E depois da invasão “humanitária” à Líbia?

Pode-se perceber então que, por um lado, a guerra contra pequenos e médios países do Norte da África e do Oriente Médio apresenta-se como uma forma de movimentar economicamente o poderoso complexo industrial-militar e saquear as reservas de petróleo para solucionar a crise energética.

Em novembro de 2010, os países que compõem a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) reuniram-se em Lisboa para definir o que seu secretário-geral, o dinamarquês Anders Fogh Rasmussen, chamou de “novo conceito estratégico” que permitiria à organização “atuar em qualquer lugar do mundo”. As provocações contra a República Democrática da Coréia três dias depois desta cúpula, a divisão do Sudão, a repressão aos protestos no Bahrein e no Iêmen e as recentes invasões à Costa do Marfim e à Líbia revelam bem a reforçada disposição de conquista da aliança militar liderada pelos Estados Unidos.

Militarmente, a chamada “Doutrina Obama” foi enunciada num discurso de 28 de março deste ano. De acordo com o Nobel da Paz, “eu deixei bem claro que nunca hesitarei em usar nosso poder militar rápida, decisiva e unilateralmente quando for necessário defender nosso povo, nossa pátria, nossos aliados e nossos interesses centrais (...). Haverá momentos, porém, em que nossa segurança não estará diretamente ameaçada, mas nossos interesses e valores estarão. Algumas vezes, o curso da História impõe desafios que ameaçam nossa humanidade e segurança comuns (...). Estes não serão problemas apenas da América (sic), mas eles são importantes para nós, e vale a pena serem resolvidos. E, nestas circunstâncias, sabemos que os Estados Unidos, como a nação mais poderosa do mundo, serão freqüentemente chamados para prestar socorro. Nestes casos, não devemos ter medo de agir – mas o fardo da ação não pode ser somente da América (sic)”. Em outras palavras, diferentemente da “guerra preventiva” de George W. Bush, os Estados Unidos, na atual conjuntura de crise, querem continuar sua agenda de agressões, mas pretendem repartir os custos (e, conseqüentemente, o espólio) com outros países-membros da OTAN. Entendida esta doutrina militar, é preciso conhecer quem são os alvos mais imediatos do imperialismo.

No livro Winning Modern Wars, o general estadunidense Wesley Clark declarou: “quando retornei ao Pentágono em novembro de 2001, um dos oficiais militares superiores teve tempo para uma conversa. Sim, ainda estamos em vias de ir contra o Iraque, disse ele. Mas havia mais. Isto estava sendo discutido como parte de um plano de campanha de cinco anos e havia um total de sete países, a começar pelo Iraque e então a Síria, Líbano, Líbia, Irã, Somália e Sudão".

Logo, os Estados Unidos, sob o falso pretexto de busca de armas de destruição em massa e num claro desrespeito à Carta da ONU – o então secretário-geral Kofi Annan afirmaria em entrevista ter sido esta guerra ilegal –, iniciaram a invasão ao Iraque em março de 2003. Na ofensiva, foram cometidos inúmeros crimes de guerra, como a utilização de bombas de fósforo branco, e abusos contra os direitos humanos, expostos, por exemplo, nas fotos de tortura nas prisões de Abu Ghraib. Além disso, deve ser destacado processo de terceirização da própria guerra: a utilização de mercenários, em geral latino-americanos residentes nos Estados Unidos desesperados por um emprego, que trabalham para empresas privadas de segurança contratadas pelo governo da potência norte-americana. O Iraque atualmente está mergulhado numa guerra civil, estimulada – com o objetivo de minar a resistência organizada que têm enfrentado desde a invasão de 2003 – pelos próprios estadunidenses, os quais intensificaram as divisões nacionais existentes entre xiitas, sunitas e curdos, fornecendo-lhes armas indiscriminadamente.

Em julho de 2006, aproveitando-se do contexto de Copa do Mundo na Alemanha, Israel, principal aliado da potência norte-americana no Oriente Médio, lançou uma forte investida militar contra o Líbano, sob pretexto de resposta ao seqüestro de dois soldados e ao ataque de jipes do exército pelo Hizbollah. O grupo libanês, por sua vez, declarou que os soldados seriam utilizados como moeda de troca em negociações para a libertação de três libaneses detidos sem processo legal pelo Estado terrorista. De acordo com o jornalista Seymour Hersh da revista New Yorker, "Israel tinha um plano para atacar o Hizbollah ‘muito antes’ do rapto dos dois soldados israelitas a 12 de Julho" e os Estados Unidos sabiam disso. No decorrer do conflito, enquanto o grupo libanês atacava alvos militares sionistas, Israel desatou um bombardeio aéreo sobre as cidades e a infraestrutura do país, assassinando, em sua maioria, civis. Apesar desta agressão em larga escala, a qual contou inclusive com a utilização de bombas de fragmentação, a vitória do Hizbollah foi incontestável. Além de reiterar o caráter criminoso dos sionistas e a inefetividade de seu poderoso exército – considerado até então “invencível” – contra uma força guerrilheira que conta com respaldo popular, a resistência do grupo projetou-o política e militarmente, aumentando sua representatividade entre a população libanesa e o mundo árabe em geral.

A Somália encontra-se num estado de guerra civil desde o final dos anos 1980. Apesar de sua vantajosa localização geográfica no Chifre da África e sua riqueza em minerais e combustíveis fosseis, o país é um dos mais miseráveis do mundo e, dominado pelos “senhores da guerra”, desde 1991 não tem um governo centralizado. Neste contexto, alguns empresários passaram a estabelecer cortes islâmicas locais a fim de punir ladrões e todos que não cumprissem seus contratos. Em pouco tempo, estas prestariam também serviços sociais, como assistência médica e educação, angariando forte apoio popular. Algumas destas cortes se uniram e formaram, no ano 2000, a União das Cortes Islâmicas, grupo que dizia querer restaurar a estabilidade e a legalidade, além de conter a influência estrangeira. Em resposta, os Estados Unidos lançaram em 2002 a Operação Liberdade Duradoura – Chifre da África e passaram a organizar e financiar senhores da guerra que mantivessem o país no caos que viabilizava a exploração incontrolável das grandes potências. Em junho de 2006, depois de intensos combates, a UCI informou que controlava a capital, Mogadíscio. Para sabotar a possível unidade e reconciliação do país, os Estados Unidos passaram a apoiar o Governo Federal de Transição (GFT) sem qualquer base social tampouco exército. Para tal defesa, contaram então com o regime títere de Zenawi Meles na Etiópia, a quem tampouco interessava a consolidação de um governo forte e estável na região que debilitaria seu país diante da rival, Eritréia. Em dezembro, sob o pretexto de atacar os aliados da Al-Qaeda, acusação dirigida pelos Estados Unidos contra a UCI, o exército etíope, financiado pela grande potência, invadiu a Somália.

Embora tenha perdido a guerra e sido expulso, logrou dispersar os grupos que compunham a UCI, estabelecer o GFT como regime-fantoche e manter o caos no país. Entretanto, uma ramificação da UCI ainda conseguiu manter-se unida: o Al-Shabaab, grupo que sustenta um enfrentamento direto contra o GFT. A administração Obama tem culpado a organização pelo recrudescimento da fome no país nestes últimos meses e usado isso como pretexto para reforçar sua presença militar na Somália. De acordo com o jornalista Jeremy Scahill da revista The Nation, “a presença da CIA em Mogadíscio é parte da intensificação do foco de Washington contra o terrorismo na Somália, o que inclui ataques pelas Forças de Operações Especiais dos Estados Unidos, investidas de drones [aviões não-tripulados] e operações de vigilância estendidas”. Scahill aponta também que a CIA conta com agentes de inteligência somalis em sua folha de pagamentos e administra uma prisão secreta nos porões da sede da Agência de Segurança Nacional da Somália. No dia 17 de outubro, o Quênia invadiu o Baixo Juba, no sul da Somália, acusando o Al-Shabaab, apesar de este negá-lo, de ter seqüestrado duas médicas espanholas em seu território. É muito provável que este seja um próximo palco de guerra da OTAN. Além da neutralização do grupo islâmico, o objetivo da organização militar é acabar também com os chamados “piratas” da costa somali. Deste modo, as potências imperialistas ocidentais retomariam o controle total do Golfo de Áden – rota do transporte marítimo entre Ásia e Europa; a pesca ilegal e não declarada de atum realizada pelas grandes frotas pesqueiras, principalmente francesas e espanholas; e o depósito de contêineres com lixo tóxico (dejetos radioativos de urânio, metais pesados, lixo hospitalar etc) nas águas territoriais somalis. Estas atividades foram reduzidas pela ação de pescadores locais que se organizaram em pequenos grupos armados autodenominados “guarda-costas voluntários da Somália”. Entretanto, num país sem governo, repleto de armas e dividido em grupos rivais, a estes pescadores logo se uniriam ex-combatentes que, além de reforçarem consideravelmente seu arsenal bélico, transformaram um processo legítimo de auto-defesa num negócio lucrativo de captura de barcos e exigência de resgates. De qualquer forma, por defenderem o país da exploração desenfreada das potências imperialistas, contam com cerca de 70% de apoio da população local, conforme uma pesquisa – admitida como “não-científica” – feita pelo site independente de notícias Wardheernews.

O Sudão, por sua vez, foi balcanizado no começo deste ano sob pretexto de pacificação de dois grupos nacionais em conflito há mais de vinte anos: os árabes muçulmanos do norte e os negros cristãos e animistas do sul. A criação de um frágil Sudão do Sul explica-se, de fato, pela região meridional concentrar mais de 80% do petróleo do antigo país, sendo que 65% desta cifra iam para a China. A tendência agora é a intensificação da presença das grandes refinarias dos países imperialistas e a conseqüente redução da parcela chinesa. Dez dias depois da “independência”, o novo presidente, o general Salva Kiir Mayardit, afirmou que, por mais que o país fosse contar, num primeiro momento, com o transporte e refino realizados pelo norte, trataria de construir em três anos sua “própria” infraestrutura. Deve-se destacar que Mayardit foi o comandante-em-chefe do Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA), braço militar do Movimento Popular de Libertação do Sudão (SPLM), formando os dois juntos o partido SPLA/M. Enquanto ainda lutava contra o governo de Omar Al-Bashir no anos 1990 e 2000, o SPLA recebeu armas de Israel, enviadas pela Etiópia e depois por Quênia e Uganda. E, ainda, membros do SPLM visitaram regularmente Tel Aviv, contando inclusive com escritórios no país. Estes laços com o Estado sionista e o amplo apoio dos Estados Unidos ao novo país revelam os profundos vínculos das classes dominantes locais com o capital internacional ocidental.

A invasão à Líbia foi conduzida principalmente pela França, mas também por Inglaterra e Estados Unidos. O regime de Gaddafi apresentava os melhores indicadores de IDH da África e, ainda que tivesse se aproximado consideravelmente das potências ocidentais nos anos 1990 e 2000, mantinha certo grau de soberania. Além de ter sido um dos poucos países do Mar Mediterrâneo que não compunham a OTAN – assim como Síria e Líbano –, a Líbia era também um dos poucos do continente africano que não fazia parte da aliança militar Africa Command (AFRICOM), coordenada pela OTAN. Aproveitando-se do levantamento popular legítimo ocorrido na chamada “Primavera Árabe” do final de 2010 e início de 2011 no Oriente Médio e Norte da África, a OTAN estimulou grupos opositores inicialmente inexpressivos a fazerem manifestações e ações armadas no leste da Líbia. Empunhando a bandeira da época da monarquia líbia pró-imperialista da família Idris (1951-1969) e tendo como centro Benghazi, uma cidade rica em petróleo e onde atuam as principais companhias internacionais, os “rebeldes” seriam armados pela OTAN, a qual impôs uma “zona de exclusão aérea” – leia-se “permissão para bombardeios aéreos” – ao país. Esta foi garantida pela Resolução 1973 da ONU, que se baseia no princípio ilegal de “responsabilidade de proteger” e abre um perigoso precedente nas relações internacionais. Apesar da completa desproporção de forças, a resistência líbia combateu por mais de oito meses e o autodenominado Conselho Nacional de Transição (CNT) encontrou sérias dificuldades para tomar cidades como Bani Walid e Sirte, cidade-natal de Gaddafi. No dia 20 de outubro deste ano, o comboio em que estava Gaddafi foi atingido pelos bombardeios da OTAN e o ex-dirigente foi capturado e depois assassinado pelo CNT, numa clara violação aos direitos dos prisioneiros de guerra garantidos pela Convenção de Genebra. O curioso é que a justificativa alegada pelo Tribunal Penal Internacional para a emissão da ordem de detenção contra Gaddafi era salvaguardar os princípios desta mesma convenção. O CNT prometeu que, dentro de oito meses, seriam convocadas eleições para uma Conferência Pública Nacional – órgão encarregado de nomear um primeiro-ministro, um governo interino e um poder constituinte. Neste período, as potências da OTAN exigirão o seu espólio: acordos milionários sobre o petróleo líbio que paguem as despesas de guerra. Além disso, para realizar a reconstrução da infra-estrutura de um país devastado por bombardeios lançados em nome da “defesa da população civil”, o CNT solicitará empréstimos a estas potências e a suas instituições internacionais. Estes recursos, por sua vez, pagarão contratos elaborados com construtoras e empresas de segurança destas mesmas potências, o que aumentará a dependência econômico-financeira do país. E, para completar, é possível que se desenhe um cenário de conflito social interno, devido às divisões e rivalidades criadas pela guerra e à disputa entre os mais variados grupos políticos em torno de seus respectivos projetos nacionais.

Apesar de terem sido neutralizadas, as revoltas árabes expuseram as principais ditaduras apoiadas pelas potências ocidentais na região e promoveram uma alteração na correlação de forças local. Na Tunísia e no Egito, onde foram mais expressivas, os Estados Unidos lograram uma troca de peões que serviam seus interesses, já que, além dos governos oficiais de Ben Ali e Hosni Mubarak, o país imperialista dialogava com setores da oposição moderada local. Deve-se ressaltar, porém, que os protestos no Egito continuam, já que está muito claro o papel desempenhado pelo “novo governo” da Junta Militar. Destaca-se a manifestação, ocorrida no começo de setembro, em que, depois de derrubado o muro da embaixada de Israel no Cairo, um jovem subiu o edifício e substituiu a bandeira hasteada do país sionista por uma do Egito. Algumas semanas depois, já em outubro, os cristãos coptas saíram às ruas da capital contra a passividade do governo e das forças armadas em relação aos constantes ataques que sofre sua comunidade por correntes islâmicas. Em países como Bahrein e Iêmen, nos quais as grandes potências não dispõem de quadros na oposição burguesa moderada, o seu duplo discurso democrático ficou escancarado. No primeiro, houve uma invasão coordenada por Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos para conter os protestos da população xiita contra a monarquia sunita da família Al Kalifa. Já no segundo, os EEUU mantêm uma guerra secreta, lançando com seus drones bombardeios aéreos para defender o regime de Saleh contra uma das comunidades mais fortes do país, a confederação Hashid, o que levou o Iêmen a uma pesada guerra civil que tem provocado um grande êxodo da capital Sanaa.

Nota-se, portanto, que a “primavera árabe” é um levante popular que questiona profundamente as ditaduras títeres da região num momento de crise econômica, mas, devido aos conflitos religiosos internos e à forte repressão, sem uma organização política forte nestes locais que levasse o movimento às suas últimas conseqüências. E, por esta razão, não pode ser confundida com as ações armadas e/ou “manifestações” organizadas por uma oposição diretamente ligada ao capital internacional em países que ainda mantêm uma postura mais independente, como Líbia, Síria ou Irã. Esta oposição apropriou-se de uma conjuntura de levantes autênticos no mundo árabe e reivindicou ser parte de um mesmo fenômeno. De fato, a “primavera árabe”, além de ter expressado a indignação latente destes povos, enfraqueceu politicamente o Estado de Israel por estremecer aliados locais importantes, fragilizar seu discurso racista e promover um distanciamento por parte dos novos governos estabelecidos – e até mesmo dos antigos, como foi o caso da retirada do corpo diplomático jordaniano do país fascista -, devido à radicalização do mundo árabe. Este refluxo político propiciou, por exemplo, o contexto diplomático para a proposição de um Estado palestino nos encontros da ONU deste ano e a posterior negociação de troca de prisioneiros.

É neste cenário também que se encontram as constantes ameaças lançadas contra Síria e Irã. Salim Kheirbek, um reputado ativista sírio dos direitos humanos, disse: “com o governo de Gaddafi a ponto de terminar, a OTAN vai provavelmente lançar suas forças contra a Síria. Nosso presidente acredita que eles estão se preparando para um ataque contra nós, o que dificilmente facilitará mudanças democráticas. Eu não faço a mínima idéia do que poderá acontecer com a Síria neste caso”. E ainda, conforme o enviado russo junto à OTAN, Dmitry Rogozin, “a OTAN está planejando uma campanha militar contra a Síria para ajudar a derrubar o regime do presidente Bashar Al-Assad com o objetivo de longo prazo de preparar uma cabeça de ponte para um ataque contra o Irã”. Com efeito, a retórica contra Assad tem-se assemelhado muito à usada contra Gaddafi: o ditador anti-ocidental que reprime protestos pacíficos em s­­­­eu país e, pela “responsabilidade de proteger”, as potências imperialistas têm o dever humanitário de impor sanções e, caso necessário, preparar uma guerra para a proteção da população.

O Irã, por sua vez, conta com um expressivo arsenal bélico, uma localização estratégica – entre a Ásia Central e o Oriente Médio, banhado pelo Mar Cáspio e pelo Golfo Pérsico – e petróleo. A preocupação russa procede: o país islâmico tem status de observador na Organização para Cooperação de Shangai – Rússia e Irã já fizeram inclusive exercícios militares conjuntos no Mar Cáspio – e o oleoduto de 182 km Dauletabad-Sarakhs-Khangiran, que, desde 2010, liga o Irã ao Turcomenistão, é uma importante fonte de gás para a Rússia. Washington desenvolve uma política cada vez mais agressiva contra Teerã: ao mesmo tempo em que tenta isolar diplomaticamente o país, cerca-o por todos os lados com bases militares. Uma de suas mais recentes iniciativas neste sentido é o radar antimíssil que se pretende instalar na Turquia, acordado na cúpula de Lisboa do ano passado.

Há ainda uma disputa no campo energético: enquanto o Irã quer projetar um gasoduto de Asaluyeh a Nova Déli, passando pelo Paquistão, o que aumentaria sua proteção econômica contra as constantes sanções imperialistas, os estadunidenses propõem um gasoduto trans-afegão, entre Turcomenistão, Afeganistão, Paquistão e Índia, que exclui, portanto, o país persa. A potência norte-americana sabe da relevância iraniana na região, sua força político-militar e a completa desarticulação da oposição interna – em contraposição à unidade dos que apóiam a Revolução Iraniana. E, portanto, a Síria parecia ser um adversário mais imediato da grande potência: tanto para a OTAN garantir o domínio quase completo do Mar Mediterrâneo, como também porque, apesar de não serem fronteiriços, a rota para Teerã passa necessariamente por Damasco. O problema é que o cenário sírio apresenta também algumas especificidades que tornam esta abordagem mais complexa.

Na Síria, a grande imprensa tem defendido os assim chamados “manifestantes pacíficos” contra o “regime opressor de Assad”. No entanto, na cidade de Daraa, ao sul, desde o início dos protestos, em meados de março, tem havido troca de tiros entre pistoleiros armados e forças governamentais, além de atos incendiários contra edifícios oficiais. Em Hamah, ao norte, fontes israelenses (o site DEBKAfile) reconhecem que existiam opositores “armados com metralhadoras pesadas”. Ao que tudo indica, ao lado das movimentações pacíficas, há uma insurgência armada no país sobre a qual não se comenta. Por mais que Assad conte com um expressivo respaldo popular, devem ser conhecidas as causas, que, de fato, existem, para um levante sírio. Devem-se principalmente à adoção, em 2006, de reformas econômicas orientadas pelo FMI, como congelamento de salários, desregulamentação do sistema financeiro e privatizações. Além disso, devido a estas medidas, formou-se uma facção pró-estadunidense nos escalões superiores do Exército e da inteligência do país. Estes grupos, porém, mesmo se opondo a Assad, não apóiam – pelo contrário, rechaçam – os insurgentes armados que se dizem “pró-democracia”.

O professor Michel Chossudovsky do site canadense GlobalResearch advoga que “o Mossad de Israel, segundo relatos, tem proporcionado apoio encoberto a grupos terroristas radicais salafitas, os quais se tornaram ativos no sul da Síria no início do movimento de protesto em Daraa em meados de março”, levantando ainda que a Arábia Saudita pode estar por trás do financiamento desta insurgência. Chossudovsky denuncia então que “o governo turco do primeiro-ministro Recep Tayyib Erdogan está apoiando grupos de oposição sírios no exílio e ao mesmo tempo também os rebeldes armados da Irmandade Muçulmana no Norte da Síria. Tanto a Irmandade Muçulmana síria (cuja liderança está exilada no Reino Unido) como o proibido Hizb ut-Tahrir (o Partido da Libertação) estão por trás da insurreição. Ambas as organizações são apoiadas pelo MI6 britânico”. O governo de Assad tem acusado a Turquia de apoiar diretamente a incursão de forças rebeldes ao norte e oficiais sírios que conduzem investigações nas áreas de conflito têm constatado que os combatentes estão usando armas e munições turcas.

Estes insurgentes são, na verdade, terroristas islâmicos organizados e treinados pela OTAN e pela Turquia, que têm estimulado uma divisão na sociedade síria, cometendo ataques contra os alauitas, cristãos e druzos do país, que sempre conviveram harmonicamente. Estes esquadrões da morte, sob a orientação do general David Petraeus, apontado por Obama como novo chefe da CIA, formaram o chamado Conselho de Salvação Nacional, uma espécie de governo sírio no exílio, semelhante ao Conselho Nacional de Transição líbio.

Uma invasão à Síria integraria os separados palcos de guerra dos países árabes, a saber, Afeganistão-Paquistão, Iraque, Palestina e Líbia, abarcando, pelo mar e por terra, toda uma região que se estende do norte da África à Ásia Central. A Síria constitui o único estado independente e secular do mundo árabe, dispondo de uma base anti-imperialista que apóia, por exemplo, a luta do povo árabe-palestino, e o objetivo da OTAN é desestruturá-la para estabelecer alguma monarquia, república islâmica ou “democracia” pró-ocidental. E, para completar, uma intervenção à Síria desestabilizaria o Líbano, criando o pretexto para uma invasão israelense contra este país.

No caso sírio, porém, a Rússia expressa uma oposição mais contundente a uma eventual saída militar e insiste numa solução negociada de reformas políticas internas. Por isso mesmo, o país euro-asiático e a China vetaram as “medidas dirigidas” contra Damasco do Conselho de Segurança da ONU. O Irã também tem defendido uma retórica considerada mais moderada, referindo-se a “demandas legítimas” dos opositores e advogando também uma reforma política no país.

O cientista político iraniano Kaveh L. Afrasiabi enfatiza que a visita do emir do Qatar, o xeique Hamad bin Khalifa al-Thani, foi determinante para a alteração de uma defesa cega de Assad por parte do regime iraniano para uma aproximação mais nuançada sobre a questão. Politicamente, segundo ele, há diversos motivos para tal postura: a intenção iraniana de aproximar-se da Turquia e dos seus vizinhos árabes do Golfo Pérsico; uma incidência maior entre os xiitas do Bahrein – Damasco expressou abertamente seu apoio à repressão saudita – e até a utilização das reformas na Síria para pressionar a contestada monarquia bareinita a tomar as mesmas medidas; e não estar tão vinculado a um regime que deve fazer concessões às demandas dos países imperialistas ocidentais. Em contrapartida, argumenta, os sírios verão a moderação no discurso de um aliado até então tão próximo como um elemento indicador de que este não é completamente confiável.

Deve-se levar em consideração que, diferentemente da Líbia, a existência de um inimigo externo tão agressivo e intransigente como Israel permite uma coesão interna bem mais significativa entre o povo sírio, fator fundamental durante uma guerra. Assad está disposto a realizar as reformas internas indicadas por Rússia e Irã, já tendo se comprometido com uma considerável mudança constitucional, eleições diretas e até um sistema multipartidário. Isso, de fato, não alterará a disposição da OTAN em invadir o país, mas é um elemento retórico a mais ao qual Rússia e China poderão recorrer para a manutenção de seu apoio na ONU. Como a invasão ao Iraque já demonstrou, este veto só será efetivamente respeitado se estes países dispuserem de real capacidade de contenção militar. E, além do mais, a guerra contra a Líbia e a manutenção do conflito em países como Iraque e Afeganistão-Paquistão têm exaurido muito os recursos das grandes potências que compõem a OTAN, as quais estão enfrentando uma crise econômica interna sem precedentes.

Deve-se atentar que o representante estadunidense na Síria, Robert S. Ford, já tinha trabalhado na embaixada de Bagdá com John D. Negroponte. Este último tem uma vasta experiência na formação de esquadrões da morte e forças paramilitares para a desestabilização de países. Embaixador em Honduras entre 1981 e 1985, infiltrou e apoiou os “contras” na Nicarágua sandinista e, depois, no Iraque, organizou esquadrões curdos e xiitas para combaterem a resistência. Ford, “número dois” no Iraque e “discípulo” de Negroponte, mantém contatos com os grupos opositores na Síria, tendo viajado em julho para Hamah. Neste caso, portanto, a solução estadunidense pode ser a paulatina desestabilização do governo de Assad por grupos paramilitares até que a potência e seus aliados da OTAN estejam em melhores condições econômicas e militares para lançarem uma ofensiva definitiva.

Pode-se perceber então que, por um lado, a guerra contra pequenos e médios países do Norte da África e do Oriente Médio apresenta-se como uma forma de movimentar economicamente o poderoso complexo industrial-militar e saquear as reservas de petróleo para solucionar a crise energética. Por outro, os gastos nela implicados aumentam o déficit dos governos dos EEUU e da UE, evidenciam a hipocrisia dos argumentos imperialistas da OTAN para suas agressões e precipitam o sistema capitalista a sua crise inevitável.

Neste caso, cabe recordar a frase de Mao Tse-Tung no Livro Vermelho: “o imperialismo não pode durar muito precisamente porque pratica, a todo o momento, toda a espécie de atos infames. Ele persiste em proteger e ajudar os reacionários que, nos distintos países, estão contra o povo; domina pela força muitas colônias, semi-colônias e bases militares, bem como ameaça a paz com a guerra atômica. Assim, forçados pelo imperialismo, mais de noventa por cento dos povos do mundo estão de pé ou hão-de levantar-se em massa numa luta contra ele. Contudo, o imperialismo ainda está vivo, e ainda continua a praticar desmandos na Ásia, África e América Latina. No Ocidente, os imperialistas ainda continuam a oprimir as massas populares de seus próprios países. Essa situação tem que mudar. Constitui tarefa dos povos de todo o mundo pôr fim à agressão e opressão perpetradas pelo imperialismo, sobretudo pelo imperialismo norte-americano”.

 

Vinicius Cione

 

Amilcar Alho
Amilcar Alho disse:
08/11/2011 15h43

_A Líbia tem muito petróleo não é ? _Dizem que + de 80% do PIB Líbio é o Pitrol...Deve ser por isso ke muita gentalha hipócrita , diz pretender "Libertar o Povo Líbio da opressão" !!!

carlos villa
carlos villa disse:
14/11/2011 10h25

No tempo da ex-Uniao Sovietica, a Otan (diga-se EUA) nao aventuravam-se desta maneira.
E o medo!

Fábio Campos
Fábio Campos disse:
20/11/2011 17h09

Kadaffi não merecia ter sido assassinado, o homem que mudou a vida de milhões de pessoas em seu país..eu tenho e livro verde e vejo que os verdadeiros assassinos do povo líbio nunca serão presos, pois estão no poder. Vida a Saif viva o livro verde, viva a vida!

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