As plataformas de redes sociais não são neutras. São infraestruturas privadas que organizam o discurso público para maximizar a atenção, a interação e o engajamento. Nesse ecossistema, qualquer ator político — e particularmente os violentos — pode encontrar terreno fértil para angariar apoiadores, construir comunidades e normalizar a retórica extremista.
Relatórios recentes sobre o grupo do sul da Flórida que tentou se infiltrar em Cuba, em parte organizado por meio de plataformas como o TikTok, destacam mais uma vez um fenômeno que não é novo: o uso das redes sociais como espaço para recrutamento, propaganda e coordenação de organizações criminosas.
A origem importa. A Flórida — e especialmente o ecossistema político e midiático da extrema direita — tem sido, por décadas, uma arena pública fortemente tendenciosa contra Cuba, onde o discurso hostil é recompensado e onde, historicamente, existiram redes e climas que legitimam ações violentas sob a retórica da «libertação».
Para entender como ocorre a transição da «mobilização nas redes sociais» para a ação direta, é útil distinguir entre diferentes níveis. Os chamados manifestos em apoio à violência — na forma de vídeos, transmissões ao vivo, símbolos e códigos compartilhados — servem a uma função de construção de identidade. Eles sinalizam pertencimento a uma «causa», reforçam as queixas percebidas de uma comunidade e constroem uma narrativa épica. Em muitos casos, o contato inicial entre esses indivíduos ocorre em plataformas públicas, mas rapidamente migra para espaços mais fechados: mensagens diretas, grupos privados e aplicativos de mensagens. A parte verdadeiramente crítica — a coordenação logística, o armamento e o financiamento — vem depois e geralmente é realizada com extrema discrição para minimizar riscos e encobrir seus rastros.
Em pouco tempo, as plataformas de mídia social facilitam ações que não acontecem em um bairro à luz do dia. É improvável que um racista ou um terrorista grite as mesmas coisas repugnantes que vimos inúmeras vezes nas redes sociais ou no Facebook por meio de contas anônimas, nem encontrará uma massa de pessoas em seu entorno imediato que o apoiem abertamente. Na Internet, porém, a combinação de relativo anonimato, distância geográfica e menor custo social produz uma espécie de «desinibição». É por isso que vemos alguns usuários dizendo coisas ultrajantes que, cara a cara, receberiam condenação social imediata.
O famoso algoritmo das plataformas faz o resto. Ele facilita a conexão entre indivíduos com interesses em comum, e esses «ecossistemas de afinidade» criam câmaras de eco onde os extremos podem se tornar a norma porque são repetidos, celebrados e reforçados sem análise crítica.
Esse padrão não é exclusivo do caso cubano. A extrema-direita nos Estados Unidos demonstrou claramente como essa dinâmica funciona. O ataque ao Capitólio em Washington, em 6 de janeiro de 2021, foi alimentado por uma narrativa de fraude disseminada e coordenada em diversas plataformas, circulando entre redes convencionais e espaços «alternativos». A mobilização física foi o resultado visível de uma infraestrutura digital prévia, que combinava propaganda, grupos de membros e canais fechados onde ações violentas contra o principal símbolo do poder legislativo dos EUA eram coordenadas.
Portanto, o problema não reside no surgimento de «um vídeo isolado» ou «uma provocação solitária» em plataformas digitais. A violência simbólica, quando se torna rotineira e recebe aplausos, encurta a distância para a violência física, como demonstram os acontecimentos. Isso não significa demonizar a tecnologia. As redes sociais também podem ser usadas para organizar projetos legítimos, denunciar abusos e construir solidariedade. Mas ignorar seu uso por agentes violentos é uma ingenuidade que pode ter sérias consequências.
Fonte: Granma
Publicado pelo Inverta em 09 de março de 2026

