Brasil e China: a arte como ponte entre povos soberanos
A arte brasileira e a cultura chinesa atravessam fronteiras em um movimento de aproximação e reconhecimento mútuo. Enquanto a obra de Candido Portinari é apresentada ao público chinês no Museu Nacional da China, em Beijing, uma exposição sobre a tradição alimentar da China antiga chega ao Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.
Mais do que duas exposições realizadas simultaneamente, o intercâmbio cultural promovido pelo Ano Cultural China-Brasil 2026 expressa uma relação de diálogo entre duas nações soberanas, que compartilham suas histórias e identidades sem apagar suas diferenças. A cultura aparece como instrumento de aproximação entre povos, baseada no respeito, na cooperação e no conhecimento mútuo.
Inaugurada em 9 de junho de 2026, no Museu Nacional da China, em Beijing, a exposição “O Brasil de Portinari” é um dos principais projetos do Ano Cultural China-Brasil 2026. A mostra apresenta ao público chinês um amplo panorama da trajetória de Candido Portinari, um dos maiores nomes da arte moderna brasileira.
Durante a visita à exposição, João Candido Portinari, filho do artista, emocionou visitantes ao apresentar a obra “Retrato de João Candido com Cavalo”, de seu pai. Ao explicar a pintura, destacou a relação entre memória e realidade presente na produção de Portinari: “Esta criança sou eu. Essas imagens não são da imaginação…”.
A exposição reúne 56 obras originais e oferece ao público chinês uma apresentação abrangente da produção artística de Portinari. Entre os destaques estão os estudos preparatórios de “Guerra e Paz”, os monumentais painéis criados pelo artista brasileiro para a sede das Nações Unidas.
Para João Candido Portinari, a exposição busca apresentar “um Brasil autêntico, verdadeiro, sem retoques”. A proposta é revelar não apenas a genialidade artística de seu pai, mas também o Brasil retratado em suas obras: suas contradições sociais, sua diversidade cultural e a humanidade presente nas figuras representadas pelo pintor.
A visitante chinesa Xing Hejuan destacou a força simbólica da mostra. Segundo ela, as obras revelam um povo marcado por dificuldades, mas também pela esperança e pela capacidade de superação.
“O senhor trouxe as obras à China para mostrar que, apesar das dificuldades, o espírito do povo é sempre de esperança e superação, especialmente num momento em que as relações entre os dois países só se fortalecem”, afirmou.
A exposição também representa uma oportunidade para brasileiros que vivem na China conhecerem mais profundamente o legado de Portinari. José Medeiros da Silva, professor e diretor do Centro de Estudos de Brasil da Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang, viajou de Hangzhou, no leste da China, especialmente para acompanhar a inauguração.
“Fiquei muito emocionado ao ver essas obras sendo tão bem acolhidas, admiradas e respeitadas pelo público chinês. Ali percebi uma conexão profunda entre nossos dois povos”, afirmou.
Segundo ele, a exposição concretiza a ideia defendida por João Candido Portinari de que a arte pode ser uma ponte de afeto, memória e compreensão entre as nações.
Antes da abertura da mostra, João Candido Portinari recebeu da China uma caligrafia com a frase: “Almas afins, sem distância; mil léguas, ainda vizinhos”. A obra foi colocada no cavalete de seu pai, simbolizando a aproximação entre culturas e povos separados pela distância geográfica.
China antiga apresentada ao Brasil
Enquanto Portinari é apresentado ao público chinês, uma coleção de peças da China antiga iniciou sua trajetória no Brasil. No Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, a exposição “Sabores da Tradição — História da Alimentação na China Antiga” revela ao público brasileiro aspectos da história, dos costumes e dos rituais ligados à alimentação chinesa ao longo dos séculos.
Inaugurada em 26 de junho, a mostra reúne panelas de barro, objetos de bronze, taças de prata, peças de jade e porcelana, apresentando a relação entre alimentação, cultura e identidade na civilização chinesa.
O diretor do Museu Nacional da China, Luo Wenli, ressaltou que a alimentação constitui uma linguagem comum entre os povos e um importante veículo de preservação das tradições culturais.
“A cultura alimentar da China antiga, construída ao longo de milhares de anos, reúne a sabedoria de vida, os valores humanos e as aspirações estéticas da nação chinesa”, afirmou.
Segundo Luo, a exposição pretende conduzir os visitantes brasileiros por uma viagem histórica, fortalecendo a amizade entre os dois países por meio do conhecimento cultural.
A curadora Gao Xiuqing explicou que a mostra apresenta mais de cem relíquias de alto valor artístico e histórico relacionadas à alimentação na China antiga. O público também pode participar de experiências multimídia, conhecendo ingredientes, costumes e tradições culinárias.
Nos primeiros dias, a exposição atraiu visitantes interessados em ampliar o contato com a cultura asiática. A estudiosa de arte Rosana Pereira destacou a importância da aproximação entre público e obras.
“É uma experiência maravilhosa poder ver a exposição e ter a expectativa de trazer meus alunos para conhecer essas peças. É um grande esforço para estudar a arte asiática de forma mais integrada”, afirmou.
Para o diretor do Museu Histórico Nacional do Brasil, Cícero Antônio Fonseca de Almeida, as duas exposições cumprem um papel semelhante: aproximar sociedades por meio da cultura.
“O intercâmbio cultural fortalecerá uma cooperação na área econômica e em outras esferas. Espero também que a exposição amplie os horizontes do público brasileiro e inspire novas maneiras de compreender o mundo contemporâneo”, concluiu.
As duas mostras revelam uma dimensão simbólica do relacionamento entre Brasil e China: a construção de pontes entre culturas diferentes, não pela imposição de valores, mas pelo reconhecimento da riqueza histórica e artística de cada povo. (AR)
Fonte: Xinhua
Publicado pelo Inverta em 11 de agosto de 2026
