Brasil fora do Mapa da Fome e a soberania nacional
O recente relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026 confirma que o Brasil permanece fora do Mapa da Fome, que menos de 2,5% da população encontra-se em situação de subnutrição e que a insegurança alimentar severa alcançou o menor nível dos últimos anos. Embora isso não signifique, de forma alguma, que a pobreza dentro do Brasil, sob as amarras do capitalismo, tenha desaparecido, nem que as desigualdades históricas tenham sido superadas, os dados revelam que milhões de brasileiros e brasileiras deixaram de viver a fome — essa experiência brutal, desconhecida da burguesia e de grande parte das camadas médias — produzida pela desigualdade e uma das faces mais cruéis do capitalismo.
Há uma pergunta que ajuda a compreender o significado dos dados divulgados pela FAO: que soberania pode exercer um país incapaz de garantir alimento ao seu próprio Povo? A resposta não reside apenas nas estatísticas. Não há como negar que um povo submetido à fome torna-se mais vulnerável em todos os sentidos, à pobreza, às crises econômicas e às diferentes formas de dependência. Garantir alimentação aos próprios trabalhadores que produzem as riquezas do país não assegura, por si só, a soberania nacional, mas constitui uma de suas bases materiais. Nenhum projeto de país verdadeiramente soberano pode se sustentar enquanto parte de seu Povo é privada do direito mais elementar à existência.
E essa relação entre direitos sociais e soberania não se limita à alimentação. Poucos dias depois da divulgação dos dados sobre a fome, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, esteve no Brasil e classificou o Sistema Único de Saúde (SUS) como exemplo para o mundo, justamente por garantir atendimento universal a uma população de mais de 200 milhões de pessoas. O reconhecimento internacional não se deve a uma ação isolada deste ou daquele governo, mas à existência de uma construção histórica que colocou a saúde como direito e não como mercadoria. O SUS é resultado da Constituição de 1988, da luta social e política, do trabalho de milhões de profissionais e da capacidade do Estado brasileiro de organizar uma política pública universal.
Alimentação e saúde, portanto, não são questões separadas da soberania nacional, ao contrário, elas revelam a capacidade de um país cuidar de seu Povo e preservar condições mínimas para que seus trabalhadores possam viver, produzir, participar da vida política e defender seus próprios interesses. Desse modo, quando direitos fundamentais são entregues à lógica exclusiva do mercado, amplia-se a dependência; quando são assumidos como responsabilidade pública, cria-se uma base material para a autonomia nacional.
O relatório revela a retomada, pelo atual governo, de escolhas políticas: programas de segurança alimentar, fortalecimento da agricultura familiar e das políticas de transferência de renda, compras públicas de alimentos e reconstrução de instituições que haviam perdido capacidade de atuação no governo anterior. Fazem parte da luta histórica dos trabalhadores e são políticas de Estado executadas por milhares de trabalhadores, servidores, agricultores, pesquisadores, movimentos sociais e gestores públicos. Mas levar políticas públicas a cabo também exige direção política. Por isso, não deixamos de destacar a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, ao afirmar em diferentes fóruns internacionais que a fome não decorre da escassez de alimentos, mas de escolhas políticas, recolocou no centro do debate uma ideia frequentemente esquecida: o direito à alimentação não pode depender da lógica do mercado quando constitui uma responsabilidade permanente do Estado. Ignorar essa realidade seria transformar em mera coincidência aquilo que é resultado de escolhas políticas concretas — e isso não existe na política, na economia e, muito menos, na luta de classes.
Não é por acaso que setores da extrema direita procuram desqualificar até mesmo políticas públicas de combate à fome, transformando conquistas que deveriam ser tratadas como patrimônio da sociedade em disputas partidárias imediatas e mesquinhas. Quando uma política de Estado passa a ser rejeitada simplesmente por ter sido implementada por um governo de esquerda eleitoral, revela-se mais do que uma divergência política; revela-se a dificuldade de reconhecer direitos sociais como compromissos permanentes da sociedade.
A luta contra a fome não substitui a transformação social; cria condições para que ela possa existir. Talvez por isso a fome seja tratada, por alguns, apenas como estatística ou como tema assistencial. Para quem nunca experimentou a insegurança alimentar, esse pode parecer um problema distante, uma questão menor ou até mesmo o “mimimi” tantas vezes repetido pela direita e por seus papagaios de pirata diante de uma parcela do Povo que se defende e não se sujeita às suas ameaças, ofensas e agressões. A fome, que corrói as entranhas e a mente, continua sendo a fronteira que separa a dignidade da desesperança para milhões de trabalhadores. Não existe liberdade concreta quando falta o indispensável para viver.
E, para nós, do Inverta, reconhecer essa conquista concreta não significa, de forma alguma, ignorar os limites dessas polícias dentro do capitalismo. A retirada do Brasil do Mapa da Fome ocorre em um período em que o próprio sistema capitalista atravessa a Crise Orgânica do Capital, tese original desenvolvida por Aluisio Bevilaqua aprofundando as contradições do sistema e tornando ainda mais acirrada a disputa pela apropriação da riqueza; é o cenário em que os grandes centros imperialistas esbravejam diante da crise e intensificam a disputa por mercados, recursos naturais, territórios e áreas de influência. Essa disputa se expressa tanto nas guerras e ameaças de guerra quanto nas pressões econômicas, financeiras e comerciais, por meio de sanções, tarifas e do descumprimento de acordos, atingindo diretamente a soberania dos demais países.
Essas pressões não são abstratas, pois ao mesmo tempo em que o Brasil procura ampliar sua presença internacional e defender seus interesses, enfrenta medidas econômicas externas que atingem sua produção e seu comércio, como vimos diante do recurso apresentado pelo governo brasileiro à Organização Mundial do Comércio contra as tarifas impostas pelo governo Trump, como parte da disputa por autonomia e pelo direito do nosso país defender seus interesses nas relações internacionais.
O Brasil possui condições singulares para enfrentar esse desafio: reúne capacidade agrícola, biodiversidade, recursos hídricos abundantes e uma tradição diplomática voltada à cooperação entre os povos. Quando esse potencial se traduz em políticas públicas capazes de garantir alimento, saúde e condições dignas de vida à população, o país fortalece sua autoridade para participar das discussões internacionais não apenas pelo tamanho de sua economia, mas pela coerência entre o que defende e o que realiza.
Como temos afirmado em nossos editoriais ao longo da história do Inverta, a defesa da soberania nacional, dos direitos sociais e dos interesses do Povo trabalhador não é uma posição conjuntural, muito menos uma escolha determinada pelo calendário eleitoral. É uma posição histórica deste jornal. Por isso, diante das eleições de 2026, defendemos a continuidade do caminho que vem fortalecendo as políticas de combate à fome, o SUS e a defesa dos interesses nacionais, e votaremos na atual composição do governo. Fazemos isso com a clareza de que não se trata de transformar conquistas do Povo em patrimônio de governo ou partido, mas de reconhecer que existem projetos distintos em disputa e que não é indiferente ao trabalhador o resultado dessa disputa.
Ao mesmo tempo, não basta votar. O Povo trabalhador não pode entregar sua força, sua organização e sua consciência a quem ocupa temporariamente o governo. A luta pela soberania brasileira não se trava apenas contra as contradições internas do capitalismo, mas também diante da disputa geopolítica aberta pela própria Crise Orgânica do Capital e dos interesses dos grandes centros de poder que procuram subordinar nosso país. É nesse cenário de Guerra e Paz que se coloca, concretamente, a defesa da soberania brasileira: compreender as forças que disputam a reconfiguração da ordem mundial e o lugar que o Brasil pode e deve ocupar nela. É preciso, portanto, fortalecer a organização política autônoma do Povo, ampliar os Comitês de Luta contra o Neoliberalismo e manter viva a capacidade de organização que historicamente esteve na base de cada conquista social.
Em um ano eleitoral marcado por uma verdadeira enxurrada de desinformação, fake news e manipulações, é preciso não se deixar levar pelas falácias daqueles que procuram confundir o Povo e fazê-lo votar contra seus próprios interesses. É preciso ler, discutir, organizar e lutar. A soberania não será conquistada apenas nas urnas, ela exige historicamente um Povo consciente de sua força e organizado para defender seus interesses diante das contradições internas e das pressões externas que procuram determinar o destino do Brasil.
É nessa perspectiva que o Inverta reafirma sua posição histórica: defender cada conquista concreta do Povo, lutar pela soberania nacional e pela sua definitiva emancipação diante das formas de dependência e dominação. Sabemos que a soberania plena do Brasil não será alcançada apenas pela ação de um governo, mas pela organização consciente do Povo trabalhador e pela superação das estruturas que mantêm nosso país subordinado aos interesses do grande capital. A luta pela soberania é, portanto, inseparável da luta pelo socialismo. É nessa caminhada que o Inverta, desde sua origem, coloca sua voz e suas páginas a serviço da consciência e da organização do Povo trabalhador.
Bianka de Jesus - Redação
Publicado pelo Inverta em 11 de agosto de 2026
