PALESTINA

Em 15 de maio, a Nakba (palavra árabe para “catástrofe” que designa a criação do Estado de Israel) completou seu 62º aniversário. Neste dia, dirigentes do Hamas e do Fatah marcharam juntos pela primeira vez desde 2007 num ato organizado pela Jihad Islâmica.

Al Nakba, 62

 

Em 15 de maio, a Nakba (palavra árabe para “catástrofe” que designa a criação do Estado de Israel) completou seu 62º aniversário. Neste dia, dirigentes do Hamas e do Fatah marcharam juntos pela primeira vez desde 2007 num ato organizado pela Jihad Islâmica. A rara união destes grupos mostra a importância da data para o povo árabe-palestino, sendo seu resgate histórico fundamental. O jornal Inverta fez um especial histórico em três edições para tratar sobre a data. Nesta última, será discutido o papel da ONU no processo de partição da região e a limpeza étnica elaborada contra os árabes.

 

A ONU no conflito

 

A questão palestina foi delegada à recém-criada ONU em fevereiro de 1947. Enquanto a Liga Árabe já tinha realizado entre o mundo árabe em geral uma campanha pela Palestina árabe independente, os hachemitas da antiga Transjordânia (desde 1948, Reino da Jordânia) negociaram secretamente com a Agência Judaica uma divisão entre eles próprios e a liderança sionista.
Esta seria a primeira decisão das Nações Unidas sobre um conflito internacional grave e, em vista dos poucos conhecimentos existentes sobre a região, foi criado o UNSCOP (Comitê Especial das Nações Unidas sobre a Palestina), que decidiria o destino do local. Onze membros sem qualquer conhecimento mais profundo da Palestina deveriam escrever um parecer, com base em documentos e em breves visitas feitas à zona, entre os meses de fevereiro e novembro de 1947. Enquanto os bem preparados dirigentes sionistas já lhes haviam apresentado um programa de partição pronto, o lado árabe não dispunha de nenhuma proposta coerente, embora a rejeição à partição fosse um consenso. Sua obstinada objeção retardaria a escolha pela partição, mas, pressionados pelas grandes potências, os árabes acolheriam a decisão, por maioria, não por unanimidade.
Alguns fatores contribuíram para a posição do comitê ser favorável aos sionistas. Primeiro, em suas raras visitas à Palestina, eram sempre bem recebidos pelas lideranças sionistas e boicotados pelos políticos árabes. Segundo, os sionistas armaram uma situação mediática que acentuaria o suposto nexo entre o Holocausto e a criação de um Estado judeu na Palestina. O velho navio Presidente Warfield foi fretado pelo Mossad, com uma tripulação de voluntários estadunidenses e alguns oficiais da Agência Judaica. Em uma semana, mandaram vir dos campos de refugiados 4.554 sobreviventes do Holocausto, dos quais 1.784 mulheres e 685 crianças, para serem amontoados num navio que tinha capacidade para mil pessoas (o capitão tomaria a precaução de munir-se de um falso certificado de navegação para o transporte de 4.500 pessoas). Em alto-mar, a embarcação que seguia à Palestina mudaria de nome para Exodus 1947 e, no porto de Haifa, o comandante inglês informou aos passageiros que não os deixaria desembarcar. A liderança sionista conduzira a operação com maestria: o reenvio do Exodus coincidiria com uma das visitas da UNSCOP, o que aumentaria a sensibilidade do comitê pela questão judaica.
O “projeto aldeias”, liderado por Ben Gurion, tinha o papel de cartografar toda a Palestina. Por meio de fotografias e enquetes, pretendia-se conhecer os mínimos detalhes das aldeias árabes: estradas de acesso, qualidade da terra, rendimentos econômicos, composição demográfica e sócio-política, índice de “hostilidade” ao projeto sionista etc. Uma das pessoas que participou desta coleta de dados diria mais tarde: “nós tínhamos que estudar a estrutura básica da aldeia árabe. Isso queria dizer a sua estrutura e a melhor forma de atacá-la... qual seria a melhor aproximação à aldeia, se por cima ou por baixo. Tivemos que treinar os nossos ‘arabistas’ (orientalistas que operavam uma cadeia de colaboradores) sobre a melhor forma de trabalhar com informadores.”
Outra preocupação de Ben Gurion era com o “equilíbrio demográfico” entre judeus e árabes na região: sempre que uma zona contasse com maioria árabe, promovia-se a política pública de imigração judia generalizada. Os judeus, entretanto, preferiam viver em cidades, geralmente já com um número igual entre os dois grupos, e, por isso, os sionistas perceberam que a imigração não resolveria a questão demográfica. Precisavam de uma nova tática...
Os notáveis árabes, por sua vez, estavam impotentes apesar de conhecerem a mobilização sionista, pois haviam deixado a responsabilidade da diplomacia à Liga Árabe. A política da Liga era recomendar um boicote à ONU e gerir a crise entre uma retórica bélica e negociações secretas para adiar a resolução internacional. A postura independente do rei Abdullah da Jordânia, que concertara um acordo com a Agência Judaica, complicava ainda a já falha política da Liga Árabe. Outro problema ainda se impunha: a retórica bélica não era acompanhada por uma preparação militar real e, devido à ausência de quaisquer preparativos para um plano de transição ou regime substituto no término do mandato britânico, existia uma forte perspectiva de conflito. O receio de muitos judeus quanto a uma guerra contra o “grande exército árabe” foi explorado pelo movimento sionista para arregimentar a comunidade à vitória numa batalha iminente. Intensificou-se o alistamento, impuseram-se mais impostos, proibiu-se a emigração da região e reforçaram-se as tentativas de atrair novos imigrantes.
Em novembro de 1947, seria apresentada a resolução 181 que defendia a partilha do território em dois Estados, um judeu (56%) e outro árabe (44%), com uma união econômica e aduaneira. Jerusalém, capital sagrada para o judaísmo, o cristianismo e o islã, foi mantida como cidade internacional. Esta resolução agradava muito aos sionistas, já que, desde os anos 1930, consideravam a idéia de uma expulsão forçada da população árabe-palestina local. Em dezembro, os sionistas iniciaram as expulsões em massa dos árabes e a saída inglesa seria marcada por uma guerra civil que perduraria até maio de 1948.
Neste momento, foram utilizadas diversas táticas. Bombardeamentos e disparos freqüentes de lugares escondidos foram dirigidos contra a população árabe; petróleo misturado com combustível foi vertido nas estradas e ateado; barris cheios de explosivos eram rolados até as zonas árabes. Quando estes saíam apavorados para apagar os fogos, eram atingidos com disparos de metralhadora. Judeus disfarçados de árabes levavam carros cheios de explosivos para serem reparados em garagens árabe-palestinas e detonavam-nos. Numa refinaria em Haifa, judeus e árabes trabalhavam lado a lado e tinham uma longa história de solidariedade na sua luta por melhores condições de trabalho contra os seus patrões britânicos. A Irgun, que se especializou em lançar bombas contra multidões árabes fez o mesmo nessa refinaria. A reação árabe foi o assassinato de 39 trabalhadores judeus e, depois, as unidades da Haganah dirigiram-se ao bairro árabe de Wadi Rushmiyya em Haifa, expulsaram as pessoas e explodiram suas casas. Duas semanas depois, o grupo Palmach (força principal do Haganah) entrou no bairro Hawassa em Haifa, onde moravam cinco mil árabes em péssimas condições de pobreza, e explodiram as cabanas do local e sua escola.

A limpeza étnica da Palestina

 

Em março, o conflito adotaria um caráter de limpeza étnica, organizada pelo sionismo, resultando numa alteração significativa da composição demográfica da Palestina. Com o Plano Dalet, elaborado pela Haganah, o qual previa intimidação em massa, incêndios, bombardeamento de casas, implantação de minas, expulsão de habitantes etc, pretendia-se implantar em Israel um Estado exclusivamente judeu, por meio da expulsão sistemática e total dos árabe-palestinos, bem como ocupar todas as instalações civis e militares abandonadas pelos ingleses.
Os sionistas sentiram a necessidade de uma organização mais sistemática de seus esforços por temerem uma mudança na visão internacional: em março, a delegação estadunidense na ONU sugeriu uma solução alternativa de estabelecimento de uma administração internacional da Palestina sob a supervisão da ONU por um período de cinco anos, até ser feita uma nova avaliação. As fortes pressões da comunidade judaica dos Estados Unidos evitaram esta mudança de política, mas isso já demonstrava um enfraquecimento internacional nos esforços pela criação de um Estado judeu.
No decurso da execução do Plano D, os dirigentes não se preocupavam com a resistência árabe-palestina, pois sabiam que a oposição dos estados árabes era pouco empenhada e seus soldados mal treinados. Entretanto, publicamente, estes líderes anunciavam a possibilidade de um “segundo Holocausto”, agora árabe, para atrair uma comoção mundial. O temor real dos sionistas era o exército britânico, mas este raramente interveio contra os massacres, mesmo quando a população árabe local o solicitava.
Destaca-se, neste contexto, o massacre de Deir Yassin, cometido pelas forças judaicas. A vila palestina de Deir Yassin, situada a poucos quilômetros de Jerusalém, vivia do cultivo de damascos, azeitonas e vinhas em terraços na encosta de um monte onde se enfileiravam casas de teto plano. Em abril de 1948, comandantes locais dos grupos terroristas Lehi e Irgun (organização paramilitar criada em 1931 como uma cisão do Haganah e dirigida pelo ultra-conservador Menachen Begin, futuramente primeiro-ministro de Israel) procuraram David Shaltiel, comandante do Haganah em Jerusalém, desejando participar da operação que abriria um corredor entre Jerusalém e Tel Aviv. Este acabaria por autorizar o ataque, mas prometera, receoso, apenas um apoio “logístico” e com armamentos. Nos dias seguintes, seria elaborado um plano de ataque que buscava “quebrar” o moral árabe e gerar pânico. Na madrugada do dia nove de abril, soldados judeus chegaram à aldeia e atingiriam as casas com disparos de metralhadoras e granadas. Segundo o historiador israelense Ilan Pappe, em seu A limpeza étnica da Palestina, “os aldeãos que restaram foram então agrupados num lugar e assassinados a sangue-frio, os seus corpos foram abusados enquanto várias mulheres foram estupradas e depois mortas”. O massacre deixou um saldo de 254 civis árabe-palestinos mortos, grande parte constituída por crianças, mulheres e idosos. Os sobreviventes fugiram aterrorizados, abandonando a aldeia e disseminando o pânico entre a população palestina. Entre os invasores, o número total de mortos foi de quatro. Deve-se pontuar que, quando o comando do Haganah foi informado das intenções do Irgun e do Lehi, escrevera a seus respectivos comandantes: “gostaria de atrair sua atenção para o fato de que a tomada de Deir Yassin está incluída em nosso plano geral”, ou seja, o massacre inscrevia-se no âmbito do Plano Dalet.
Entre maio de 1948 e janeiro de 1949, começaria uma nova fase da guerra com diferentes atores políticos: em vez do exército britânico, por exemplo, as tropas regulares dos países árabes. Aliás, segundo Joel Beinin, se não fosse a atuação dos países no entorno em defesa dos árabe-palestinos, os sionistas teriam ocupado toda a região e imposto plenamente seu plano. Com a criação do Estado de Israel, em maio de 1948, não somente a guerra tomaria uma diferente direção, mas o projeto de limpeza étnica seria intensificado.
Ao todo, 750 mil árabe-palestinos tornaram-se refugiados (quase 90% da população). Cerca de 530 aldeias e 11 bairros urbanos foram esvaziados de seus habitantes. Os antigos nomes árabes de aldeias e ruas foram hebreizados. Mesquitas e igrejas cristãs antigas foram destruídas. Parques temáticos, florestas de pinheiros (árvores não nativas da região) e colônias judaicas foram estabelecidos sobre muitas das antigas aldeias árabes. Tudo isso visava eliminar qualquer vestígio físico de que a terra pertencera aos árabes. Como resultado da Nakba, há agora quase 4,5 milhões de árabe-palestinos dispersos por todo o mundo, além dos 1,4 milhão sob ocupação do exército israelense na Cisjordânia e 1,3 milhão em Gaza, uma faixa do deserto antes escassamente povoada e agora cheia de superlotados campos e cidades de refugiados. Cerca de 1,5 milhão de árabe-palestinos continuam a morar na própria Israel como cidadãos de segunda classe. A população judia de Israel ronda cerca de 5,5 milhões. O estado sionista inclui agora 78% da Palestina histórica, sem contar com o ainda crescente número de colônias na Cisjordânia.
Não há nenhum paralelo no mundo: trata-se de um estado terrorista construído conscientemente, desde o seu início, para um povo e uma cultura, com uma base religiosa e sem uma real fronteira permanente. Por contar com o apoio incondicional dos Estados Unidos, Israel é um Estado que realiza, desde sua fundação, um verdadeiro apartheid contra a população árabe e viola constante e impunemente a legislação internacional.

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