Quem não tem rabo preso ao banqueiro Dantas?

Acusado de lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, fraude contábil, evasão ilegal de dólares, espionagem internacional, entre outros crimes, o famoso “Banqueiro bandido”, segundo o delegado Protógenes Pinheiro, tem em seu HD (disco rígido de computador) 20 anos de história da República do Brasil, no qual contém toda a podridão das privatizações e articulações da “organização criminosa internacional”, formulada pouco antes de Fernando Henrique Cardoso ser conduzido ao Ministério da Fazenda e criar o Plano Real.

Quem não tem rabo preso ao banqueiro Dantas?

 

Houve uma época em que o poder dos banqueiros, grandes empresários e grandes comerciantes se fazia valer sobre todas as demais classes no Brasil por meio de implacável ditadura militar-fascista. Depois que o sangue de muitos companheiros revolucionários afogou o governo militar-fascista, as oligarquias dominantes passaram a adotar outros mecanismos para fazer valer seu poder sobre os poderes legalmente constituídos da República e a sociedade em geral.

O banqueiro Daniel Valente Dantas é apenas, segundo as formalidades da atual Constituição Brasileira, um cidadão como eu ou você. Pela Carta Magna, o banqueiro tem o mesmo direito de se relacionar com a máquina pública, assim como ter a disposição os mesmos direitos e deveres para com o Poder Executivo, Legislativo e Judiciário e às Forças Armadas e Militar, como qualquer um de nós. Mas, bastou uma investigação sobre os livres negócios privados e internacionais do “cidadão” de posse para conhecermos as bases, os fundamentos, os limites do atual estado brasileiro, mesmo que nas mãos de um ex-operário.

É flagrante como a vida e os negócios privados podres do “cidadão” banqueiro teve e ainda tem espaço no sistema: lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, fraude contábil, evasão ilegal de dólares, espionagem internacional etc. “Crimes” lesa-pátria que o levou a ser chamado de “banqueiro bandido” pelo delegado chefe da PF, Protógenes Pinheiro Queiroz. Crimes estes impossíveis de serem cometidos por qualquer cidadão operário ou camponês, simplesmente por não possuírem qualquer capital. Mesmo comandando uma “organização criminosa transnacional”, segundo a Polícia Federal, o cidadão banqueiro goza de defesa intempestiva e massiva por parte dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, bem como da grande imprensa escrita, falada e televisada. O poder e a força que este cidadão de posse possui em suas mãos suja, mãos que digitam a senha do caixa forte, nos mostram que o presidente Lula não é o “cara”.

O cidadão de posse tem tanto poder que parece feiticeiro. O que se imputa a ele se volta contra o acusador. Um setor da Polícia Federal, que desencadeou a Operação Satiagraha, quis denunciar e condenar o banqueiro a público, mas foi este setor que acabou sendo intimidado pela máquina estatal e ridicularizado pela mídia. Quis colocar atrás das grades o banqueiro chefe de uma organização criminosa internacional, mas quem está na mira da justiça é o delegado da operação, Protógenes, que não pode mais abrir a boca para não ser enquadrado em qualquer artigo de qualquer lei. Quis desbancar os tentáculos do banqueiro nos mais variados setores estratégicos da economia nacional, entre eles o agronegócio, a mineração, as telecomunicações, o portuário, espionagem internacional, mas quem está sendo objeto de investigação na CPI é a própria inteligência da Polícia Federal.

Na CPI das Escutas Clandestinas, Protógenes declarou que nos HDs (discos rígidos de computador) do banqueiro pode-se encontrar 20 anos de história da República do Brasil. Está aí toda a podre história das privatizações, todo o jogo sujo que acabou na entrega das estatais e seus setores estratégicos a grupos internacionais ou a si próprio, articulados pela “organização criminosa internacional”, comandada pelo “banqueiro bandido” durante os governos de Fernando Henrique Cardoso (Brasil) e Mário Covas (São Paulo).

Estão aí nos HDs os detalhes de um “contrato guarda-chuva”, segundo as palavras do delegado Protógenes, formulado pouco antes de FHC ser conduzido ao Ministério da Fazenda e criar o Plano Real, ainda no governo de Itamar Franco. Neste programa, digo “contrato”, estava delineado a implementação de cerca de 1.200 projetos de interesse do banqueiro bandido e seus capangas para serem concluídos em duas décadas, entre eles a transposição do Rio São Francisco, maior projeto do governo Lula. Um dos formuladores deste programa do banqueiro-governo é Mangabeira Unger, atual ministro de Assuntos Estratégicos do governo Lula.

Em uma palavra, o Estado cabe no bolso do banqueiro. A história do neoliberalismo no Brasil é a história da “organização criminosa internacional”, comandada pelo “banqueiro bandido”, ou dito em termos político partidário, é a história do governo do PSDB – PFL (atual DEM) em aliança com o PP, PL, PPS e boa parte do PMDB. Com o neoliberalismo, o banqueiro estendeu seus tentáculos nos mais variados setores da economia, de gigantescas fazendas à Vale do Rio Doce. Mas nada surpreende mais que sua folha de pagamento: do alto escalão dos poderes federativos: Executivo, Legislativo e Judiciário; à grande imprensa e empresa de espionagem internacional.

A Operação Satiagraha, continuação da Operação Chacal, assim como a Operação Castelo de Areia e a CPI do Banestado, despiram a idolatrada e mistificada democracia brasileira. Colocaram a nu as “relações institucionais” entre partidos e empresas, a dita “parceria” público-privada, “igualdade” de direito e deveres frente ao estado burguês, onde todos os cidadãos temos as mesmas possibilidades de eleger e ser eleitos. Tudo uma grande farsa, mantida com milhões e mais milhões de nosso dinheiro. Uma reforma, mesmo que mais geral, neste sistema de roubo só vai maquiar ainda mais a corrupção, a fraude e a distância que nos separa do poder. Quando muito criar mecanismos ainda mais complexos para criar mais brechas à impunidade e defesa dos verdadeiros ladrões.

 

José Tafarel