É difïcil viver da arte

O Inverta conversou com o artista popular Antônio Silva Arruda, 51 anos, morador da Ilha do Governador, que nos falou como iniciou sua arte, das dificuldades para sobreviver da mesma e sobre seu estilo e suas premiações.

Antônio Silva Arruda, conhecido como Antar, pinta em tela e em madeira, e também é artesão e poeta. “Gosto da poesia porque nos leva a extravasar o que estamos sentindo”. Na sua arte retrata o índio brasileiro.

Ele diz que o dom da arte vem de berço, “desde menino gosto de desenhar, e meu filho nasceu com o mesmo dom. Meu pai e minha mãe não me influenciaram neste campo, ela era doméstica e meu pai, antes de ser eletricista da Tupi, trabalhava em posto de gasolina".

"Desde os 11 anos que desenho. E tentei me aprimorar, fui para a Sociedade Brasileira de Belas Artes, na época me tornei sócio. Fiquei participando de umas aulas para ter uma base, porque sou um autodidata; na Sociedade aprendemos os macetes. A pintura aprendi em 1992 com J. M. Sobreiro, que na minha opinião é um dos grandes artistas que tivemos, ele já faleceu, aprendi a pintura por intermédio dele, porque eu não gostava de pintar, eu gostava de desenhar.

Tive uma tia que me incentivou, mas o problema é que arte não dá condições de sobrevivência, por isso tentei terminar meu 2o Grau pra ver se conseguia entrar para a Escola de Belas Artes. Mas a Belas Artes está caindo aos pedaços, não tem nada lá dentro, foi preciso uma aluna argentina para colocar a boca no trombone, não tem banheiro, está tudo quebrado, o forno de bar está ruim, então ficamos a mercê, foi por isso que deixei a arte de lado e fui fazer outra coisa, pois precisamos buscar as condições de sobrevivência” .

Arruda trabalhou como bancário de 1972 até 1996. “Trabalhei no banco Nacional, que já se extinguiu. Depois, passei no concurso para o Banerj, que também não existe mais. Um dia também tentarão nos extinguir”.

"Trabalhei no Banerj até 96, quando fui despedido; lutamos pela reintegração e vencemos em primeira instância, mas perdemos na segunda, e hoje continuamos a lutar pela reintegração no Supremo Tribunal Federal. Enfim, estou desempregado e tendo que sobreviver com o que sei fazer que é minha arte. Não encontro facilidade, nós artistas somos considerados como camelôs, quando estamos trabalhando na feira a polícia da prefeitura nos persegue como se estivéssemos trabalhando com contrabando, do à mesa o representante do CEPPES (Centro de Educação Popular e Pesquisas Econômicas e Sociais), o sociólogo Haroldo de Moura, que após o vídeo fez uma breve exposição, e para mediar o debate, o representante do PCML (Partido Comunista Marxista-Leninista), Valter Veríssimo.

O debate colocou na ordem do dia, além da luta do povo colombiano por paz com justiça social, a política capitalista, imperialista e neoliberal dos EUA; a importância da Améno entanto, é só nosso produto artístico. No meu caso eram quadros e meu artesanato. Eles afirmam que para trabalharmos precisamos estar legalizados com licença, só que é uma burocracia imensa. Quando fiz a Sociedade Brasileira de Belas Artes eles diziam que com a carteirinha eu podia expôr em qualquer lugar do Brasil, que com ela eu podia chegar na praça e expôr meu trabalho. Com a inauguração do ca- melódromo, eles cortaram nossos direitos, temos que entrar em uma fila imensa para conseguir uma autorização para feira hippie, que só alguns privilegiados conseguem o calçadão de Ipanema e Copacabana. Na Ilha, realmente é super difícil. Eu estava expondo na Ribeira, levava quadros e meu artesanato, e este último ainda conseguia vender porque era a três reais, já os quadros são mais difíceis. O povo não compra porque é caro para seu poder aquisitivo, não tem acesso à arte, ou seja, não é desenvolvido uma cultura para que ele goste e desenvolva a cultura. Um quadro meu que custa R$ 350,00, eu abaixo o preço para R$100,00 e não consigo vender, não estou tirando moldura nem nada, e moldura é caríssima, nosso povo não tem aquela cultura como outros países que dão ênfase à arte, e tanto faz artesanato, pintura ou leitura que também é uma arte. Eu fiquei durante 6 meses expondo meus trabalhos no Largo da Carioca, eu não tinha nem dinheiro para passagem, para expôr meu trabalho, parei a exposição devido a essas más condições”; lamentou Arruda.

Ele encerrou o bate-papo falando de suas influências: “gosto de fazer todo tipo de arte, desde a paisagem até personalidades, pintei Fidel Castro e presenteei um amigo, gosto também de retratar os índios porque é uma maneira de falar da sociedade, denunciar o que estão fazendo contra os indígenas de todo o mundo, os americanos exterminaram todos os seus indígenas, e esse trabalho que desenvolvo é importante pois com ele estou absorvendo a cultura dos nossos indígenas e de outras nações. Pintei o mexicano Siqueira, que era um grande muralista, ele produziu o mural “Nova Democracia” que é exposto na sede do governo do México, é um mural enorme e lindo, não rica Latina para os interesses imperialistas; o Plano Colômbia - plano bélico dos EUA para a região da Amazônia. O papel do Brasil na América Latina; a importância da Venezuela e de Cuba em especial, para a América Latina e a luta do povo colombiano por uma nova Colômbia; a construção do partido nos princípios marxistas-leninistas no Brasil; o internacionalismo proletário e o papel do INVERTA.

O quantitativo da participação ultrapassou as expectativas dos organizadores, numa demonstração de que o povo e a classe operária em especial, se interessam pela discussão das questões políticas, com isso se colocam dispostos a construir as alternativas no sentido de solucionar os problemas comuns da classe trabalhadora.

Os músicos Marcos Damasceno e Marta Paixão, que são amigos do INVERTA, mais uma vez, brindaram o público presente com excelentes interpretações que engran-sei como ele conseguia fazer essa arte, gosto muito dele, e faço suas obras não no intuito de ser um charlatão pelo fato de copiar a obra de um outro artista que já morreu, mas penso que é bom divulgar o que Siqueira pensava naquela época, que são temas atuais, ele fazia denúncias, pois tem a Mãe Camponesa, e hoje você vai no sertão e está lá 50 mil famílias passando fome, tem a Nova Democracia como já mencionei, em que aparece um cara algemado, sendo esquartejado com chicote, e você vê que hoje está sendo a mesma porcaria de antigamente, na época do colonialismo, por isso eu pinto muitas coisas dele. Aqui, o governo continua a mesma coisa, o "fome zero" quem paga somos nós. Os artistas populares estão à margem do sistema. Mas tenho esperança de tudo mudar. Um dia ainda vou fazer um trabalho no veludo com Fidel e vou à Ilha presenteá-lo. Essa arte não é conhecida, ela foi divulgada por um grande artista que ainda é vivo, o Hamed, que não passa para ninguém a técnica e acho isso errado, ele acha que tem que ficar na família. Como nós, artistas, somos curiosos, investigadores, conseguimos também fazer a pintura no veludo, e tem alguns pintores produzindo trabalhos com essa técnica. Mas o povo realmente só poderá desenvolver seu verdadeiro potencial artístico em uma outra sociedade, que é a socialista".

As premiações recebidas por Arruda são poucas e ele não gosta de divulgar muito, "primeiro porque é dada pela burguesia, tenho duas menções honrosas e uma medalha de bronze que recebi por um quadro que tenho e que está avaliado em R$1.500,00, é o quadro Passeio na Mata Atlântica, que fiz em Angra dos Reis. Também já recebi uma medalha de prata por um quadro que fiz chamado Toaregue.

Arruda finalizou falando da esperança que tem nos jovens. “Espero que nossos jovens nunca desistam de seus sonhos; pode ser um professor, um artista, mas temos que falar como nosso amigo Che Guevara sobre as três situações: devem ser os primeiros no trabalho, no conhecimento e no fuzil”.

Osmarina Portal Sucursal RJ