Eleições no Equador vão para o segundo turno

Depois de apuradas as urnas no primeiro turno no Equador haverá um segundo turno entre os dois candidatos mais votados: Lenín Moreno, apoiado pelo presidente Rafael Correa, que conseguiu os votos de 39,35% dos eleitores, e o segundo colocado Guillermo Lasso com 28,1% dos votos válidos.

A disputa eleitoral no Equador continua. Depois de quase três dias, o CNE (Conselho Nacional Eleitoral) confirmou um segundo turno entre o candidato Lenín Moreno do Movimento Aliança PAÍS, partido à frente da Revolução Cidadã, e Guillermo Lasso, principal quadro da oposição burguesa no país, pela CREO-SUMA, aliança entre os interesses do capital financeiro internacional e a média “burguesia” das grandes cidades. Este processo eleitoral ganha especial importância tendo em vista o atual contexto de retrocesso da classe trabalhadora na correlação de forças latino-americana.


A Revolução Cidadã, liderada pelo presidente Rafael Correa, iniciou-se há dez anos, quando outros governos progressistas/revolucionários se afirmavam politicamente contra os representantes das velhas oligarquias locais, muito enfraquecidas pelas crises que ocorreram na etapa final da longa noite neoliberal no continente. O Equador saiu de uma situação de extrema fragilidade político-econômica, existente desde a crise de 1999, para uma afirmação soberana do país: aderiu à ALBA e conduziu uma política externa fortemente anti-imperialista; firmou uma das constituições mais avançadas do mundo em termos de direitos sociais (o artigo 31, por exemplo, dispõe que o Estado estimulará a propriedade e gestão dos trabalhadores nas empresas); reforçou a participação do Estado na exploração dos combustíveis fósseis e promoveu a redução da pobreza; e desafiou a empresa petroleira estadunidense Oxy no CIADI, tribunal de arbitragem do Banco Mundial. É inegável, portanto, a significação deste processo social não só em termos locais, mas para toda a América do Sul. Indo um pouco mais além, é possível afirmar sua importância no campo da batalha das ideias internacional: a permanência de Julian Assange, fundador do Wikileaks, na embaixada equatoriana em Londres está em jogo. Lasso anunciou que “diremos cordialmente a este senhor que se retire da embaixada do Equador na Inglaterra e buscaremos fazê-lo dentro do marco do respeito ao direito internacional nos primeiros 30 dias de governo”.


Os principais candidatos nesta disputa foram Lenín Moreno, ex-vice-presidente de Correa entre 2009 e 2013, pela Revolução Cidadã; Cynthia Viteri, do Partido Social-Cristão, que disputou a representação orgânica da direita com Lasso, afirmando, por exemplo, em campanha, sua disposição de privatizar os serviços de saúde e criticando-o por propor uma queda dos salários no setor privado (de acordo com ela, “os salários devem subir para elevar o consumo e reativar a economia”); Paco Moncayo, general aposentado, pelo Acordo Nacional pela Mudança, que diz ser representante de um “militarismo ilustrado” e defende a atração de investimento estrangeiro e a auditoria da dívida pública; e Guillermo Lasso. Este último merece um destaque: ex-presidente do Banco de Guayaquil e ex-ministro da Economia do governo Jamil Mahual − onde foram dados os primeiros passos para a dolarização que até hoje impossibilita o país de desenvolver uma política monetária própria −, Lasso tornou-se o principal nome da direita conservadora, gozando de grande visibilidade como quadro da oposição nos últimos anos, devido aos efeitos da crise internacional no continente e, em particular, à queda no preço do barril do petróleo.


Para um candidato se tornar presidente em primeiro turno no Equador, deve ganhar mais de 40% dos votos e estabelecer uma diferença de dez pontos com o segundo colocado. Com 99,5% das urnas apuradas, Lenín Moreno ficou com 39,35% dos votos válidos, Lasso com 28,1%, Cynthia Viteri com 16,31% e Paco Moncayo com 6,71%.

Apesar da grande margem de diferença entre Moreno e Lasso, a conjuntura de retrocesso dos governos populares da região exige um acompanhamento cauteloso da disputa política. A oligarquia golpista equatoriana já tentou derrubar o governo Correa à força em setembro de 2010, mobilizando policiais e chegando até a sequestrar Correa numa aventura que deixou 5 mortos e 274 feridos, e, no final de 2015, a oposição liderada por Lasso conduziu “protestos pacíficos” desestabilizadores. O continente vê uma reascensão dos grupos neoliberais, seja pela via eleitoral (como na Argentina), seja pela via ilegal-golpista (como nos casos do Paraguai e do Brasil) em países que haviam dado importantes passos progressistas e seus atuais representantes diplomáticos têm realizado consideráveis esforços para deter os processos mais avançados da região, como se verifica nos constantes ataques diplomáticos à Venezuela no Mercosul pela já mencionada tríade da reação.


Enfim, o ataque midiático à Revolução Cidadã será implacável, bem como os esforços políticos para desestabilizá-la. Esta é a primeira eleição para o cargo máximo do Poder Executivo disputada por um país da região mais revolucionário (e não apenas do campo progressista) no atual contexto de retrocesso. Entretanto, deve-se recordar que Venezuela, Bolívia e Equador já foram alvos de desestabilizações golpistas nos últimos anos e sua população organizada soube reagir à altura, frustrando os intentos oligárquicos. A disputa não está ganha, mas a vantagem de Lenín Moreno é expressiva e seu partido conta com a maioria da Assembleia Nacional (38,85%). De qualquer forma, o país deve estar preparado diante das jogadas políticas oficiais e das articulações por baixo do pano, sem se esquecer das “guarimbas”, por exemplo, protagonizadas pela direita venezuelana logo em que se confirmou a vitória de Nicolás Maduro e da Revolução Bolivariana em 2014.

Publicada em 17 de março de 2017