Provas forjadas: o papel da polícia e da mídia na prisão de ativistas

Liberdade para Rafael Vieira, a única pessoa que foi condenada pelas ondas de protesto do ano passado, estando presa desde junho de 2013, é Rafael Braga Vieira. Ele, um sem-teto que dormia na rua, foi preso quando caminhava para encontrar uma tia e carregava um frasco de pinho sol e um frasco de água sanitária.

SP: Como uma garrafa de desinfetante virou uma bomba

 

A única pessoa que foi condenada pelas ondas de protesto do ano passado, estando presa desde junho de 2013, é Rafael Braga Vieira. Ele, um sem-teto que dormia na rua, foi preso quando caminhava para encontrar uma tia e carregava um frasco de pinho sol e um frasco de água sanitária.

No dia 26 de agosto, o TJRJ negou a apelação da defesa e confirmou a condenação do jovem em regime fechado.

No dia da prisão, Rafael foi abordado com violência por uma dezena de policiais que o agrediram em um estacionamento. Rafael é pobre e negro, o que para a elite e, consequentemente, para sua tropa de capitães do mato já constitui de per si um crime.

Com apenas 2 horas de banho de sol diário, Rafael Vieira permanece todo o tempo trancafiado com 70 pessoas em uma cela.


Como há promotores e juízes capazes de admitir e aceitar esse tipo de fraude, essa prática da polícia é incentivada e se perpetua cotidiana e impunemente, quando na verdade são esses policiais que deveriam ser presos por forjarem provas.

Estruturas tão podres e corruptas não podem ser usadas como base para a construção de uma outra sociedade.

Apenas com a destruição das estruturas sociais caducas e com a criação de um novo Estado, conformado pelo povo organizado, veremos o fim destas práticas.

Fábio Hidaki, sindicalista, vítima de outra mentira.

 

No dia 23 de junho de 2014, um ano depois da prisão de Rafael Vieira, Fábio Hideki, funcionário da USP, militante e diretor de base da categoria, foi preso em uma estação de metrô após participar de um ato.

Ele foi mentirosamente acusado de portar um artefato explosivo, em mais um caso de prova forjada pela polícia.

O momento de sua detenção foi filmado e testemunhado por dezenas de pessoas, incluindo o padre Júlio Lancelotti, conhecido por suas ações em defesa da população em situação de rua.

Todos viram e o vídeo registra, mesmo revistando Fábio e sua mochila insistentemente, os policiais não encontraram nada incriminador. Depois, um policial recebe uma instrução pelo celular e, com a chegada de outros policiais, leva Fábio preso.

De porte forte, sua imagem com uma máscara de gás foi replicada por toda a mídia, mesclada a imagens de fogo e destruição, na tentativa de criar-se uma impressão negativa do sindicalista, associando-o a uma criação, que se não dependeu inteiramente da mídia, teve seu empurrãozinho: o fenômeno dos “black blocks”.

No mesmo dia da prisão de Fábio, foi preso outro jovem, Rafael, um ex-policial que, sempre segundo a grande imprensa, pronunciou um discurso contraditório, sem qualquer identidade com as pautas das manifestações, inclusive elogiando a polícia que o prendera.

Rafael foi aproveitado pela imprensa de outra forma, a imagem que fala do conflito como se fosse uma espécie de esporte. Como as ações dos black blocks são midiáticas, o movimento existe como tal por conta da mídia, logo, o poder que a grande imprensa tem em eleger e vetar lideranças, interlocutores, e de substituí-los sempre que necessário.

Com o desmoronamento da fraude, Rafael e Fábio foram libertados no início de agosto, mas continuam respondendo a processo.

Rio de Janeiro: um trio explosivo

 

No Rio de Janeiro, a conjuntura eleitoral pode ajudar a explicar a bomba política armada pelo trio formado pelo promotor Luís Otávio Figueira Lopes, pelo delegado da DRCI Alessandro Thiers (será parente do carrasco da Comuna de Paris?) e pelo juiz da 27ª Vara Criminal da Capital, Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau.

Eles foram responsáveis por criar e por tramitar um texto, a título de inquérito, que deverá ser futuramente utilizado durante aulas de graduação de Direito, como exemplo de aberração jurídica.

Decretou-se a prisão preventiva de 23 pessoas utilizando-se como base gravações telefônicas entre adolescentes, testemunhos de provocadores infiltrados, e depoimentos motivados por desilusões amorosas.

Nós, contribuintes, financiamos o salário de um pateta que se crê um James Bond para ganhar a confiança de um adolescente de 17 anos, tomando cerveja com ele no bar e debatendo o enfrentamento à polícia em protestos. Ou seja, ele forjava a situação que depois viria a reprimir.

O potencial desestabilizador do efeito da ação desses três inquisidores contra a presidenta da República ficou evidente quando uma das pessoas acusadas buscou asilo no consulado do Uruguai, corretamente negado pelo revolucionário Mujica, pois concedê-lo significaria não reconhecer o Estado de Direito no Brasil (um país dos BRICS), uma das estratégias de Washington contra todos os que ameaçam, mesmo que timidamente, sua hegemonia.

Com a consciência ou não das pessoas envolvidas, a direita busca gerar uma matriz de opinião de que a presidenta é a responsável pela repressão aos movimentos sociais, de forma a afastar a juventude de esquerda do voto na presidenta Dilma, raciocínio simplista que favorece à ofensiva da direita que se move raivosa em todo o país contra sua candidatura.

Por enquanto,  pois é urgente a extinção do processo, a bomba foi desarmada com a expedição da soltura dessas 23 pessoas pelo desembargador Siro Darlan. Mas em nada ajudou a postura de certos ministros do Governo, aplaudindo as prisões, como o da Justiça, José Eduardo Cardoso, um dos tucanos que habitam o PT.

Se ele tivesse mesmo a real disposição de impedir fatos lamentáveis como as mortes durante os protestos, no plural, não só a do cinegrafista, mas de diversas outras pessoas, ele teria que começar responsabilizando a grande imprensa e as diferentes polícias que foram a gasolina e o fósforo que incendiaram as ruas.

É importante que a classe operária mantenha-se atenta a todas as variáveis em uma situação complexa e difícil como a atual em nosso país, que reflete a crise global de fundamentos do sistema capitalista.

Esse momento e esses episódios não podem ser considerados separadamente da conjuntura geral, que vê a guerra sendo disseminada pelo mundo através dos golpes brancos e demais ações do imperialismo.

Pela libertação dos ativistas presos!
Pela libertação de todas as vítimas das políticas de encarceramento do Estado!
Pela responsabilização da imprensa golpista e da polícia nos fatos de violência e mortes ocorridas!


Júlio P. S.