De onde vem o mal cheiro das enchentes em São Paulo?

A cidade de São Paulo vem sofrendo com as chuvas desde o fim do ano passado. É certo que não chovia tanto em janeiro há mais de cinqüenta anos, mas, como é possível o Rio Tietê transbordar e não voltar ao normal após as chuvas?

A cidade de São Paulo vem sofrendo com as chuvas desde o fim do ano passado. É certo que não chovia tanto em janeiro há mais de cinqüenta anos, mas, como é possível o Rio Tietê transbordar e não voltar ao normal após as chuvas? Os moradores do Jardim Pantanal continuaram com suas casas inundadas, aonde o nível da água chegava a até um metro de altura durante semanas após as chuvas. Como é possível uma situação dessas? Para o Prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), a questão é simples, segundo ele “o verdadeiro culpado pelas enchentes é a água”.

Porém, culpar a água pelas enchentes é o mesmo que culpar o dinheiro pelas crises econômicas, ora, sabemos que por trás das ferramentas sempre existem mãos. Vamos mostrar agora que a questão não é tão simples como coloca o Prefeito de São Paulo e que existem pessoas interessadas na inundação de tais áreas.

A trajetória do Jardim Pantanal durante as fortes chuvas, que começaram no início de dezembro de 2009, ficou conhecida por todo o Brasil e a grande mídia fez coro com Gilberto Kassab em relação aos culpados das enchentes. Mas, o que foi pouco divulgado, é que o Rio Tietê possui várias barragens de contenção que controlam o nível de suas águas desde sua nascente até sua jusante no Rio Paraná.

As barragens acima do município da cidade de São Paulo são controladas pela SaBESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e as barragens da cidade são controladas pela EMAE (Empresa Metropolitana de Águas e Energia).  No dia 8 de dezembro, às 2h50, as seis comportas da barragem da Penha, controladas pela EMAE, foram completamente fechadas. Essa foi a data em que a cidade enfrentou uma forte tempestade e foi inundada em diversos pontos que há muito não enchiam. Essa também foi a data que deu início ao drama dos moradores do Jardim Pantanal. Somente dois dias depois, às 17h20, foram reabertas as comportas. Talvez isso não pareça tão drástico, mas conter completamente o fluxo de água de um grande rio em uma época com muitas chuvas, durante dois dias, pode causar problemas sérios. Até aqui, poderíamos admitir que fosse uma dura escolha do governo para não inundar o resto da cidade, mas o que justificaria as barragens acima da Penha, as barragens de Mogi serem abertas, potencializando ainda mais a contenção das águas na região do Jardim Pantanal?

Segundo o engenheiro responsável pela barragem da Penha, João Sérgio, a decisão é da direção da EMAE e argumenta que “cada barragem de São Paulo (Móvel, Penha, Mogi das Cruzes e Ponte Nova) é responsável apenas por administrar o fluxo de água do local e não sabe o que acontece nos outros pontos, porque não há comunicação.” Mas, apesar disso, ele sabe que as comportas foram abertas nas barragens de cima e isso claramente teve um papel fundamental no alagamento da zona mais pobre da cidade, a zona leste. “Não recebo informações de outras barragens. As de cima são administradas pela SaBESP e as de baixo pela EMAE. Eu só respondo por essa barragem e às ordens da EMAE”, disse. “Também acho estranho o nível da água não baixar aqui e não sei por que está indo para os bairros.” Ora, está claro que houve uma escolha da direção da EMAE; alagar os bairros pobres da zona leste para evitar o alagamento das marginais e do Cebolão, complexo viário que fica no encontro dos rios Tietê e Pinheiros e ponto de convergência importante dos fluxos de mercadoria.

Para Ronaldo Delfino de Souza, coordenador do Movimento de Urbanização e Legalização do Jardim Pantanal, o governo fez uma opção. “Ou alagava a marginal ou matava as pessoas no Pantanal. E matou”, disse. “E ainda bota a culpa nas moradias e na urbanização” referindo-se ao alagamento do Centro Educacional Unificado (CEU) e os prédios da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU). “O Estado só se preocupa com o escoamento das mercadorias, só pensa em rodovia. Vida humana não importa” completa.

Não é por nada que o movimento, formado por moradores de diversos bairros localizados na várzea do rio Tietê, acusa o governo do Estado e a prefeitura de manterem a água represada além do necessário como forma de obrigar às famílias a deixarem a região, onde será construído o Parque Linear da Várzea do Rio Tietê. Há anos os moradores resistem em sair dali, porque dizem que o governo não apresenta um projeto habitacional concreto e apenas oferece uma bolsa-aluguel de R$300,00. O que estamos vendo é uma nova forma de desocupação forçada das comunidades. Sempre nos deparamos com incêndios clandestinos nas favelas para sua futura desocupação, mas agora é diferente, não dá para botar fogo em um bairro com Centro Educacional e CDHU, a solução encontrada pelos interessados foi a inundação do bairro. A criação desse parque linear cuja função é apenas ambiental, esquecendo-se das pessoas que ali habitam, será um foco de ocupações de terra ilegais e da desova de cadáveres. Como é possível criar um parque com tais características no meio do maior entrave viário de São Paulo?  O que a iniciativa privada deve estar planejando para essa região ainda é nebuloso, mas uma coisa é certa, a criação de tal parque aquecerá a especulação imobiliária da região.

“Há uma estranha coincidência de que, no momento da desocupação, há um alagamento desses e ninguém consegue escoar a água. Não havia uma inundação dessas há 15 anos e o nível das águas está subindo mesmo sem chuva”, disse o deputado Adriano Diogo (PT).

O que podemos tirar de conclusão sobre o culpado da estranha “falta de comunicação entre as barragens do rio Tietê”, as inundações e o mau cheiro sentido nas enchentes de São Paulo e principalmente no Jardim Pantanal. É que eles não vêm da poluição dos rios ou da água, mas do gabinete do governador do Estado, José Serra (PSDB), e de seu aliado, o prefeito Gilberto Kassab (DEM).


Sucursal São Paulo