Indústria diminui e bancos têm lucro-recorde

Segundo o último boletim do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB do Brasil teria crescido 2% no último trimestre de 2009 em relação ao terceiro trimestre e 4,3% em relação ao mesmo período de 2008. No acumulado do ano todo, a economia dentro do país teve uma contração de 0,2%, quase técnica. As projeções para 2010 e 2011 são mais do que otimistas: 5,45% e 4,50%, respectivamente.

Segundo o último boletim do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB do Brasil teria crescido 2% no último trimestre de 2009 em relação ao terceiro trimestre e 4,3% em relação ao mesmo período de 2008. No acumulado do ano todo, a economia dentro do país teve uma contração de 0,2%, quase técnica. As projeções para 2010 e 2011 são mais do que otimistas: 5,45% e 4,50%, respectivamente.

O interesse do governo em jogar para cima as projeções para o ano é enorme tanto no sentido diretamente eleitoral quanto estritamente no âmbito da política econômica, uma vez que a equipe econômica do país acredita que as expectativas sobre o crescimento têm tanto efeito sobre a economia real quanto a própria política econômica concretamente realizada.

No entanto, se o governo utilizou o dado para propagandear a “rápida recuperação do país” buscando comprovar sua tese da “marola”, é importante analisarmos que nem só de marés é feito o mar... É bem verdade que segundo os dados oficiais – ainda que imprecisos e/ou omissos – o PIB como um todo caiu quase que apenas simbolicamente. Porém, se desagregarmos esse dado, veremos que o impacto da crise no Brasil reduziu relativamente o peso da indústria na economia.

Em 2008, o setor industrial era responsável por 27,3% do PIB, tendo passado a 25,4% em 2009. A variação foi captada principalmente pelo setor de serviços, que já era o maior do país e ampliou sua participação de 66,7% para 68,5%. Enquanto a indústria encolheu cerca de 5,5% em 2009, o setor de serviços sequer caiu, aumentando 2,6%. Antes da precipitação da crise, os serviços já cresciam mais que a indústria, no entanto de forma menos marcada: 4,8% e 4,4% em 2008, respectivamente. Hoje, a produção industrial no país é 4,9% menor que em setembro de 2008.

Ainda assim, mesmo com a dita “crise financeira”, os bancos foram o setor que até agora perdeu menos no país. Em 2009, alguns deles chegaram inclusive a registrar lucros recordes, como o Banco do Brasil (ligaado ao governo federal) e o Itaú Unibanco (maior banco privado do Brasil), as duas maiores fusões realizadas com a centralização de capital acelerada pela crise. O Banco Central agiu como guardião da liquidez em última instância, tentando não apenas conter os danos da crise – por hora – mas sustentando os lucros dos bancos.

Do mesmo modo, o comércio – que aumentou 3,7% em 2009 – também foi impulsionado, principalmente através das ações do governo como “comprador” e através da sustentação da demanda interna, com o aumento nos próprios gastos do governo e cortes e isenção na arrecadação tributária. O governo Lula, no entanto, já dá sinais de aberto retorno a seu social-liberalismo: tem declarado repetidamente que o já está Brasil está “fora da crise” e planeja dar fim a medidas de corte anti-cíclico em todos os âmbitos que puder fazê-lo sem prejudicar sua vitrine eleitoral, sob o pretexto da contenção da inflação – ela mesma bandeira eleitoral.

Deixando de lado uma importante discussão sobre se parte significativa dos serviços produzem ou não valor, o emprego industrial é indicador, junto a outras variáveis, da efetiva produção de valor na sociedade, através da exploração direta da mais-valia dos trabalhadores nele empregados. Influencia toda a cadeia produtiva e distributiva da economia e, caso não se recupere, pode prenunciar uma nova onda de manifestação da crise no Brasil.

O governo buscará, essencialmente, sustentar a demanda agregada através da construção civil, com ênfase ao PAC e ao programa “Minha casa, minha vida” como bandeiras eleitorais de conteúdo social. O setor de construção civil foi um dos que mais sofreu em 2009 com a queda da atividade (-6,3%). Nesse sentido, na opinião de Paulo Godoy, presidente da associação das indústrias de base, em entrevista publicada no jornal “O Globo” o maior desafio nesse sentido será a infra-estrutura do país, uma vez que apenas no que diz respeito à logística, por exemplo, um crescimento da ordem de 6% no PIB em 2010 (semelhante ao prometido pelo governo) demandaria aumento de cerca de 12% dos investimentos no setor.


Lauro de Souza Freitas