Integração Latina-americana: um sonho possível que passa pela cultura

Diferentemente do Carnaval de competição que acontece aqui, o desfile em San Luis ainda é, e não sei até quando, apenas um grande espetáculo.

Em 2006, a Unidos de Vila Isabel homenageou em seu enredo a latinidade; tema que tem sido ao longo dos séculos objeto de discussão por parte de diversas tendências políticas e culturais, na busca de se encontrar ou criar uma identidade comum aos povos que compõe a América Latina. É evidente que não é uma tarefa fácil este objetivo, pois “Nuestra América” é composta por “densas florestas de cultura”. Entretanto, esta “essência latina” se manifesta desde o início de seu processo de libertação no ideal de integração pensado por Simón Bolívar, que sonhava com uma “Pátria Grande” para todos os nossos povos e ainda resplandece em meio a este “mosaico multicor” que se chama América Latina.


Esta iniciativa da escola de Noel que terminou sagrando-se campeã do carnaval carioca naquele ano é apenas o fio condutor para pensarmos como o carnaval, em termos de expressão cultural brasileira, pode servir para nos aproximar de nossos irmãos latino-americanos.


No Brasil, de uma forma geral, existe a tendência muitas vezes de considerar os outros povos de nosso continente como culturas estranhas à nossa e, com isso, construir-se uma barreira quase que intransponível. O fato de quase a totalidade dos povos da América Latina terem como idioma oficial o espanhol, e nós o português, é um dos fatores que mais contribuem para este afastamento.


Mas apesar da vastidão cultural existente na América Latina e da aparente barreira do idioma podemos observar em muitos casos uma similitude cultural em diversos aspectos e tentativas, não poucas, de aproximação entre estas culturas.


Aqui entramos no ponto central deste artigo, onde trataremos de forma geral uma experiência neste sentido que presenciei há pouco tempo quando estive, como integrante do Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, na terceira edição do “Carnaval de Rio em San Luis” na Argentina.


Não abordarei aqui o aspecto estrutural do evento, uma vez que se sabe no mundo do carnaval o quanto este passou por um processo de comercialização que hoje o domina quase que completamente e tem, portanto na estrutura deste evento, obrigatoriamente, o mesmo traço “comércio-entretenimento” que existe no carnaval do Rio, porém, em escala menor.


Nesta edição, a terceira consecutiva e maior de todas até aqui, do “Carnaval de Rio em San Luis”, participaram cerca de dois mil brasileiros, integrantes de mais de vinte escolas de samba dos grupos Especial, A e B de acesso do Rio de Janeiro, que se deslocaram em cerca de cinquenta ônibus com 40 passageiros cada até a cidade de San Luis no centro-oeste argentino, capital da província de mesmo nome, situada à cerca de 800 km de Buenos Aires numa viagem que durou entre 55 e 60 horas, para a realização do maior desfile de escolas de samba fora do Brasil.


Os desfiles aconteceram nos dia 9 e de 10/03 no Autódromo da cidade, antecedidos por um ensaio geral no dia 8. Este ano, além de dois combinados das escolas de samba brasileiras que se apresentaram ao som dos sambas da Mocidade Independente de Padre Miguel de 1991, “Chuê, Chuá, As Águas Vão Rolar”, cantado por Clóvis P. e pelo samba da Unidos do Porto da Pedra 1996, “ A Folia no mundo – Um Carnaval dos Carnavais”, cantado por Igor Sorriso, que tiveram pequenas alterações em suas letras para se enquadrarem à festa portenha, contou com a presença pela primeira vez de uma escola local, a Sierras Del Carnaval de  San Luis.


Diferentemente do Carnaval de competição que acontece aqui, o desfile em San Luis ainda é, e não sei até quando, apenas um grande espetáculo. Não existe nenhum tipo de competição, mas mesmo assim nos dois dias de desfiles o autódromo esteve lotado por um público que vibrava com o espetáculo.
Entretanto para nós brasileiros que já vivemos o carnaval aqui quase o ano inteiro, a melhor experiência que se pode tirar deste evento ao meu modo de ver é o intercâmbio cultural e o carinho com o qual somos tratados pelos argentinos. Nas ruas todos querem tirar uma foto para guardar de recordação ou pedem um pedaço das fantasias para levar para casa, enfim, um grande carinho. Isto vem romper com muitas das ideias que tentam nos colocar na cabeça, de que brasileiros e argentinos são povos rivais. Esta rivalidade fica apenas no campo do futebol, da mesma forma que entre as torcidas dos diversos times existe esta rivalidade em cada estado brasileiro. Até mesmo a dificuldade de comunicação é superada, e o portunhol vira por estes dias quase que o idioma oficial da cidade.


Acredito que devemos partir deste exemplo, e não permitindo que as classes dominantes se apropriem da nossa cultura para usá-las como forma de alienação, fomentarmos um intercâmbio cultural cada vez mais intenso entre os povos da América Latina, construindo assim um fator de integração e resistência, pois apesar das diferenças já apontadas no início desta matéria, temos um passado de exploração colonial em comum e um presente momento onde o imperialismo avança sobre o mundo de forma feroz tentando fugir de sua crise estrutural e a América Latina não está livre desta ação, pelo contrario, temos visto nos últimos anos uma reação mais contundente contra os setores que tentam aqui construir uma via alternativa ao modelo capitalista.


O caminho da integração latina passa pela integração cultural, e parodiando o samba da Vila podemos dizer: “Sendo firme sem perder La ternura” ainda temos a nossa verdadeira “liberdade à construir” e para isso devemos seguir “apagando fronteiras”, “desenhando igualdade por aqui”!

*Citações em cursivas: G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel 2006 – “Soy Loco Por Ti América! A Vila Canta a Latinidade” – Autores: André Diniz, Serginho 20, Carlinhos Do Peixe, Carlinhos Petisco.