Arte e consciência com Eduardo Macedo

O marxista Eduardo Macedo, natural de Fortaleza-CE, é poeta cordelista e xilografista e sua prática preza e defende todo o tipo de arte, da popular à erudita. Em sua entrevista ao Inverta, afirma que a xilografia e o cordel são autênticas expressões do povo nordestino. Entre tantos assuntos, falou também dos grandes xilografistas e cordelistas, como Mestre Noza e Walfredo e Patativa do Assaré e Rouxinol do Rinaré, que o inspiraram no seu trabalho.

INV – Eduardo, conte um pouco sobre sua origem e o primeiro contato com o mundo das artes:

EM – Eu sou filho do Ceará. Minha mãe é de Itapipoca e meu pai de Juazeiro do Norte. Apesar de, infelizmente, ter nascido na capital, tenho a alma sertaneja. Em casa o ambiente sempre foi bastante artístico. Ainda muito pequeno acompanhava mamãe (a cantora Lúcia Menezes) nos ensaios e apresentações do Coral da Universidade Federal do Ceará, inclusive, assistindo sempre a peças de conteúdo regional, com músicas de Patativa do Assaré, Vanda Ribeiro Costa, Alberto Nepomuceno, além de grande conteúdo folclórico. Do lado paterno puxei a habilidade manual, uma vez que meu pai é um grande marceneiro por hobby, já construiu até rabecas. Foi nessa pisada que cresci.

INV – Além de poeta cordelista, você é xilogravurista reconhecido nacionalmente. O que a xilogravura representa para a cultura brasileira?

EM – Eu penso que a xilogravura se transformou numa expressão autêntica do povo nordestino. Quando houve o “casamento” definitivo do cordel com a xilogravura, lá pela primeira metade do século passado, principalmente graças à Tipografia São Francisco, de propriedade de José Bernardo da Silva, nasceu uma arte altamente criativa, forte e original.

Xilógrafos como Mestre Noza e Walderêdo foram precursores e serviram de referência a toda uma leva de artistas que vieram em seu esteio, como Abraão Batista, J. Borges, Francorli, Stênio Diniz... Também o grande Samico, do Movimento Armorial. Hoje ela está mais forte do que nunca e novos talentos têm se mostrado a cada nova geração.

INV – Quais suas referências tanto para o cordel como para a xilogravura?

EM - Essa não é uma pergunta simples de responder. Olha, dos antigos nomes eu não posso deixar de mencionar Leandro Gomes de Barros, colosso que foi, sem parelha, responsável direto pela consolidação do folheto na tradição brasileira. Outros nomes fortes são José Pacheco, José Camelo de Melo, Manuel D’Almeida Filho... Mas eu fiz um caminho diferente.

A poesia sempre me agradou. Um dos meus livros de cabeceira é a Divina Comédia e Patativa, desde cedo, é das maiores referências poéticas para mim, apesar de ter produzido poucos cordéis. Nesse sentido eu diria que foi a leitura, talvez, de “Brosogó, Militão e o Diabo”, de sua autoria, que me fez voltar a atenção definitivamente para o cordel. Hoje, alguns contemporâneos cearenses com os quais tenho a possibilidade e o prazer de conviver, como Klévisson e Arievaldo Viana, Rouxinol do Rinaré, Antônio Queiroz de França, são igualmente importantes e inspiradores para mim. No caso da gravura, além de todos os que mencionei antes, tenho grande respeito e admiração pelo trabalho do Marcelo Soares e do João Pedro do Juazeiro, inclusive, é o João Pedro meu grande mestre gravador, aprendi com ele.

INV – Na literatura de cordel, você possui diversos títulos que versam por causos populares ambientados no sertão. Fale um pouco do seu trabalho:

EM – Eu prezo muito e sempre pela valorização de tudo que é nosso: da tradição popular à arte dita erudita, costumes, música, literatura, espaço geográfico, o povo, fauna, flora... por aí vai! Acredito que a arte é a maior ferramenta de libertação do ser humano. Sendo assim, o sertão não poderia deixar de ser o maior palco que utilizo em meus trabalhos. Somos cearenses, a maioria oriundos de famílias sertanejas, catingueiras, e sinto a jubilosa obrigação de sempre voltar a essas origens tão marcantes. Então, nesse sentido, se eu crio uma trama faço questão de inseri-la numa quebrada do sertão, numa cidadezinha interiorana ou numa aldeia praiana. Também, quando tomo como base histórias estrangeiras faço a transformação do ambiente e dos personagens de forma a “nordestinizá-los”. Por exemplo, escrevi dois romances, “O embolador que faliu Satanás” e o “Monge do pífano ou o poder da música”, tendo como base dois contos medievais franceses, de Jakes de Basin e Jean de Quercy.

Transformei um jogral medieval num embolador de feira e um monge flautista num pifeiro, de forma que as brumas cinzentas da Europa deram lugar ao nosso sol escaldante e luminoso. Esse é meu bordão, utilizar, “na medida do impossível”, matéria nossa. Também me inspira bastante o tema do clico do gado, com seus barbatões e vaqueiros brabos, a vida no campo. É a visão romântica da origem da sociedade nordestina.

INV – Qual a importância do cordel e da xilogravura?

EM – Apesar de serem coisas bem distintas, inclusive muitas vezes confundidas, cordel e xilogravura têm a importância de serem expressões autênticas do povo. Devem ser cultivadas e reverenciadas enquanto patrimônio da nossa gente, aquilo que produzimos para nós próprios, para o nosso público, valorizando nossos elementos e nossa arte. Você não sabe mas eu já tive minha fase de “rameiro” (risos). Quando mais jovem fui roqueiro, toquei em um conjunto que produzia música estadunidense, em inglês. Me diverti muito, mas passou.

De repente acordei certo dia achando que não estava fazendo a coisa certa. Tomei como referência minha mãe e comecei a perceber que bonitas são as músicas que têm a ver conosco, o baião, o maracatu, o samba... Juntei a fome com a vontade de comer e, como sempre rabisquei meus versos, resolvi escrever meu primeiro cordel. Fiz uma xilogravura pra capa e daí pra frente não parei mais. Nesse sentido, o cordel e a xilogravura, assim como outras formas de arte, extrapolam o primordial papel do entretenimento e se tornam ferramentas de conscientização e amor próprio de um povo. João Ubaldo Ribeiro já dizia que “um país sem sua literatura, sua música, sua dança e suas artes plásticas não é um país, mas um conglomerado de vizinhos mal satisfeitos”.

INV – Como você avalia as artes do cordel e da xilogravura diante do avanço de novas tecnologias?

EM – Se considerarmos a internet como agregadora maior de todo o aparato tecnológico do qual a sociedade hoje dispõe, os incontáveis blogues, redes sociais e páginas disponíveis a qualquer um, em qualquer momento, são veículos imprescindíveis à sobrevivência e divulgação do cordel. Um dos grandes responsáveis pelo seu absoluto sucesso e sobrevivência secular tem sido o seu dinamismo. De folheto a livro, sem o segundo formato ter acabado com o primeiro, e de livro à web da mesma forma, sem esta ter feito sumir seu antecessor, e muito menos o formato original. Há cordéis digitalizados espalhados no ciberespaço, bem como textos inteiros em páginas e blogues, até mesmo pelo Whatsapp já recebi cordéis inteiros. Além do que temos que considerar que existem trabalhos feitos exclusivamente para a internet, muitos deles nem chegando a ser impressos. E isso sem desmerecer o valor desses títulos eletrônicos, pelo contrário, essa existência variada em mídias diversas só ajudam a consolidar e difundir o gênero.

INV – Recentemente, um fajuto processo de “impeachment” atacou um projeto de governo que tem apoiado manifestações culturais de nosso povo. O Ministério da Cultura foi, inclusive, extinto. Como poeta e xilogravurista, qual sua avaliação desse momento?

EM – Acho absolutamente deplorável o ponto ao qual chegamos. Estamos vivendo uma completa regressão política e social com custos altíssimos, essencialmente, aos menos favorecidos. Não é de hoje que nossa elite econômica não se assume enquanto brasileira.

Desde épocas remotas, desde o Brasil colonial ela relega o que há de mais forte, criativo e original no povo brasileiro. Esses favorecidos economicamente, que antes se auto execravam culturalmente em nome de um europeísmo, de um galicismo grotesco, hoje consomem toda sorte de lixo cultural proveniente dos Estados Unidos, sem realizar crítica alguma, ao passo que de material nacional só dão vez aos enlatados que a grande mídia promove e nos empurra diuturnamente. Nesse sentido, o golpe anda de mãos dadas com a promoção dessa cultura de massa, pois ela existe completamente apartada dos mecanismos de fomento da verdadeira cultura brasileira. Então, que necessidade tem um Ministério da Cultura, se tudo o que se produz está vinculado a grandes empresas e a megaempresários do meio “artístico”? Se tudo o que se produz é para vender e alienar, para que salvaguardar manifestações populares como cordel, xilogravura, cantoria, coco, maracatu, bumba meu boi, reisado, candomblé etc.? Existe mesmo é a intenção de suplantar isso em nome de um pretenso mercado cultural, pois enquanto um incentiva as tradições e memória coletivas, o outro embrutece e emburrece as pessoas. Os promotores do golpe (aqui e fora do país) têm plena consciência de que a colonização cultural é um meio ultra eficaz de manter um povo agrilhoado.

INV – Deixe uma mensagem para os leitores do Jornal Inverta:

EM – Eu gostaria de expressar minha satisfação em dialogar com um público como o do Inverta. Acredito que todo artista tem um compromisso irrevogável com sua gente e deve exaltá-la acima de tudo. Sou um marxista que acredita que a luta por um mundo justo e humanitário passa pela poesia, prosa, escultura, música dos povos. Nas minhas obras quase sempre insiro críticas explícitas ou implícitas ao sistema. E o que espero, finalmente, é que esta entrevista tenha, além do papel informativo, a força de despertar o interesse àqueles que ainda não são leitores de cordel. E aqueles que já são inveterados “consumidores de folhetos”, que continuem assim!

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