Os Voos da Morte e a Operação Condor

Matéria do jornalista Delson Plácido

A punição de pilotos argentinos, que participaram dos chamados voos da morte, colocam novamente no noticiário internacional a famigerada Operação Condor, também conhecida como a Multinacional do Terror. Essa notícia favorece o momento decisivo, que vivemos para o resgate da História Recente, não somente da Argentina mas também da nossa América Latina, especialmente para as vítimas dos sistemas repressivos de países como Brasil, Uruguai, Chile e Paraguai.

Segundo informações procedentes de Buenos Aires, foram indiciados pilotos argentinos responsáveis pelos chamados voos da morte, na época do regime militar, quando presos políticos que eram conduzidos para a Escola de Mecânica da Armada (Marinha)  depois de barbaramente torturados, eram drogados e lançados no Oceano Atlântico ou no Rio da Prata. Era dessa Escola que partia toda a estratégia e logística para a tortura e assassinatos de presos opositores do regime militar.

Os pilotos são acusados de terem participado, também, dos assassinatos levados a cabo na famigerada Escola Naval, mais conhecida pela sigla ESMA, durante a “Guerra Suja” conduzida pela ditadura militar contra adversários, entre 1976 e 1983, na qual 30 mil pessoas foram sequestradas e assassinadas.

Segundo várias denúncias já anteriormente  apresentadas por  entidades de Direitos Humanos e pelos familiares das vítimas junto às várias organizações de Direitos Humanos e Cortes Internacionais, os presos eram obrigados a tirar as roupas, eram drogados antes dos chamados voos, quando depois eram lançados ao mar. Às vezes, as vítimas eram enganadas, quando os assassinos diziam que seriam transferidos para um local melhor. Por isso, não ofereciam nenhuma resistência para tomarem a tal injeção final. Davam menos trabalho aos agentes e militares da Marinha argentina para jogarem as vítimas vivas e dormindo.

O escritor Agassiz Almeida informa em seu livro intitulado “A Ditadura dos Generais” que um dos campos de maior movimentação de tortura e mortes foi o de “Automotores Orletti”, situado na esquina das ruas Venâncio Flores e Emílio Lamurca, em Buenos Aires. Ali se realizava um trabalho de conexão entre os exércitos da Argentina, Brasil, Chile e Uruguai. Outro centro de extermínio, foi o Vesúbio, localizado no Distrito  de Matanza, província de Buenos Aires. Grande parte da operosidade do “plano de extermínio” efetuava-se neste centro, de onde os presos eram transportados às bases aéreas  de Palomar e Morón para serem lançados no Oceano Atlântico.

Dos pilotos acusados até agora, três são responsáveis pelo transporte e lançamento ao mar de duas freiras francesas Leonie Duquet e Alice Domon. Desde o início da década de 80, os diversos governos franceses pediram a extradição do capitão da marinha argentina, Alfredo Astiz, acusado pela morte e desaparecimento de duas freiras francesas. O capitão torturador e assassino também teve seu pedido de extradição para a Suécia, na época, feito pelo governo do Primeiro Ministro Thorbjörn Fälldin. O açougueiro de Buenos Aires, como é mais conhecido Alfredo Astiz, figura de destaque do nazismo portenho, já foi condenado e está preso.

E no Brasil? Nem os acusados de sequestro, tortura, estupros e assassinatos do terrorismo de Estado como o coronel Brilhante Ulstra, Aparício Calandra, Romeu Tuma, Marcelo Paixão, Sebastião Curió e outros nunca foram punidos, quanto mais os pilotos, que participaram dos chamados voos da morte. Os voos da morte vêm sendo denunciados  pelo defensor dos Direitos Humanos, em nosso país e na região sul do continente latino-americano, o advogado gaúcho Jair Krischke. Os voos da morte no Brasil, segundo Jair, saíam da Base da Aeronáutica, que fica situada ao lado do Aeroporto Internacional do Galeão (hoje Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim).

Por falarmos em voos da morte, passemos a palavra ao escritor Agassiz Almeida que, também, denuncia que no Brasil, o local de embarque para lançamento ao mar de presos vindos de vários centros de tortura de São Paulo e Rio era a Base Aérea do Galeão, na época, sob o comando do brigadeiro João Paulo Moreira Burnier.

E Agassiz de Almeida afirmou ainda que, enquanto no Brasil, chamados às responsabilidades, os genocidas fugiram pelas portas largas da anistia e todos, acovardados, negaram os delitos cometidos, na Argentina mais de 1200 militares já foram indiciados, uma centena julgados e condenados e quinhentos centros de tortura clandestinos foram reconhecidos. Também cúmplices civis da repressão estão sendo julgados.

A reabertura dos julgamentos da última ditadura voltou a converter a Argentina em um modelo mundial em matéria de Direitos Humanos.

E prosseguimos com os comentários do escritor Agassiz Almeida sobre os tiranos das ditaduras latino-americanas; ‘Hoje eles estão aí, muitos rolando ensanguentados na eternidade, outros tantos correndo aterrorizados do julgamento da História”.

“Os tiranos latino-americanos ultrapassaram o Führer. Negaram ao homem o seu fim. Assassinaram e faziam desaparecer cadáveres tudo à sombra do Estado militar. Um verdadeiro genocídio que o nazimilitarismo latino-americano perpetrou contra uma juventude inteligente, afirmativa, enérgica e promissora. Nos genocídios na Argentina, Brasil, Chile, Uruguai, milhares de jovens foram trucidados. Hoje, onde se encontram, os tiranos correm como bestas da História Universal”.

Até hoje, as pessoas sensíveis, honestas e preocupadas com o futuro da Democracia em nosso país, lamentam, profundamente, esse privilégio para integrantes das forças armadas e civis que cometeram crimes durante o nazimilitarismo. Estão acima do bem e do mal ? Não estão. São sim criminosos, traidores da pátria, que se aliaram a uma potência estrangeira (Estados Unidos) para derrubar um governo legalmente constituído e destruir o movimento dos trabalhadores, camponeses e estudantes.

O crime de ocultação de cadáveres estaria fora do alcance da Anistia ou “esquecimento” estatal. Há crimes que não podem ser esquecidos. Pouco importa se tais violações ocorreram em guerras, conflitos entre nações ou regimes de exceção, afirmou o professor especialista em Direitos Humanos Eric Stoner da Universidade Berkeley, na Califórnia.
O  segredo de Estado não pode ser invocado para impedir o cumprimento da lei. Para o escritor Agassiz Almeida, a História não registra tipos mais apequenados e covardes do que os abjetos militares, que ensanguentaram os países latino-americanos no século XX.

Na  Casa Rosada, acrescenta  Agassiz Almeida, Videla deleitava-se ouvindo os gritos dos torturados, que ele mandava gravar. No Palácio do Planalto, em Brasília, Orlando Geisel sentia prazer bestial em ver cabeças de degolados na Guerrilha do Araguaia.

Na verdade, falta ainda muita gente no Tribunal de Nuremberg, ou melhor, nos tribunais nacionais e no Tribunal Penal Internacional. Na Argentina, os criminosos que cometeram crimes de lesa-humanidade já estão sendo punidos. No Brasil, infelizmente, ainda não. Por conseguinte, vivemos momentos decisivos para a punição dos criminosos militares e civis. Mas para isso, a tão falada Comissão da Verdade tem que ser integrada por  vítimas e familiares dos mortos e desaparecidos, por militantes de entidades de Direitos Humanos  e movimentos sociais. Do contrário, será uma Comissão de Mentirinha, conforme opinião do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ.

O segredo de Estado não pode ser invocado para impedir o cumprimento da lei. A História não registra tipos mais apequenados e covardes do que os ab objetos militares que ensanguentaram os países latino-americanos no século XX.

Delson Placido