Ataque ao EIIL, uma aventura imperialista contra o Oriente Médio

O mundo sofre a consequência de mais uma criação do imperialismo que se rebelou, o Estado Islâmico, na verdade apenas um pretexto para reocupar todo o Oriente Médio.

Em seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, a presidente Dilma Rousseff pontuou: “não temos sido capazes de resolver velhos contenciosos nem de impedir novas ameaças. O uso da força é incapaz de eliminar as causas profundas dos conflitos. Isso está claro na persistência da questão palestina; no massacre sistemático do povo sírio; na trágica desestruturação nacional do Iraque; na grave insegurança na Líbia; nos conflitos no Sahel e nos embates na Ucrânia”. Apesar de evidentes, estas constatações desatariam um ódio profundo na extrema direita do país, que passou a acusá-la de leniência com o terrorismo. Sua resposta foi simples e direta: se bombardear resolvesse, o problema no Iraque já teria sido solucionado. A avaliação da presidente mostra-se ainda mais adequada quando se analisam as motivações das atuais incursões imperialistas nesta região do Oriente Médio, a despeito de quaisquer discursos supostamente humanitários.

Com efeito, Bagdá, ao lado de Damasco, passa novamente por uma profunda crise, desta vez ligada ao avanço do grupo fundamentalista Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL). De inspiração wahhabista, o Daesh (iniciais do grupo em árabe) já conquistou quase todas as regiões de maioria árabe sunita no Iraque, além do nordeste da Síria, onde estabeleceu sua capital provisória em Raqqa no início do ano. Desde então, ali se pratica de maneira severa a Sharia (lei islâmica), sendo proibido fumar, consumir bebidas alcoólicas, escutar música ou qualquer outra diversão que não sejam as execuções de “apóstatas” ou “criminosos” em praças públicas. Com cerca de trinta mil homens, armamentos sofisticados e financiamento abundante, o EIIL passou de uma minúscula formação para o novo “inimigo público número 1” dos Estados Unidos, controlando cerca de 50 mil km², onde vive uma população de seis milhões de pessoas.

Ainda que suas origens não estejam de todo claras, considera-se que o germe foi o grupo Yamaat Al Tawhid wal Jihad (Comunidade do Monoteísmo e da Guerra Santa) criado em 2002 pelo jordaniano Abu Musab Al Zarqawi. Um ano depois da invasão estadunidense ao Iraque, em 2003, este jurou lealdade à Al Qaeda e passou a chamar-se Organização da Base da Guerra Santa no País dos Dois Rios (em referência aos rios Tigre e Eufrates) e depois Estado Islâmico do Iraque. Com a morte de Al Zarqawi, em 2006, o comando passou a Abu Omar Al Baghdadi e a este foi sucedido em abril de 2010 por Abu Bakr Al Baghdadi, quem, ao se envolver na guerra síria, mudou o nome para Estado Islâmico do Iraque e do Levante no ano passado.

Pouco se comenta, porém, que o EIIL e seu antigo aliado, a Frente Al Nusra, braço da Al Qaeda na Síria, só foram capazes de crescer graças às doações dos aliados da Casa Branca no Golfo Pérsico. De acordo com o professor Michel Chossudovsky, da Universidade de Ottawa, “a Arábia Saudita e o Qatar têm financiado e treinado os terroristas do EIIL em nome dos Estados Unidos. Israel está abrigando o EIIL nas Colinas de Golã, a OTAN por intermédio do alto comando turco tem coordenado, desde março de 2011, o recrutamento de mercenários jihadistas para combaterem na Síria. Além disso, as brigadas do Daesh tanto na Síria quanto no Iraque estão integradas por conselheiros militares e forças especiais do Ocidente”. O próprio senador republicano Rand Paul acusou o governo Obama de “armar os rebeldes islâmicos” na Síria, tornando o Oriente Médio um “país das maravilhas jihadista”.

Portanto, a campanha aérea arquitetada pelos Estados Unidos contra o EIIL no Iraque e na Síria está muito menos relacionada a uma real intenção de “combate ao terror” do que à criação de um estado de permanente instabilidade na região que garanta os ganhos permanentes de seu sistema militar-industrial e inviabilize projetos locais como o bilionário oleoduto Irã-Iraque-Síria, firmado em junho de 2011. A desestabilização da Síria e do Iraque afeta também países como Líbano e Irã, além de criar obstáculos à integração euroasiática conduzida por Rússia e China.

Por fim, cabe aqui reiterar o que foi escrito no artigo “O imperialismo no Mali” publicado na edição 465 do Jornal Inverta: “definitivamente, a intenção da OTAN é estruturar uma polícia mundial, liderada pelos Estados Unidos, para defesa dos interesses das grandes multinacionais e, para isso, cria um estado de guerra permanente no qual os mercenários que os próprios imperialistas treinam e financiam tornam-se o casus belli de suas invasões”. A atual incursão à Síria e ao Iraque só o confirma.


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