Quem matou Cristina Poeta?

No dia 5 de dezembro de 2017 morreu a líder comunitária e cordelista Cristina Santos, conhecida por todos como Cristina Poeta. Ela sofreu um atentado quando se encontrava em um ponto de ônibus próximo de onde residia.

No dia 5 de dezembro de 2017 morreu a líder comunitária e cordelista Cristina Santos, conhecida por todos como Cristina Poeta. Ela sofreu um atentado quando se encontrava em um ponto de ônibus próximo de onde residia. Muito popular no Genibaú, comunidade na periferia de Fortaleza, ela usava seu dom com as palavras para falar com o povo pobre sobre diversos temas. Cristina Poeta dedicava sua arte e militância para formação política e, ultimamente, ao combate às drogas através da literatura popular. Ela mantinha na sua casa um ponto de cultura popular e era querida por todos. Um exemplo de luta. Para quem a conheceu, além do compromisso com as causas sociais, sua grande marca era a generosidade e abnegação diante das dificuldades do dia-a-dia.

No dia seguinte, os programas policiais na TV noticiaram o caso como latrocínio, roubo seguido de morte, contrariando as próprias testemunhas. Segundo as testemunhas, Cristina foi executada. O atirador estava em um carro e, após alvejá-la, ainda passou o carro sobre ela e depois desceu do veículo para disparar mais tiros. Um crime brutal, que reflete o ambiente de barbárie nas periferias e ilustra uma terrível face do extermínio do povo pobre: o assassinato de lideranças populares.

Vamos ao caso: A credibilidade de Cristina Poeta na comunidade do Genibaú e a qualidade de seu trabalho em conscientizar os jovens através do cordel chamava a atenção de todos, inclusive, da facção criminosa presente na região. Até que Cristina foi procurada pelo “Pacto por um Ceará Pacífico”, programa estadual que envolve seguimentos governamentais e sociedade civil (no caso dela, liderança comunitária) para definir políticas de segurança pública. A corda sempre rebenta para o lado mais vulnerável e Cristina Poeta, moradora da área, teve a vida ceifada de forma tão trágica pela barbárie que acomete as periferias.

O assassinato de Cristina Poeta não é caso isolado. Em 31/01, último, Simone Silva, liderança da comunidade do Gereberaba, em Fortaleza, foi assassinada. A comunidade nasceu de uma ocupação e Simone sofria ameaças desde 2016, quando houve uma tentativa de desocupação forçada de mais de mil famílias. Caso semelhante aconteceu no início de 2017, em uma ocupação do MTST em Maracanaú (CE), quando “encapuzados” tentaram intimidar as famílias à bala. Além da invasão à sede da CUT-CE por “encapuzados” armados durante reunião preparativa para o ato em solidariedade ao ex-presidente Lula em 20/08/2017.

Sem contar os inúmeros casos de agressões e assassinatos de lideranças camponesas e comunitárias país afora.

O que podemos constatar é que, por um lado, os inimigos de classe fazem todo o tipo de negócio contra os movimentos sociais, inclusive municiar mercenários encapuzados para fazerem o trabalho sujo; por outro lado, as facções criminosas juram de morte os líderes comunitários que possam ser entraves ao seu pleno domínio nas áreas mais carentes. Isso porque fascismo e banditismo se coadunam, tal qual irmãos siameses, e são estes os maiores responsáveis pelo extermínio do povo preto e pobre das periferias e suas legítimas lideranças forjadas na luta.

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