O lucro dos bancos (II)

No artigo anterior, a argumentação pairou em suspenso. O tema estacou nas alturas da margem bruta de rendimento. É o que o banco ganha entre a captação de recursos de um lado e a aplicação de recursos no outra. O mercado financeiro batizou tal diferença de “spread”. E nesse intermédio o que será que existe? Tal como no passado, aí aparece a remuneração da atividade bancária. Como se trata de esfera determinada de investimento de capital acumulado, é preciso pagar as despesas e acrescentar o lucro de quanto o banqueiro espera ganhar. Nisso, nada há de diferente entre os bancos organizados em fins da Idade Média e hoje, no primeiro decênio de século XXI. O que segue talvez diferir um pouco mais são os componentes desta margem.

O lucro dos bancos (II)

 

No artigo anterior, a argumentação pairou em suspenso. O tema estacou nas alturas da margem bruta de rendimento. É o que o banco ganha entre a captação de recursos de um lado e a aplicação de recursos no outra. O mercado financeiro batizou tal diferença de “spread”. E nesse intermédio o que será que existe? Tal como no passado, aí aparece a remuneração da atividade bancária. Como se trata de esfera determinada de investimento de capital acumulado, é preciso pagar as despesas e acrescentar o lucro de quanto o banqueiro espera ganhar. Nisso, nada há de diferente entre os bancos organizados em fins da Idade Média e hoje, no primeiro decênio de século XXI. O que segue talvez diferir um pouco mais são os componentes desta margem.

Na atualidade, a margem bruta deve cobrir, a saber: as despesas administrativas1; os impostos; o risco de inadimplência e, por fim, a margem líquida  de ganho, que é o lucro arbitrado pelo banqueiro para valer a pena lidar com o comércio de dinheiro. Esta margem última precisa ser superior ao ganho com a produção de mercadorias. A título de exemplo, a Volkswagen do Brasil prefere mil vezes financiar o auto produzido na fábrica do que vendê-lo à vista. Ela organizou banco próprio, justo para financiar a comercialização da produção e a realização do lucro da fábrica. Ganha mais no financiamento do que na produção. Do contrário, não haveria sentido em possuir um banco com todos os dispêndios que isso implica. De cada 10 autos vendidos, 7, pelo menos, são financiados.

O mesmo sucede com outras mercadorias provenientes da indústria. A rede varejista Casas Bahia oculta por trás uma financiadora, a Finasa, que, em verdade, é o Bradesco. Com o sistema bancário por detrás, a loja garante a realização de suas vendas, paga trabalhadores de escritório e vendedores, e assim embolsa o lucro do negócio comercial. O Bradesco, com elevadas margens brutas, corre para ganhar um tanto ainda maior. Estabeleceu-se um ato jurídico, definido em lei, entre devedor e credor. Sai o comerciante com o dinheiro no caixa e ingressa a lei. Há, portanto, uma obrigação e as devidas penalidades em caso de inadimplência.

No caso dos bancos comerciais, eles irão financiar um leque mais amplo de clientes, de trabalhadores, pequeno burgueses e burgueses aos diferentes tamanhos de capitais, da micro à grande empresa. O dinheiro de crédito vai ser ofertado em diversas modalidades à pessoa física e jurídica. As primeiras poderão escolher principalmente entre crédito direto ao consumidor, cheque especial, casa própria, automóveis e consórcio. As empresas deverão eleger, para citar as opções mais relevantes, entre capital de giro, desconto de duplicata, arrendamento mercantil (leasing) e máquinas e equipamentos2(Finame). Óbvio, existem outras modalidades de empréstimo. Mas com essas já se consegue formar nítido panorama do negócio bancário.

Neste lado do balcão, os tomadores prestam continência. O dinheiro de crédito encontra aplicação, subentendido certo risco na operação. Alguns não poderão pagar por uma diversidade de motivos. Esta incerteza de retorno implica no perigo do empréstimo não regressar. Todavia, é preciso fechar o ciclo do negócio bancário com o outro lado do balcão. Ali, meio na penumbra, aponta o Governo, como fonte de captação. Os bancos compram títulos públicos do Governo, sob custódia e manuseio do Banco Central. O desembolso sai das reservas de tesouraria, a raspa entre os empréstimos recebidos e os pagamentos realizados. Depois, recebe de volta o capital emprestado somado aos juros. Nesta ponta, não se corre riscos. O Governo detém a casa da moeda e imprime dinheiro de curso forçado. A garantia de recebimento pelo bancos é líquida, certa e de risco quase nulo.

O cenário ficou pronto. Na frente, surgem os tomadores, em sua pele de pessoa física e jurídica. Consistem trabalhadores e empresas portadores de certo risco. É o momento da aplicação. Na retaguarda, distante dos olhos do público, comparece nas sombras o próprio Estado, ofertante de títulos públicos de crédito portadores de risco zero. É o momento da captação. E no meio, intermediando e amarrando as duas pontas, quem se apresenta garboso, como herói inocente, vítima das circunstâncias? Os bancos! Esses coitados! Na captação com o Governo, necessitam ganhar o mínimo dos mínimos. Esse mínimo é a medida da magnitude da inflação, quer dizer, o quanto o dinheiro se desvaloriza, quanto perde de poder de compra, tanto para o capital quanto para o trabalho. O ideal é ganhar acima da inflação. Isto se converte em ganho real, com vários sinônimos3, utilizados na terminologia de mercado. Garantido este piso é repassar esta importância para valorizar até determinado teto suportável pela economia. Então aparecem os tomadores, quer dizer, os clientes do banco. Estes também podem comprar títulos públicos, desde que disponham de sobras de recursos para tanto. No caso dos bancos, a aquisição de títulos públicos assume cifras bilionárias em operações renovadas diariamente. Em caso de simples mortal, a partir de 100 reais já se admite adquirir títulos públicos e a autocontemplação diante do espelho, fingindo ser especulador financeiro. “- Espelho, espelho meu! Existe alguém mais esperto do que eu?!”

Agora, o circuito está encerrado. Na ponta da aplicação, o dinheiro se valoriza na esfera da produção. Na normal das situações quem toma emprestado é para comprar algo ou pagar alguma dívida corrente. Trabalhadores e micro e pequenos capitais aqui se enfileiram em maioria com suas respectivas mazelas e vaidades. Natural. Em contrapartida, na captação, o dinheiro se valoriza na esfera especulativa. Compram-se títulos públicos do Governo, também oferecidos em tipos de remuneração e prazos de resgate. Em verdade, atua um jogo de apostas, em que cada apostador alimenta expectativas de sucesso e fracasso para deixar seu dinheiro render no futuro mais ou menos previsível. Aqui não se depara nenhuma mercadoria para satisfazer qualquer necessidade social. Dinheiro reprodutor de dinheiro em várias alternativas de apostas.

Contudo, ainda não se declarou qual o ganho bruto dos bancos. Apenas se elucidou a trama de funcionamento. Para desvendar o mistério, nada mais é requerido do que breve visita4 a algumas agências bancárias. Pergunta-se pelas taxas padronizadas de empréstimo, ofertadas em certas variedades mais comuns. De Uiramutã, no Norte de Roraima, a Arroio Chuí, no extremo Sul dos pampas gaúchos, resulta idêntica taxa. Em seguida, organiza-se quadro estimativo com estes percentuais médios, modificados em coeficientes e, por fim, compara-se com a taxa de títulos públicos, divulgada a cada 40 dias, com o nome batismal de taxa básica. Nada que uma regra de três simples não resolva.

A taxa básica é arbitrada pelo Banco Central. Ela regula o nível de rendimento especulativo maior ou menor. Provoca sorriso ou beiço na especulação. Mostra o quanto se pode ganhar sem esforço, sem gerar um emprego, sem produzir um carretel de fio. Por enquanto, foi fixada em 9,25% ao ano. E o banco comercial deve idealmente ganhar acima da inflação. A inflação está projetada para 4,5% ao ano. Portanto, percebe-se que no piso definido pela taxa básica já se obtém um pequeno rendimento real5 acima da inflação. Como o rendimento real especulativo está com tendência de queda, o grosso do ganho mesmo vai se obter no teto, na outra ponta com os tomadores, quando são cobradas as taxas de mercado. Vide tabela abaixo. Um dedinho de paciência...

O quadro acima apontou o quanto o banco comercial ganha ao ano em termos de margem bruta por modalidade de operação creditícia. O maior ganho está no cheque especial (121,44% a.a.) O menor é a casa própria, onde o dinheiro é repassado pelo Governo Federal. Os bancos comerciais não querem se arriscar nesse território inóspito. Os dados foram levantados neste mês de junho (A). O cálculo é realizado sobre a taxa básica (B) estabelecida em 9,25% ao ano na recente reunião do Banco Central.

Este escrito argumentou de modo geral sobre o processo de ganho dos bancos e para isso chegou-se a um cálculo aproximativo. Basta paciência e boa vontade para compreender. Os números da Federação Brasileira dos Bancos (FEBRABAN) se baseiam nestes fundamentos, perseguindo esta trajetória, todavia estimados sobre um espectro muito maior de bancos comerciais.

No próximo e eletrizante último artigo vamos mostrar o ganho líquido dos bancos, as margens oficiais, divulgadas pela FEBRABAN e as outras formas de sustentação do negócio bancário. A conclusão versará sobre as conseqüências para o capitalismo brasileiro, principalmente na vida dos trabalhadores. Espero ter ajudado a decifrar a maçaroca do sistema financeiro. Até!


José da Silveira Filho


1 O autor incluiu neste ítem, para simplificar a explicação, o custo do depósito compulsório, dinheiro que o Banco Central impede de circular para conferir segurança ao sistema bancário.


2 No financiamento de máquina e equipamentos, o dinheiro de crédito oferecido procede do governo, que retira dos impostos saídos do trabalho do povo. Aí a margem bruta pode ser até negativa.


3 Ganho efetivo, rendimento verdadeiro são sinônimos de ganho real. Quanto maior a variedade de termos maior a confusão na cabeça das pessoas e melhor para desentender o assunto.


4 Este autor fez visitinha inocente de cortesia ao Itaú-Unibanco, HSBC e Banco do Brasil, bem próximos de sua casa.


5 1,0925-1,045 = 0,0475/1,045 = 0,04545 x 100 = 4,54%. Este é o valor do rendimento real anual.