", negando-lhes seu status como movimentos com raízes sociais e agendas políticas próprias. A Guarda Revolucionária Islâmica é apresentada como uma "estrutura de poder parasitária". O objetivo é apresentar o Irã não como um Estado-nação com interesses legítimos, mas como uma "cabeça da hidra" que precisa ser cortada para que a região retorne à normalidade.
E aí reside a armadilha. O jornalismo sério explica; a propaganda, por outro lado, rotula. Ao repetir incessantemente que o Irã é um "regime terrorista" ou uma "teocracia maligna", uma nação de 85 milhões de pessoas é desumanizada. Sua poesia, seu cinema, sua história milenar são apagados de uma só vez e, acima de tudo, qualquer crime cometido contra eles é justificado antecipadamente.
A máquina opera não apenas na mídia, mas também em centros de pesquisa e periódicos acadêmicos como a Foreign Affairs. Ali, são produzidas análises que, sob o disfarce de objetividade, preparam o terreno para a intervenção. Protestos internos no Irã são apresentados como evidência de um "colapso iminente", sem mencionar o papel de potências externas no financiamento e na organização dos distúrbios. O governo iraniano é descrito como "sem legitimidade", ignorando-se o fato de ter sobrevivido a décadas de sanções, guerras e interferências, o que demonstra precisamente sua notável resiliência institucional.
A história, teimosa como sempre, tende a se repetir, primeiro como farsa e depois como tragédia. Aqueles de nós que viveram os anos 2000 lembram como os mesmos métodos — notícias falsas, inexistentes "armas de destruição em massa" e uma imprensa cúmplice — pavimentaram o caminho para a invasão do Iraque. Aquela guerra deixou um milhão de mortos e um país destruído. Ninguém pagou pelas manchetes falsas. Ninguém pediu desculpas. E aqui estamos nós, com o roteiro reciclado, prontos para a próxima estreia.
Não há pior cego do que aquele que não quer ver, e é por isso que, quando os bombardeios foram ordenados, a semeadura já estava feita. Dias antes, o império falava de mísseis iranianos capazes de atingir os Estados Unidos, uma alegação refutada até mesmo por analistas ocidentais, mas útil para o que realmente importava: preparar a opinião pública, particularmente sua base mais fiel, para o que estava destinado a acontecer.
A estratégia é perversa, mas simples: criar um monstro na ficção e depois vender a solução por meio de ações. Os erros do Irã são ampliados, as provocações de Israel são silenciadas e estabelece-se uma hierarquia do sofrimento onde as vítimas "do outro" são apenas números, enquanto as "nossas" merecem biografias e condolências oficiais.
Todo esse aparato narrativo tem um nome: guerra psicológica. O objetivo é claro: desmoralizar a população iraniana, fazendo-a acreditar que seu isolamento é total e seu destino é o colapso. Desinformar a opinião pública ocidental, para que aceite como necessárias medidas que, de outra forma, seriam repudiadas. Preparar o terreno para a ação militar, construindo um consenso em torno da ideia de que "não há outra opção" senão atacar.
Em Cuba, sabemos disso. A diferença é que aprendemos a ler nas entrelinhas, a buscar a verdade contra a corrente dos grandes monopólios. Sabemos que, quando a grande mídia começa a entoar a mesma canção, alguém está afiando as facas.
Hoje, o Irã é o alvo escolhido. Amanhã, qual país será escolhido para ser desumanizado nas manchetes dos principais jornais? A tinta que alimenta a pólvora não faz distinção entre povos; apenas obedece.
Fonte: Granma
Publicado no Inverta em 03 de Março de 2026

