Roberto Nogueira, o ator, o amigo, um grande artista brasileiro (28/06/1948 – 06/11/2011)

O teatro paulistano perde um dos seus mais importantes nomes: Roberto Nogueira. Ator, dramaturgo e diretor de teatro, Nogueira foi também um assíduo colaborador do Jornal Inverta.
O falecimento aconteceu em São Paulo, na madrugada de  6 de novembro, na Santa Casa.

A ausência do amigo


Recebi a notícia na madrugada do dia 6 de novembro. Mas até hoje é como se não tivesse acontecido. Ele se foi, mas é como se não tivesse partido, tão forte é a lembrança de tudo o que vivemos em mais de 40 anos de convivência.

É como se ainda pudéssemos fazer planos para mais uma montagem teatral, mais um texto concluído, novas pesquisas. Combinar uma viagem ao Rio, visitar mais uma vez o Museu Carmem Miranda. Ir à Região dos Lagos, rever Unamar (em Tamoios), ir à Barra de S.João, passar algumas horas à Beira Rio, às margens do Rio São João. Olhar mais uma vez a casa onde nasceu o poeta Casimiro de Abreu.

Nunca mais.

O ator


Roberto Nogueira nasceu em São Paulo, capital.

Desde a adolescência entrou para o mundo da Arte e experimentou vários caminhos: a fotografia, o cinema e o teatro.

Acabou aceitando o “chamado” e confirmou ser um dos escolhidos, pois como disse a grande dama do teatro, Sarah Bernardt, “na arte teatral são muitos os chamados e poucos os escolhidos.”

E para mostrar-se digno de ter sido um dos escolhidos, Roberto Nogueira estudou na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo formando-se em Artes Cênicas. Foi aí que ele somou o aprendizado prático do tablado com as teorias e técnicas dos grandes mestres e refinou-se como ator. Daí para frente nunca mais deixou o teatro.

As principais montagens teatrais  nas quais atuou como ator foram:

“Compram-se verdades e mentiras” de Costa Ferreira, Marat-Sade de Peter Weiss; Divinas Palavras de Valle Inclan; a História Geral das Índias de José Vicente de Paula; Frei Caneca de Carlos Queiroz Telles, entre outras.

Seu último trabalho foi em 2010 quando montou, dirigiu e atuou na peça “A Casa de Bernarda Alba”, de Federico Garcia Lorca. Essa montagem foi inovadora por apresentar os personagens femininos interpretados por homens.

O dramaturgo


Dentre as suas qualidades pessoais que contribuíram muito para o seu desempenho tanto como escritor quanto no trabalho de ator foi a sua capacidade de compreensão das emoções humanas, das motivações que comandam as atitudes das pessoas.

Era um mestre na arte de entender a alma.

Seu legado como autor de teatro é precioso e são de sua autoria os seguintes textos: “O Rei dos Palhaços”, “As três faces de Olga”, “Visões estrábicas de uma pintora na contramão”; “Olhos de lambe-lambe”; “A caca do nariz de Adão”.

Recentemente estava se dedicando ao texto “Isabel da Congada”, um olhar muito interessante sobre o período histórico da escravatura no Brasil.

Toda a sua obra teatral encontra-se registrada na SBAT – Sociedade Brasileira de Autores Teatrais de São Paulo e pode ser levada ao palco.

 

O último saltimbanco


Além de ator e autor de teatro, Roberto Nogueira também trabalhou como diretor de teatro. Experiência interessante nesse sentido foi a transposição para o teatro da obra poética da escritora paulista Neusa Cardoso.

Foi um trabalho de Hércules, pois ele escolheu um elenco de jovens atores e atrizes para os quais lançou um duplo desafio: o da poesia e o do teatro. Trabalho difícil, mas Roberto Nogueira também se saiu vitorioso nessa empreitada.

Não obstante o talento foi com muito empenho pessoal e boa dose de sacrifício que ele construiu tudo o que transmite agora para as próximas gerações.

Em 1974, em plena ditadura militar, ele resolve aceitar o convite do diretor de teatro português Fernando Muralha para seguir pelo país com a Carroça de Ouro, uma velha carroça de lixo que esse diretor havia transformado em um teatro móvel. Graças a contribuição de outros artistas, como, por exemplo, Gláucia Amaral que fez os figurinos belíssimos eles criaram o milagre do teatro que, encenado em praça pública,levou alegria a várias cidades do interior do Brasil e até mesmo em algumas capitais como Brasília, recém-criada naquela época e muito carente de entretenimento.


Esse trabalho, do então jovem ator, revela a coragem que ele teve ao se juntar ao grupo de Fernando Muralha que teve a audácia de levar alegria ao povo de um país mergulhado na tristeza de não ter liberdade de expressão e de reunião, pois as pessoas tinham medo até da própria sombra.

Foi uma experiência extraordinária que está registrada no livro “A Carroça dos Sonhos e os Saltimbancos”, da importante Coleção Aplauso da Imprensa Oficial, editado em São Paulo, em 2010, graças ao paciente trabalho de Organização, Seleção de Textos, Notas e Roteiro Fotográfico de Roberto Nogueira.

Os momentos difíceis foram compartilhados e se existe uma lembrança que me gratifica foi a de tê-lo sempre incentivado a nunca abandonar seus sonhos e ideais. Ele próprio relata isso na página 42 do livro acima mencionado:

“Em Copacabana, na noite de Ano Novo de 1999, a poeta Neusa Cardoso me pedia para projetar meus sonhos lá para cima, para o alto céu iluminado com a lua, luzes e fogos de artifício, porque se alguma coisa não se realizasse, ainda assim eu estaria entre as estrelas.”

E assim, sonhando alto, ele partiu e foi para onde estão as figuras da nossa constelação teatral: Paulo Autran, Plínio Marcos, José Vicente de Paula e tantos outros artistas que não morrerão jamais por que têm os seus nomes escritos na história do teatro desse país.


Neusa Cardoso