Entrevista: “Cuba defenderá sua independência e sua soberania”

Entrevista com Georgina Németh Lesznova, pesquisadora do Centro de Pesquisa de Política Internacional (CIPI) e professora da Universidade do Partido Comunista de Cuba “Ñico López” e do Instituto Superior de Relações Internacionais “Raúl Roa García”. Diante do agravamento do bloqueio imposto pelos EUA, intensificado por novas medidas da gestão Donald Trump, que aprofundaram a crise energética no país , a pesquisadora analisa os desafios enfrentados por Cuba, a soberania nacional, a manutenção de serviços essenciais e a busca por alternativas econômicas e energéticas.

Bandeira de CubaEm meio ao agravamento da crise energética que atinge a ilha — marcada por apagões, escassez de combustíveis e dificuldades no funcionamento de serviços essenciais — e ao recrudescimento das medidas unilaterais dos Estados Unidos, que intensificam um bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto há quase 70 anos, Cuba volta ao centro do debate internacional. As recentes sanções e restrições ampliam os obstáculos ao desenvolvimento do país e impactam diretamente o cotidiano da população, aprofundando uma conjuntura já desafiadora.

Sobre esse cenário, e pela relevância de sua trajetória e análises, o Inverta republica a entrevista concedida, em fevereiro de 2026, ao Centro de Estudos Eurásia e Mediterrâneo, editada por Alessandro Fanetti, por Georgina Németh Lesznova, pesquisadora do Centro de Pesquisa de Política Internacional (CIPI) e professora titular da Universidade do Partido Comunista de Cuba “Ñico López” e do Instituto Superior de Relações Internacionais “Raúl Roa García”


Qual é o papel de Cuba hoje, e o que este país, com seu povo e sua história, representa no século XXI?

Cuba possui diversos méritos que a distinguem do resto do mundo. Acima de tudo, tem o mérito de ter defendido, apesar das adversidades, seu projeto social baseado na defesa de sua independência, soberania e livre autodeterminação nacional, sem abandonar a construção de uma sociedade socialista, a justiça social e os mais nobres valores do humanismo e do internacionalismo proletário. Tudo isso enquanto desafiava o império mais poderoso da história, a apenas 145 quilômetros de distância. Este país (Cuba) tem uma história de resistência anticolonial e anti-imperialista que remonta à época da colonização espanhola. No entanto, os Estados Unidos também vêm tentando subjugá-la há cerca de duzentos anos, considerando-a erroneamente seu território natural. Cuba merece reconhecimento não apenas por ter resistido a essas pressões, suportando ataques, sabotagens e atos terroristas que ceifaram a vida de mais de três mil cubanos desde o triunfo da Revolução Cubana em 1959, mas também por ter sido submetida a uma guerra de quarta geração: guerra psicológica, cognitiva, midiática, bacteriológica, cultural e ideológica, além das sanções do mais longo bloqueio econômico multidimensional da história da humanidade, imposto por uma potência estrangeira. Apesar das adversidades, da escassez, da falta de suprimentos médicos, combustível, matérias-primas, tecnologia, transporte e outras deficiências causadas pela guerra unilateral dos Estados Unidos contra Cuba, a nação caribenha demonstrou ao mundo inteiro que é possível resistir às pressões do imperialismo, que busca anexar o país como colônia e transformar os cubanos em cidadãos de “segunda classe”. Mas Cuba também deu ao mundo uma lição de humanismo internacionalista: ofereceu seu apoio incondicional à luta contra o colonialismo na África, ao custo do sangue de mais de dois mil de seus filhos e filhas, na guerra de libertação de Angola. O internacionalismo cubano também se manifesta mundialmente nas áreas da saúde e da educação, pois Cuba levou programas de saúde e alfabetização às pessoas mais necessitadas do mundo, em países que solicitaram sua cooperação nesses campos, além de fornecer serviços esportivos e outros serviços profissionais. O mérito adicional dessas missões de cooperação internacionalista reside no fato de Cuba ser um país pequeno, com suas próprias dificuldades e carências. Contudo, por meio de sua atitude altruísta, o povo cubano tem sido um exemplo para o mundo inteiro, como afirmou o Presidente e Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz em um de seus discursos em um evento internacional, quando disse que as pessoas precisam de “médicos, não de bombas”. Em suma, esse povo é um exemplo de resiliência na luta anti-imperialista, com um projeto humanista liderado por Fidel Castro Ruz, que visa construir uma sociedade e uma humanidade mais justas. E fazem isso sem medo e com absoluta convicção, porque essa luta coloca o povo cubano na vanguarda das causas mais nobres e justas da história da humanidade.

Como funciona o bloqueio imposto pelos EUA contra Cuba? Por que não pode ser definido “simplesmente” como um embargo de um país contra outro, já que “em essência” também afeta todos os outros países que possam estar interessados ​​em fazer negócios com Cuba?

O chamado “embargo”, como o governo dos Estados Unidos prefere chamar a punição que impôs a Cuba há quase setenta anos por sua resistência desafiadora contra o império, é na realidade um sistema complexo de sanções que constitui um bloqueio econômico multidimensional. Isso significa que Cuba não pode exercer seu direito, como nação soberana, ao livre comércio com o resto do mundo, embora sua economia aberta o exigisse. Se fosse um simples embargo, essa restrição se limitaria à relação bilateral de Cuba com os Estados Unidos. No entanto, o império impõe sanções com multas, ameaças, chantagem e até mesmo confisco de bens e recursos, não apenas sobre seusNão ao bloqueio a Cuba próprios cidadãos, mas também sobre cidadãos e entidades de outros países. Assim, a inclusão de Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo pelos Estados Unidos, por exemplo, constitui uma limitação real que impede qualquer banco no mundo que mantenha qualquer tipo de relação com entidades americanas ou realize transações em dólares americanos de conceder crédito a Cuba para qualquer projeto de desenvolvimento ou mesmo para qualquer operação comercial. Isso frequentemente acaba afetando empresas estrangeiras que desejam fazer negócios com empresas e entidades cubanas — estatais ou privadas — e elas frequentemente enfrentam o fechamento de suas contas bancárias em qualquer país por tentarem negociar com Cuba. Além disso, afeta a concessão de empréstimos a investimentos estrangeiros em Cuba por qualquer banco no mundo, que corre o risco de ser multado se conceder empréstimos ou realizar transações que possam beneficiar Cuba, já que esse país está na infame lista de países patrocinadores do terrorismo; o que é simplesmente absurdo. Cuba não é um país terrorista nem apoia o terrorismo. É, ao contrário, vítima do terrorismo de Estado perpetrado pelos Estados Unidos. Os mártires e as vítimas desses atos terroristas ao longo de quase 70 anos de Revolução são a prova disso. O bloqueio imposto pelos EUA a Cuba há quase 70 anos é o principal obstáculo ao desenvolvimento da economia cubana e à concretização das metas da Agenda 2030 das Nações Unidas. No âmbito do sistema de sanções que constitui o bloqueio, Cuba está proibida de comercializar com os Estados Unidos. Mas, dadas as profundas interconexões econômicas e comerciais do capital transnacional, a influência dos EUA está presente globalmente, dificultando até mesmo o desenvolvimento de nossas relações econômicas (incluindo comércio e finanças) com terceiros países. Eles intimidam empresários, praticam pirataria confiscando petróleo de navios de terceiros países que transportam mercadorias para Cuba. O governo dos EUA impõe sanções e tarifas absurdas a países que pretendem comercializar com Cuba e ameaça aqueles que desejam fornecer ajuda humanitária. Os efeitos do bloqueio são, portanto, múltiplos, mas seus danos só podem ser quantificados em termos econômicos. Contudo, o mesmo não se pode dizer do sofrimento humano infligido a várias gerações de cubanos. Seus efeitos devastadores estão presentes em todas as esferas da vida em Cuba. Desde o momento em que um cubano acorda de manhã e não tem eletricidade para aquecer sua casa ou sequer para bombear água para o banho, assar pão ou fazer café para o café da manhã, ou sai à rua sem transporte para ir trabalhar, seu salário é insuficiente para cobrir suas necessidades básicas e ele precisa recorrer à economia informal para sobreviver; ou então precisa obter os medicamentos de que necessita no mercado negro… E precisamente, esse é o objetivo das sucessivas administrações estadunidenses: causar escassez, fome, desespero, uma crise migratória e outras dificuldades para o povo cubano, para que o descontentamento generalizado leve à derrubada do sistema e do governo revolucionário. Essa audácia é flagrante: os Estados Unidos nos sufocam com suas sanções, inclusive aquelas com alcance extraterritorial, tornando nossas vidas impossíveis e causando profundos danos estruturais à economia cubana, e depois nos acusam de “Cuba ser um Estado falido; um país em crise!” Como se os Estados Unidos não fossem os autores dessa política genocida, por meio da qual pretendem subjugar o povo cubano por sua coragem em se recusar a se tornar uma colônia estrangeira!

Como o governo cubano está lidando com os principais problemas do país, considerando as dificuldades econômicas que a ilha enfrenta?

O governo cubano tem tomado medidas, principalmente para proteger os trabalhadores e os segmentos mais vulneráveis ​​da população, mantendo o funcionamento de serviços sociais essenciais, como educação e saúde, priorizando as necessidades mais básicas nesta complexa situação de escassez de recursos, especialmente a falta de combustível que alimenta os serviços essenciais. A estrutura trabalhista do país está sendo reorganizada para que, diante das dificuldades de transporte, os trabalhadores Cuba educaçãonão sejam afetados negativamente. O trabalho remoto está sendo implementado sempre que possível, e os funcionários estão sendo realocados para locais de trabalho mais próximos de suas casas. Quando isso não é possível, os trabalhadores continuam recebendo seus salários, pois não é culpa deles não poderem desempenhar suas funções. Esforços intensivos também estão em andamento para atrair investimentos estrangeiros para o país, principalmente para impulsionar os setores produtivos da economia, além do turismo. Tudo isso constitui um enorme desafio sob as condições impostas pelo bloqueio dos EUA, mas também representa um passo rumo à consolidação de mecanismos alternativos aos hegemônicos, como novas formas de pagamento em moedas diferentes das moedas nacionais dos países envolvidos nas transações. Embora tudo isso ainda esteja em fase inicial, Cuba está se integrando às iniciativas da crescente multipolaridade promovida pelos BRICS e às alternativas promissoras que um Sul Global anti-hegemônico pode representar para o desenvolvimento de países subdesenvolvidos. Também estão em andamento os trabalhos de transformação gradual da matriz energética do país, para que as fontes de energia renováveis ​​contribuam cada vez mais para alcançar uma matriz energética capaz de garantir efetivamente a soberania energética do país. Este, porém, é um processo complexo e de longo prazo devido ao alto custo das tecnologias e da infraestrutura a serem instaladas, o que exige a integração simultânea dessas fontes com a infraestrutura preexistente da rede elétrica nacional. Todas essas medidas visam enfrentar a guerra econômica à qual Cuba está submetida com maior grau de soberania. Uma economia de guerra está sendo implementada, mesmo que não haja mais um conflito armado. Contudo, a agressão econômica contra Cuba está forçando o país a implementar medidas de austeridade, uma reorganização mais racional da vida laboral e a priorizar o funcionamento de setores vitais. Há também medidas destinadas a incentivar a produção agrícola e industrial por meio de novas formas de parcerias público-privadas, além do investimento estrangeiro. Infelizmente, o alcance dessas medidas continuará condicionado e, portanto, limitado pelos obstáculos impostos pelo embargo dos EUA, tanto em termos de relações econômicas bilaterais quanto nas relações de Cuba com outros países.

Há alguns dias, ocorreram manifestações impressionantes em memória dos 32 combatentes cubanos martirizados na Venezuela por tropas americanas. Eu mesmo testemunhei a que aconteceu em Havana, com uma marcha de dezenas de milhares de cubanos em frente à Embaixada dos EUA (link para a reportagem de Cuba escrita e publicada por mim no site do CeSEM, acompanhada de fotos da manifestação: #Reportagem de Cuba: um povo (ainda) revolucionário responde ao golpe americano na Venezuela – Centro de Estudos Eurasiáticos e Mediterrâneos). O que representam essas manifestações?

Os 32 combatentes internacionalistas cubanos mortos por tropas americanas na Venezuela morreram heroicamente e com extraordinária coragem, defendendo o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, os mais altos representantes da Revolução Bolivariana e Chavista. Seu exemplo perdurará para sempre, pois representam o espírito internacionalista do povo cubano; a disposição de defender, até o fim, as causas e os valores humanistas mais sagrados da humanidade. Para os cubanos, defender as Revoluções Bolivariana e Chavista e seus líderes significa honrar o legado do Apóstolo José Martí; significa lutar pela unidade da nossa América e por uma sociedade mais justa, em construção naquela nação à qual Cuba está ligada por profundos laços de fraternidade. Nossos camaradas lutaram pela Venezuela Bolivariana e Chavista como se fosse por sua própria pátria. A solidariedade internacionalista do povo cubano tem uma longa e ilustre história ao longo da Revolução Cubana, que se estende muito além das missões de cooperação internacional nas áreas da saúde, educação e esportes. Basta lembrar as missões internacionalistas lideradas por Che Guevara no Congo e na Bolívia, ou os mais de dois mil cubanos que perderam a vida lutando pela liberdade de Angola, contra o colonialismo e contra o regime fascista da África do Sul. A coragem e o altruísmo de nossos 32 irmãos caídos na Venezuela se multiplicam em cada cubano digno, especialmente agora, quando Cuba está ameaçada de “destruição e ocupação” pelo império mais poderoso da história da humanidade. Isto é o que vocês testemunharam no desfile em homenagem aos 32 combatentes cubanos mortos em serviço na Venezuela, enquanto faziam parte da escolta do presidente Nicolás Maduro: o espírito de luta inabalável do povo cubano, pronto para defender sua pátria e seus concidadãos até o fim contra qualquer ataque imperialista.

Como podemos imaginar Cuba num futuro próximo, à medida que nos aproximamos do 70º aniversário do triunfo da Revolução?

A sociedade cubana, como tudo o mais, está em constante transformação. No contexto atual, o bloqueio econômico contra Cuba está deteriorando as condições econômicas e, com elas, o cotidiano da população. Como resultado, sempre há aqueles que optam por deixar para trás as dificuldades e a escassez material, e muitos jovens, inclusive profissionais do setor público, migram para setores e ocupações mais competitivos, ainda que menos produtivos, ou até mesmo deixam o país por completo. Mas a maioria daFidel-Revolução população cubana ainda possui uma formação política e ideológica forjada no exemplo e nas políticas do Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz e também fundamentada no legado e no exemplo de Martí, Maceo e Che Guevara. Consequentemente, a maioria deseja permanecer em Cuba e melhorar seu padrão de vida; deseja viver e trabalhar em paz e ser tratada com igualdade por outros países. É isso que o bloqueio e as políticas anticubanas negam ao povo cubano: o direito ao desenvolvimento econômico como qualquer outro país do mundo. Mas a rejeição dessa política intervencionista entre a população cubana é generalizada: quem poderia se beneficiar da invasão de uma potência estrangeira em seu país e da imposição de suas regras?! Quanto mais os Estados Unidos apertam o cerco, mais sua política imperialista intervencionista será rejeitada pela juventude e pela sociedade cubana. Quanto mais os Estados Unidos tentam sufocar Cuba, mais a resiliência criativa caracterizará nossa resistência. Se analisarmos a história de Cuba e a luta do povo cubano pela independência, veremos que a rendição nunca foi o caminho escolhido pelos cubanos. Os Estados Unidos e seus cúmplices continuarão gastando milhões de dólares tentando produzir “mudanças” em Cuba por meio de sua guerra de quarta geração, que visa levar à capitulação da nação caribenha. A questão é que Cuba já está mudando; embora não necessariamente de acordo com os interesses dos Estados Unidos. O povo cubano e a esmagadora maioria da população conhecem a humilhação que aguarda as futuras gerações caso se rendam. Cuba jamais cederá às pressões intervencionistas de qualquer potência estrangeira. Render-se ao capitalismo seria o mesmo que render-se a imposições estrangeiras, e o povo cubano tem memória histórica e sabe disso. O povo cubano já sobreviveu a muitas outras adversidades, emergindo vitorioso e com a moral elevada. Sobreviverá também ao atual governo dos EUA, liderado por Trump.

Por todas as razões acima, tudo indica que, no 70º aniversário do triunfo da Revolução Cubana, Cuba enfrentará uma significativa escassez de recursos materiais, que dificulta a implementação de seus programas sociais, e inúmeros obstáculos ao seu desenvolvimento e ao bem-estar econômico de sua população. Esses obstáculos são causados, principalmente e de forma mais significativa, pelo embargo dos EUA e pelas políticas intervencionistas dos Estados Unidos. Contudo, Cuba também encontrará um povo disposto a dar a vida para defender sua independência e soberania, sempre buscando novas maneiras de enfrentar as dificuldades com criatividade e resiliência, utilizando o talento de seus jovens, cientistas e profissionais para encontrar alternativas para o desenvolvimento econômico, social e científico-tecnológico. Você encontrará um povo onde o espírito internacionalista de Martí, Mella, Villena, Pablo de la Torriente Brau, Che Guevara, Fidel Castro Ruz e muitos outros se combina com um espírito de resistência criativa. Cuba, 70 anos após o triunfo de sua revolução, que se tornou uma revolução socialista, continuará sendo internacionalista e anti-imperialista. Portanto: Cuba não renuncia ao seu projeto social profundamente humanista de construção de uma sociedade socialista e não cederá nem mesmo diante das pressões mais implacáveis, das ameaças mortais e das sanções genocidas às quais está sujeita. Cuba defenderá sua independência e sua soberania. E para isso, resistirá como tem feito até agora: sempre até a vitória.