Traição de Lenín Moreno conduz Equador novamente à direita

A vitória eleitoral de Lenín Moreno, do partido Alianza País, no Equador no início de 2017 parecia ser uma exceção num cenário de fechamento do círculo de fogo imposto pelo imperialismo estadunidense em Nossa América, evidenciado pelo fortalecimento da oposição golpista na Venezuela, pelos atropelos do governo Macri na Argentina e pelo golpe contra a presidenta brasileira Dilma Rousseff.

A vitória eleitoral de Lenín Moreno, do partido Alianza País, no Equador no início de 2017 parecia ser uma exceção num cenário de fechamento do círculo de fogo imposto pelo imperialismo estadunidense em Nossa América, evidenciado pelo fortalecimento da oposição golpista na Venezuela, pelos atropelos do governo Macri na Argentina e pelo golpe contra a presidenta brasileira Dilma Rousseff. Moreno seria supostamente a continuidade da Revolução Cidadã iniciada no governo anterior de Rafael Correa, entretanto, o que se tem evidenciado é um retrocesso sistematicamente denunciado pelas forças políticas progressistas equatorianas.

A despeito do reconhecimento oficial de cidadania de Julian Assange em 10 de janeiro deste ano, mediante o compromisso de “não intervir em assuntos alheios a sua condição de asilo”, as medidas tomadas desde maio de 2017 pelo novo presidente parecem se afastar cada vez mais do que era preconizado por seu antecessor. A nomeação do parlamentar Ricardo Zambrano como secretário executivo do Alianza País em contraposição à corrente liderada pela ex-presidenta da Assembleia Nacional, Gabriela Rivadeneira, e pelo ex-chanceler Ricardo Patiño levou a que o grupo de Correa abandonasse o agrupamento político com intenções de fundar o Revolução Cidadã. A “denúncia” de Zambrano de que US$600 mil teriam sumido das contas bancárias do partido e sua intenção de iniciar “ações legais” para averiguar o caso vai ao encontro da judicialização da política, em nome do “combate à corrupção”, conduzida por Moreno, que tem sido usada para afastar os grupos que construíram a Revolução Cidadã. O presidente equatoriano afastou o ex-ministro de Setores Estratégicos, Jorge Glas, de suas atuais funções como vice-presidente por “associação ilícita” numa investigação do caso Odebrecht e o substituiu pela administradora de empresas María Alejandra Vicuña. O próprio Correa foi alvo de acusações da Controladoria Geral do Estado, ecoadas pelo partido opositor Unidad Popular, que apontariam irregularidades na gestão da dívida pública e negociação de contratos petroleiros com empresas chinesas durante seu governo. O embaixador Guillaume Long chegou a solicitar sua demissão como representante do país na ONU, em Genebra: “recuso-me a ser cúmplice do perigoso autoritarismo, disfarçado de falso ecumenismo e espírito de diálogo, que hoje coloniza agressivamente o nosso Equador”.

No âmbito econômico, o país vive hoje uma saída da recessão impulsionada mais pela nova elevação do preço do barril do petróleo do que pelas medidas tomadas pelo governo de Moreno. Deve-se destacar que, nesta última década de Revolução Cidadã, o Equador duplicou o seu PIB, a pobreza foi reduzida em mais de dez pontos percentuais e os salários da classe trabalhadora se valorizaram. Moreno agora liberou as restrições às importações (num país dolarizado), insistiu em entregar a administração do dinheiro eletrônico à banca privada em seu veto parcial à Lei de Reativação Econômica e denunciou os gastos públicos como irresponsáveis, acenando a uma política de austeridade.

Para completar este cenário de franca traição, Moreno decretou no final de novembro uma consulta popular em 4 de fevereiro. Ela contou com sete perguntas, que variavam entre questões ecológicas, criminais e econômicas. Destacavam-se as perguntas 2, 3 e 6, as quais determinavam, respectivamente, o fim da “reeleição indefinida”, a reestruturação do Conselho de Participação Cidadã e Controle Social e a eliminação da Lei de Mais-Valia. Isso representa um retrocesso em pontos importantes alcançados pela Revolução Cidadã, razão pela qual Correa retornou da Bélgica a seu país para conduzir uma campanha que defende o NÃO a estas três perguntas.

Como entende o sociólogo da Universidade Central do Equador, David Chávez, o retorno de Rafael Correa, por sua popularidade e capacidade de mobilização, gerou uma grande preocupação nos setores conservadores que impulsionaram a consulta. De fato, é possível afirmar que, seja qual for, o resultado final do processo será decisivo na correlação de forças equatoriana. Até 6 de fevereiro, fechamento desta edição, os resultados apontavam para uma vitória do Sim, enquanto a Comissão Observadora da consulta solicitava um pronunciamento da Corte de Justiça diante de denúncias de que a campanha pelo Sim, liderada pelo Executivo, esteve algumas vezes ancoradas em eventos institucionais, além de ser considerada inconstitucional pelo ex-presidente Rafael Correa.

 

Sucursal SP