Dandara dos Santos: vítima de lgbtfobia e do extermínio da periferia

No último dia 03/03, um pequeno vídeo de 1 minuto e 20 segundos publicado na internet alcançou grande projeção. Nele aparece a travesti Dandara dos Santos sendo torturada por diversos rapazes enquanto é xingada com ofensas.

 

No último dia 03/03, um pequeno vídeo de 1 minuto e 20 segundos publicado na internet alcançou grande projeção. Nele aparece a travesti Dandara dos Santos sendo torturada por diversos rapazes enquanto é xingada com ofensas. O vídeo não mostra, mas depois de muitos pontapés, pauladas e todo o tipo de agressão, a travesti é morta a tiros e jogada em um matagal. O crime brutal foi em 15/02, em Bom Jardim, bairro da periferia de Fortaleza. Entretanto, curiosamente, só recebeu atenção célere da polícia dezesseis dias após o assassinato, diante da repercussão internacional do vídeo.

 

Porém, não foi o único caso. Cinco dias depois, em 20/02, a travesti Hérika Izidoro foi hospitalizada depois de espancada e jogada de um viaduto na avenida José Bastos, alguns quilômetros do local onde Dandara foi assassinada. Somam-se a estes incontáveis outras vítimas de violência contra a população LGBT em todo o Brasil, quase sempre invisíveis. Segundo Inácio Silva, do Grupo União de Cores (CRUC), “o assassinato da travesti Dandara dos Santos é fruto da cultura patriarcal, do machismo, misoginia, racismo e homofobia. Somos o país que mais mata pessoas homossexuais no mundo”.

 

É importante ressaltar que todos estes crimes – homofobia, feminicídio e racismo – correspondem a um ciclo tenebroso: a escalonada do fascismo, na esteira de um processo de ruptura, cujo ápice foi o golpe neoliberal em 2016. A homofobia, o machismo e o racismo sempre fizeram vítimas, elementos enraizados na formação econômico-social da sociedade brasileira. Entretanto, depois do golpe, estes crimes assumiram de vez caráter de classe: o vilipêndio dos corpos assassinados, pela imprensa burguesa, transforma a barbárie capitalista em espetáculo, naturaliza o horror, justifica ou desqualifica os assassinatos.

 

De forma que, foi veiculado nos primeiros dias após a morte de Dandara que esta era acusada de cometer crimes nas redondezas e por isso fora vítima de “justiceiros”. Uma dupla leviandade, pois além de nada constar contra Dandara (um desrespeito a sua memória), o linchamento de acusados por pequenos roubos, incentivado por programas policiais, caracteriza bem o discurso fascista de higiene social. É o capitalismo “que promove e incentiva todo o tipo de violência. Um sistema amparado na desigualdade social não poderia e nem tampouco poderá tornar seus "consumidores" iguais, pois ele se mantém sobre a dominação”, afirmou Inácio Silva ao Jornal Inverta.

 

Portanto, o assassinato brutal de Dandara dos Santos é, em si, a síntese de toda a tragédia contra o povo pobre. O cenário do crime é Bom Jardim, bairro que concentra miséria e figura diariamente na propaganda do terror dos programas policiais como um dos mais violentos de Fortaleza. Além do que, o bairro apresenta a menor cobertura em saneamento básico da capital cearense, um dos menores índices de desenvolvimento humano do Ceará e renda per capita de R$ 349,45. O povo pobre, anestesiado pela violência da miséria e das armas, torna-se refém do discurso e práticas fascistas de ódio.

 

A denúncia contumaz do caráter fascista e antipovo da morte de Dandara é também um ato de resistência ao extermínio do povo pobre da periferia, das favelas. É um ato de rebeldia diante o feminicídio, racismo e homofobia. A atual crise do capital avança sobre a sociedade e jura de morte os trabalhadores; cabe a nós a luta contra todas as injustiças.

 

Sucursal CE

 Publicada em 17 de março de 2017