A falta de pudor dos reformistas e revisionistas no processo eleitoral

Análise sobre o posicionamento eleitoral dos partidos revisionistas auto-intitulados comunistas

Neste momento, de reorganização dos comunistas revolucionários, após a derrota estratégica sofrida com o golpe militar de 1964, os diversos agrupamentos revolucionários ainda lutam pelo seu direito à existência. 


Isso é muito diferente de uma fase futura de polarização real do poder político, quando a luta será por bater-se pelo poder, de forma a deslocar o bloco da oligarquia dessa posição e gerar um novo estado em nosso país, que represente verdadeiramente os interesses de nosso sofrido povo.


Neste momento, que certamente virá, com o povo mobilizado e com uma vanguarda com firmeza ideológica, haverá uma dualidade de poder. Essa dualidade tanto poderá levar a vanguarda a uma posição de apresentar candidaturas como forma de escancarar a fratura que divide nossa sociedade (como ocorreu recentemente na Venezuela, ou na Bolívia), como poderá levar a uma posição de desconhecimento da ordem vigente e um chamado para a insurreição pregando-se o voto nulo, ou não votar (caso atual da Colômbia). Isso dependerá de diversos fatores, mas a força da burguesia brasileira e seu controle sobre todos os aspectos da sociedade burguesa, além da forma como se desenvolve a crise do Capital, levando a um recrudescimento cada vez maior das forças reacionárias, apontam para uma maior probabilidade do segundo cenário. Mas o importante é que ainda estamos longe (talvez não no tempo) de polarizar o poder político em nosso país.  
Se concordarmos nesse ponto, relativo a fase da luta que vivenciamos, temos de concordar também sobre o peso que deve ser dado a luta dentro do sistema eleitoral burguês em nosso trabalho cotidiano.


Se privilegiamos a participação nas eleições, antes da construção de uma sólida organização,  estaremos construindo mais um partido viciado, aberto aos diversos oportunismos e oportunistas, que se deformará de uma forma semelhante aos partidos que são construídos baseados na oligarquia operária que hoje hegemoniza o movimento sindical. Esse é o motivo, e não uma posição esquerdista, pelo qual o PCML(Br) não buscou até agora um registro eleitoral e tampouco apresentamos candidatos nossos nas eleições. Preferimos buscar construir uma relação com os candidatos, de diferentes partidos, que a partir de um histórico de luta concordam em apoiar nossa plataforma de luta, e a construir o Congresso Popular de Lutas contra o Neoliberalismo.


A luta da esquerda revolucionária brasileira e mundial, ainda é a mesma luta do início do século XX, a luta contra o reformismo, contra o economicismo, contra o revisionismo, contra a cretinice parlamentar, contra a aristocracia sindical, enfim, contra as diversas formas que burguesia tem de expressar sua política por dentro da esquerda, com um discurso pseudo-marxista.


Justamente por essas considerações, podemos ter uma posição altiva de indicação de voto na candidatura de Dilma Rouseff. Como bem expressado nos últimos editoriais do Jornal Inverta, não se trata de vender para o povo a ilusão de que o PT possa dirigir um profundo processo de transformação social em nosso país, de forma a encaminhá-lo em direção a uma sociedade sem explorados nem exploradores. Se trata de uma posição defensiva, diante do círculo de fogo que o imperialismo está tratando de formar, se trata de dividir a oligarquia, se trata de ganharmos tempo, tempo para nosso povo, tempo para nossa reorganização revolucionária, tempo para a América Latina e seus processos progressistas, tempo para a preparação dos povos do mundo diante das novas guerras imperialistas que estão anunciadas no horizonte. 


Dessa forma, o trabalho de esclarecimento de nossas posições políticas junto as massas, tem um sentido de afirmativo, mas também, por mais cordiais e respeitosos que busquemos ser com relação aos outros agrupamentos de esquerda, tem também um sentido de negação, ao qual não podemos nos furtar, isto é, denunciar o oportunismo, principalmente das organizações social-democratas que se autodenominam comunistas.


Porém, como não é de nossa índole colocar palavras na boca dos outros, nem ficar aqui dizendo o que pensamos sobre outras organizações, nos limitaremos a reproduzir excertos de declarações e documentos das mesmas, fazendo apenas breves comentários. Nossos leitores serão capazes de fazerem seu próprio julgamento.
O candidato do PCdoB ao senado, por São Paulo, por exemplo, emitiu a seguinte declaração em uma entrevista ao portal Terra:
“Eu fui aceito no partido para aprender os ideais e construir um comunismo brasileiro, nós não estamos no PCdoB discutindo o comunismo de Lênin, de Marx, de séculos passados.”


Creio que não precisamos tecer comentários acerca do nível em que se encontra o desvirtuamento dessa organização, que escolhe seus candidatos a cargos majoritários não por sua firmeza ideológica ou currículo exemplar de uma história de vida à serviço da classe operária, mas por sua exposição na mídia burguesa, neste caso na indústria cultural. Novamente esse partido será financiado pelos laboratórios farmacêuticos, pela agroburguesia e por todos os setores da burguesia que buscam um tom “nacionalista” para avançar em seus negócios.


Porém, para os militantes mais jovens, que não conhecem a história do movimento comunista brasileiro, que estão ingressando agora no palco da luta, existem outras armadilhas. A luta contra o oportunismo não é algo que se resolve do dia para a noite, é uma batalha muito dura, principalmente nas condições que nos encontramos no Brasil. Por isso, muitos jovens desconhecem a trajetória do agrupamento que utiliza hoje o nome do Partido de Prestes, mesmo não tendo acompanhando o mesmo quando do lançamento de sua célebre “Carta aos Comunistas” documento que deve ser amplamente estudado junto a nova geração de militantes que temos que formar.


Esse oportunismo é uma armadilha mais sofisticada, porque se reveste de um discurso esquerdista. Partindo de análises simplistas, sem um aprofundamento teórico, alguns desses agrupamentos lançam candidaturas próprias a presidência, na prática cumprindo o mesmo papel que a candidatura da Marina Silva, dar um fôlego a candidatura de José Serra e aos anseios da burguesia paulista, setor mais reacionário de nosso país, de se impôr com facilidade.


Essas candidaturas, da forma que se apresentam não contribuem com um grão de areia na elevação do nível de consciência da classe operária. Vão para a televisão apanas para pedir votos, e assim reforçar a crença no sistema eleitoral burguês. Seus discursos eleitorais são bem cor de rosa e não atingem o coração de nosso povo. Não denunciam o genocídio de nossos jovens pela polícia, não pregam o fechamento dos meios de comunicação burgueses, não afirmam a necessidade da derrubada da burguesia, de forma pacífica ou violenta, apenas falam do socialismo como algo que vamos fazendo aos pouquinhos, quase sem ruptura.


Se fossemos fazer uma avaliação pessoal, comparando a biografia desses candidatos, com a da Dilma, nossa posição seria ainda mais reforçada. Os companheiros da velha guarda, que sabem o que foi atuar em um momento política de repressão ostensiva e aberta, mantêm um respeito grande pela integridade desta companheira que teve a firmeza de não delatar seus companheiros de resistência em armas contra a ditadura mesmo sofrendo as sevícias da tortura. E tampouco, após o período da dita “redemocratização” correu para contar sua versão da história, em busca de estrelato, como fizeram tantos trânsfugas. Talvez a avaliação da Dilma seja a mesma de muitos companheiros que viveram aquela época que sabe que só poderemos escrever a verdadeira história, com todos os pingos nos is, após uma vitória, e que como nunca podemos partir do pressuposto de que “eles” sabem de tudo (apesar de sabermos que “eles” sabem de quase tudo, pelo menos de quem é quem) um certo comedimento é importante, mesmo que tenhamos que conviver com uma versão completamente deturpada de nossa história recente. Mas isso é só uma especulação. Porém, não é a biografia de nenhum candidato que explica nossa posição nessas eleições, e sim a análise que vimos expondo a cada edição de nosso jornal.


Um exemplo do nível de falta de pudor que chegaram esses agrupamentos está explicitado em suas próprias palavras. No final do mês de julho, o PCB, que até então vinha divulgando posição tomada em seu congresso de candidatura própria, anunciou de supetão que admitia retirar a mesma em favor de uma aliança com o PSOL. Após a perplexidade de muitos de seus militantes, o partido recuou em suas posições. Mas foi um caso onde a emenda ficou pior que soneto. Citamos a nota da Comissão Política Nacional do Comitê Central do PCB, de 30 de junho de 2009:


“Encerraram-se nesta noite as negociações nacionais com o PSOL, em São Paulo, sem que se lograsse um acordo.
Como se sabe, o Comitê Central do PCB havia admitido a possibilidade de que seu Secretário Geral, Ivan Pinheiro, fosse o candidato a Vice-Presidente na chapa encabeçada por Plínio de Arruda Sampaio, além da intenção de contribuir para a eleição de parlamentares do PSOL, celebrando coligações proporcionais.
O impasse se deu em dois pontos, ambos ligados ao espaço do PCB no horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. (...)
O nosso Comitê Central havia estabelecido como proposta para abrirmos mão da candidatura própria a Presidente o direito de o PCB ter 6 programas (um terço) e o PSOL os outros 14. No entanto, nossos interlocutores mantiveram a proposta de 16 para o PSOL e 4 para o PCB.


Outro motivo de impasse foi a proposta apresentada pelo PSOL para compor a coligação no Estado de São Paulo, em que o PCB, antes do início das negociações, já tinha candidaturas próprias aos quatro cargos estaduais em disputa.”


Precisamos analisar esse texto? Apenas afirmar a surpreendente falta de pudor dessa direção em afirmar que seu critério para fechar ou não uma aliança eleitoral é o tempo disponível no horário eleitoral gratuito. Não é o programa, não é a atuação das organizações, não é a possibilidade ou não da tal frente de esquerda que eles sonham em construir com o trotskismo, mas sim os minutinhos que a burguesia dá a eles na televisão. Será que a militância sincera dessas organizações não enxerga isso?
Quanto aos trotskistas, que há tempo apresentam suas candidaturas próprias às eleições, não gastaremos tempo em criticá-los. Suas posturas recentes em relação a Venezuela e a Cuba colocam uma barreira muito forte entre eles e o movimento revolucionário em nosso país, que não pode ser escondida por nenhum discurso, por mais boa vontade que tenhamos.


Dessa forma camaradas, não nos desesperemos se nesse momento não possamos apresentar uma real alternativa de poder a nosso povo, a ditadura proletária, podemos, sim, apresentar uma real alternativa de luta, um caminho das pedras, que já estamos trilhando, a exemplo de outros agrupamentos sérios no Brasil e no Mundo. Um caminho que honra nossos mortos, caídos em combate, e que enche de glória nossa classe operária.

Julio P. S.