São Paulo e as eleições

São Paulo é a capital do capitalismo brasileiro e um bom exemplo do que ocorre durante as eleições em que a disputa intestinal entre os poderosos acaba por abrir uma brecha no processo eleitoral, fazendo com que candidaturas com menos recursos marquetológicos e financeiros despontem, como os representantes da pequena burguesia (profissionais liberais e pequenas empresas) ou popular.

São Paulo é a capital do capitalismo brasileiro. É aí que concentra as mega-industrias, o agronegócio, a sede das multinacionais instaladas no país, a sede dos bancos. Daí inclusive a necessidade de um imenso contingente de trabalhadores para colocar em movimento todo o capital acumulado. Não só o grosso da produção sai de São Paulo, mas o próprio consumo concentra-se, em boa parte, no próprio estado. Mas, não atrai para si somente todos os números da economia. A exemplo da atração gravitacional entre a Terra e a Lua, a força econômica de São Paulo mantém a política nacional sob sua gravidade.

Os donos do capital exercem sua força sobre a política por meio de infinitos mecanismos, invisíveis a olho nu, como a corrupção, lobby, assessorias, chantagem, cargos, contratos, subornos, mentiras etc. Com estes mecanismos, os seus interesses de grupo, ou melhor, de classe, são os que acabam prevalecendo sobre as demais forças secundárias, isto é, se torna hegemônico. Por mais que uma candidatura adote ou tenha uma postura e discurso genérico, que se apresenta como aliado dos ricos e dos pobres, dos empresários e dos operários, dos latifundiários e dos camponeses, das multinacionais e dos consumidores, a sua campanha eleitoral e, conseqüentemente, seu governo, serão sustentados e prestará contas para determinadas forças políticas e econômicas. Como tudo na vida, um investimento político-econômico somente será despendido se trouxer retorno, se houver possibilidades concretas de atender as expectativas dos investidores. Aliás, uma campanha não é somente o ponto de partida do candidato, é também o resultado, a convergência de toda uma história de serviços políticos prestados anteriormente, a concretização dos investimentos anteriores.

A possibilidade de enriquecimento meteórico e de um status quo privilegiadíssimo faz com que muitos políticos fiquem viciados em servir aos donos do capital. As vezes alguns dos candidatos a candidato do poder econômico, apoiado por determinadas frações dos proprietários, se lançam a uma disputa encarniçada para ser o maior serviçal. As maracutaias e os podres do adversário são jogados para fora do circulo do poder. Além dela ser uma grande escola para a massa trabalhadora, a disputa intestinal acaba por abrir uma brecha no processo eleitoral, fazendo com que candidaturas com menos recursos marquetológicos e financeiros despontem, como os representantes da pequena burguesia (profissionais liberais e pequenas empresas) ou popular. A disputa encarniçada entre José Serra e Geraldo Alckmin, ambos do PSDB de São Paulo, levou Lula a reeleição. Assim parece estar acontecendo entre o mesmo famigerado José Serra e Aécio Neves, do PSDB de Minas Gerais. O racha entre os donos de poder poderá abrir um caminho sobre o qual despontará uma candidatura não totalmente alinha aos seus interesses corporativos.

O PSDB é o partido sede, o escritório dos interesses dos donos do capital financeiro, multinacional e mega empresas nacionais. É o PSDB e seus aliados, como o PFL (atual DEM), PPS e PV, que transformam os interesses econômicos das multinacionais, banqueiros e latifundiários em política econômica governamental, ou pauta de um governo dito popular ou não-alinhado. O particular se generaliza. A política neoliberal [esquartejamento dos direitos trabalhistas, desmonte e privatização das riquezas sócio-estatais, deslocamento da carga tributária (impostos e taxas) sobre as costas da massa operária e camponesa (ao invés das grandes fortunas), altas taxas de juros e liberdade à especulação financeira] é a materialização dos interesses do capital na política pública e na pauta do governo, seja ele de direita ou popular. Mesmo sendo eleito popularmente para romper com ela, a força sobre a economia e o poder de manobra e corrupção do capital privado aliado às posições vacilantes do governo Lula e ao atrelamento das centrais sindicais e movimentos camponeses faz com que o neoliberalismo ainda seja o eixo central da política de seu governo.

A disputa interna também prepara para a batalha final. Desde já José Serra, chamado de Zé Pedágio por privatizar todas as rodovias paulistas e liberar os preços dos pedágios, do lado do capital multinacional, passou a se preocupar pela situação dos nordestinos, pobres e negros. Zé Pedágio, do PSDB paulista, abraça crianças, estende as mãos para os idosos e até sorri para os populares. Faz campanhas multimilionárias na mídia aliada, parecendo que está fazendo uma revolução em São Paulo. É o lado bom que é apresentado na sua campanha, a popularização da mercadoria candidato-patrão. No entanto, a banda podre da corrupção já tomou conta da Segurança Pública e está se tornando comum ouvir dizer que “policial está matando até policial”. É pior que a violência no Rio de Janeiro, mas invisível, sem aparecer na mídia aliada. Também não apareceu na mídia a isenção de ICMS dada por Zé Pedágio à multinacional Telefônica. A multinacional é a campeã em processos na Justiça de São Paulo. É a campeã em má qualidade dos serviços e pelo abuso de cobrança de tarifas. É o candidato serviçal prestando serviço ao explorador.

 

Roberto Figueiredo