20 anos do album “Sobrevivendo no Inferno” dos Racionais Mc’s

Esse é um ano de aniversário de várias figuras e acontecimentos importantes para os povos oprimidos do mundo. Gostaríamos de frisar que nenhum deles diz respeito à morte da princesa Diana, amplamente divulgado pela mídia. Isso só mostra que, além de querer apagar nossos atos de resistência, a mídia quer sempre nos manter com a mentalidade de colônia, que bate palma para os seus colonizadores. Estamos aqui para lembrar que 20 anos depois ainda continuamos sobrevivendo no inferno.

Esse é um ano de aniversário de várias figuras e acontecimentos importantes para os povos oprimidos do mundo. Gostaríamos de frisar que nenhum deles diz respeito à morte da princesa Diana, amplamente divulgado pela mídia. Isso só mostra que, além de querer apagar nossos atos de resistência, a mídia quer sempre nos manter com a mentalidade de colônia, que bate palma para os seus colonizadores. Estamos aqui para lembrar que 20 anos depois ainda continuamos sobrevivendo no inferno. Mesmo com os avanços que marcaram a vida da classe trabalhadora, no básico, nossa vida ainda é de extrema dificuldade e humilhação. Mas realmente, nem tudo está igual! Aliás, para muitos e muitas nada foi igual depois desse disco. A base material ainda não mudou, mas a visão que a gente tem da vida foi determinada por essa obra.

Sem palavras. Muito importante mesmo! Fomos uma coisa antes e outra depois. Na época, éramos crianças que, além de todas as durezas do cotidiano na favela, ainda tínhamos que aguentar o peso da discriminação pelo lugar de onde vínhamos, pela roupa que vestíamos, por sermos favelados, pretos e pobres. Sempre foi muito difícil em todos os espaços sociais, na escola, nas ruas, nas praças e parques, sempre um olhar de menosprezo, de puro preconceito. Mas aí um som louco, que começou a tocar sem parar, falando do que a gente vivia e vive, escrito por loucos como nós, falando do jeito como falamos, nos motivou a andar de cabeça erguida. Nos ensinou a entender a violência na qual estamos inseridos, entender o porquê de só bater na nossa porta as drogas, a polícia, o tráfico, esse sistema de moer gente, que retira todas as oportunidades de desenvolvimento social como estudo e trampo de qualidade, moradia digna. Quando o crime nos parecia a única alternativa, o Racionais veio nos dizer que “Malandragem de verdade é viver”, denunciando que o caixão e a cadeia eram os destinos dados pelo crime. Fez toda a diferença mesmo, que às vezes a necessidade tenha nos levado à criminalidade, sabíamos que não era nosso lugar. Outras ideias que nos conduziram ao afastamento das drogas, ao caminho do estudo, da poesia, do amor entre aquelas pessoas que eram como a gente, ao amor pela cor, ao ódio pela elite nos fez dar o primeiro passo rumo ao que somos hoje. E fez toda a diferença. Pela primeira vez pensamos que tínhamos algum valor e desenvolvemos uma noção de pertencimento. Só de saber quem erámos e pra onde queríamos ir, nos fez mais fortes. Pode parecer pouco, mas na maioria das vezes a falta de autoestima nos tira das mãos qualquer possibilidade de agir e nos torna inúteis.

Pra falar um pouco do disco. O primeiro som do álbum, depois de uma introdução, dá um arrepio na espinha de ponta à ponta. O barato é louco. “60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial”. Essa é a primeira frase da música Capitulo 4 Versículo 3 passada em forma de divulgação de dados. 20 anos depois, de acordo com o Atlas da Violência lançado pelo IPEA esse ano, mesmo não sendo São Paulo o estado com maior taxa de homicídios de jovens, índice que lideram estados do nordeste, é o estado com mais abordagens policiais letais.

Outro dado da música: “A cada 4 jovens mortos pela policia, 3 são negros”. De maneira assustadora, a proporção segundo esse mesmo indicador é a mesma! 75% dos assassinatos. O que mudou foi o dado referente à porcentagem de negros e negras nas universidades brasileiras, que na letra eram 2%. Hoje, 12,8% segundo o IBGE, um avanço muito importante! Mesmo assim, é sempre bom lembrar que negras e negros são 52% da população, então continua muito desigual a proporção. Isso vale para os outros dados que nos mostram que o racismo é um instrumento do sistema capitalista, utilizado sistematicamente na sua política de extermínio.
Esse tipo de crítica vista nesse clássico mostra bem o estilo do grupo que foi formado da união de integrantes do extremo sul e do extremo norte da grande cidade, provando que nenhuma distância é suficiente para impedir que o capitalismo torne nossa existência comum em termos de dificuldades. Da mesma forma, nenhuma distância é suficiente para impedir que nos juntemos para denunciar nossos assassinos e exploradores. Somos o “efeito colateral que seu sistema fez”. Somos os coveiros desse sistema.

Aqui, Palestina, Síria, Honduras, etc... “Periferia é Periferia em qualquer lugar”. Essa frase dá nome a uma das músicas do álbum, mas é de GOG, pai do rap... pesado! Ele mesmo fala do Racionais como um grupo que deu uma convocatória geral! Abriu as portas para o Rap. Mesmo não sendo nem o primeiro nem o último grupo do RAP nacional é dificil não serem citados. Do mesmo jeito, falar do grupo é dificil sem falar de “Sobrevivendo no Inferno”, que foi um divisor de águas. A musicalidade abriu um campo de possibilidades e foi o disco que projetou o grupo no Brasil. Falando de música, a sonzera tem muito a ver com a genialidade do DJ KLJay. Cada bit, acompanhamento musical das letras, ou vice-versa, depende do ponto de vista, é uníco e original! Reúne black music, tambores, teclados, sambas... muitos elementos. Muito incrementado!!

Toda a nossa admiração e aprendizado nos conduziu a, inclusive, buscar outras visões e hoje completamos algumas coisas que ouvimos nas músicas com nossa formação comunista. Também aprendemos a criticar. No disco, a postura é de desrespeito com as mulheres, até mesmo as mulheres faveladas. Sabemos que isso não é um fenômeno isolado, que faz parte da forma como as mulheres são vistas na sociedade e, em especial, nos bairros proletários. Mesmo assim, não devemos deixar passar batido. No quesito respeito às minas, as letras tiram com a nossa cara. É bom frisar porque para nós, essa postura ainda reproduz mais um traço de divisão da classe pelo machismo.

Mesmo assim, a importância do Racionais e do Rap como um todo, Facção, GOG, Sabotage, DMN, Visão de Rua, 509-E, Thaide & DJ Hum, RZO, Sharilayne, Mv Bill, Kmila CDD, Conciência Humana, SNJ, América Vermelha e várias outras loucas e loucos representantes do povo, é indiscutível, pois com suas músicas ajudaram na educação de várias gerações após, e incluo a nossa também, incentivando a gente a ter uma visão mais crítica da sociedade, mostrando que a classe rica é a responsável pela nossa miséria e pá. É sempre importante reconhecer essa contribuição que o rap nos deu. Mas também precisamos em cada quebrada avançar nas nossas práticas, aprender e desenvolver novas formas de organizar o nosso povo e que nos faça avançar para construir o poder popular, tendo em mãos o instrumento do marxismo-leninismo para realizar a Revolução Socialista no Brasil.

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