COPASA privatizada é mais um crime de lesa-pátria
Os governos de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Alagoas, Mato Grosso do Sul, Amapá, Tocantins e Pernambuco preferiram a privatização como alternativa para melhorar o atendimento à população no que se refere ao saneamento básico. Os problemas são gigantescos, e a população das cidades e dos bairros mais pobres é a que mais sofre com a privatização.
Abro um parêntese para dizer que o Estado do Tocantins foi o pioneiro na privatização, desde 1990. No entanto, a população do Tocantins, com pouco mais de 1,5 milhão de habitantes (IBGE, 2025), conta com apenas 39,8% dos domicílios ligados à rede de esgoto, e somente 39,1% dos moradores são atendidos por serviços de esgotamento sanitário (2023). Pelo jeito, os 36 anos de privatização não foram capazes de resolver o problema no estado.
Mas os neoliberais do governo de Minas, Zema e Simões (NOVO/PSD), cumprem a saga neoliberal por eles defendida. Venderam a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (COPASA). A privatização foi realizada com a autorização do Poder Legislativo (ALMG), por meio da aprovação da Lei Estadual nº 25.664, de 2025, que garantiu ao Poder Executivo vender as empresas estatais sem precisar consultar a população de Minas Gerais, como previa a Constituição Estadual.
epois de muitos embates e manifestações nas ruas por parte dos trabalhadores da COPASA, a empresa foi leiloada em 16 de junho. A cotação da ação da COPASA na Bolsa de Valores, no dia da privatização, variou entre R$ 56,01 e R$ 56,95, encerrando o pregão em R$ 56,27 (Bovespa). Mesmo assim, o governo de Minas teve a façanha — e a desfaçatez — de vender a empresa por R$ 49,03 por ação, um valor bem abaixo do mercado.
A privatização da COPASA rendeu aos cofres públicos R$ 8,4 bilhões, passando o controle acionário da companhia para o Grupo Equatorial Energia, o mesmo grupo que adquiriu 15% da empresa de saneamento do Estado de São Paulo, a SABESP, tornando-se acionista de referência, com poder de gestão e decisão na empresa.
No caso da privatização da COPASA, o Grupo Equatorial Energia passa a ser o acionista majoritário, prometendo, como fez em São Paulo, a universalização do saneamento básico conforme o Marco Legal. Mas a realidade imposta aos paulistas não é nada boa, o que tem deixado grande parte dos trabalhadores e o sindicato SINDÁGUA preocupados com a implementação do modelo “Equatorial” de gestão.
Em São Paulo, a SABESP acumula reclamações junto ao Procon-SP. As frequentes faltas de água, as cobranças indevidas, as contas com valores acima da média e os vazamentos não consertados são algumas das questões levantadas pelos cidadãos. A terceirização dos serviços de manutenção, dos leituristas e do atendimento ao público, de certa forma, trouxe transtornos para os clientes.
Com a COPASA privatizada, a população mineira, que não pôde opinar em relação à venda da empresa pelo Estado, fica preocupada com a qualidade da água e com o preço da tarifa cobrada. O sindicato representante dos trabalhadores também está preocupado com a possibilidade de demissões em massa. Ficou garantido que os empregados da COPASA terão 18 meses de estabilidade, mas a empresa oferecerá um Programa de Demissão Voluntária, já que a ideia é reduzir o número de funcionários.
O Estado abre mão de cerca de R$ 800 milhões por ano com a venda da estatal. Além disso, a empresa cumpria um importante papel social no combate às desigualdades econômicas regionais e entre cidades pequenas e de grande porte. Na prática, o governo de Minas continuará tendo de responder pelo saneamento básico. Ou seja, vendeu a empresa estatal para a iniciativa privada e, ainda assim, o Estado tem de investir para melhorar o saneamento básico da população, ajudando o empresário a ficar mais rico, já que a COPASA agora pertence ao capital privado.
Enquanto isso, o Brasil tem 32,8 milhões de pessoas sem acesso à água potável, ou seja, 15,9% da população (SNIS/SINISA, 2024). Além disso, mais de 89 milhões de brasileiros não contam com coleta de esgoto, o equivalente a 43,3% da população. Esses dados se tornam ainda mais graves quando se observa que grande parte desse esgoto é despejada diretamente em rios, riachos e córregos, contaminando os cursos de água doce.
A política neoliberal não é a saída para solucionar a crise orgânica do capital. Na verdade, essa política agrava a miséria do povo, transfere a riqueza do Estado — que deveria beneficiar a população — para a iniciativa privada, cujo objetivo é o lucro. É preciso pensar para além do modelo neoliberal em decadência. É necessário construir um Programa de Emergência para o Brasil, voltado ao desenvolvimento humano e sustentável e contrário à política neoliberal.
Sidnei Martins - Especialista em Gestão de Projeto Ambiental
Publicado pelo Inverta em 11 de agosto de 2026
