Fatores que levaram à vitória de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos

Barack Hussein Obama será o 44° presidente eleito dos Estados Unidos, mas certamente será lembrado como o primeiro presidente negro eleito! Fato que foi amplamente divulgado pela mídia depois de sua eleição em novembro. Mas a pergunta que fica é: será que Barack Obama tem realmente a intenção de realizar mudanças? Se a resposta for afirmativa, será que os grupos de poder que financiaram sua campanha, permitirão essas mudanças? Quais são as limitações de seu projeto político?O que está por trás do espetáculo? Será possível investir em educação, saúde e em programas sociais quando existe um compromisso de 700 bilhões de dólares com projetos militares?

Fatores que levaram à vitória de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos


Barack Hussein Obama será o 44° presidente eleito dos Estados Unidos da América do Norte, mas certamente será lembrado como o primeiro presidente negro eleito. Fato que foi amplamente divulgado pela mídia depois de sua eleição em novembro.  As matérias, reportagens e programas a respeito do processo eleitoral naquele país e de sua vitória deram muito enfoque à personalidade do candidato vencedor, principalmente ao fato de ele ser afro-estadunidense, deixando de lado o contexto no qual se insere a sua vitória.

As eleições servem como um termômetro para medir o grau de aprovação ou de descontentamento da população com relação ao atual governo e a situação do país. Se, por um lado, a vitória de Obama se deu devido a um anseio da população estadunidense por mudança, agravado pela atual situação de crise econômica; por outro, sua candidatura e posterior vitória só foram possíveis devido às alianças políticas e financeiras realizadas para que um candidato que materializa uma série de contradições pudesse ocupar essa brecha. Para os detentores do poder, Obama poderia inclusive funcionar como um “bode expiatório” e sua vitória poderia ser uma forma de acalmar os ânimos da população, já cansada.

 Nos Estados Unidos, além da questão da deficiência (ou eficiência para aqueles que se mantêm no poder) do sistema estadunidense representado pelo sistema bipartidista majoritário, não proporcional, está o tema da privatização do financiamento das campanhas eleitorais que não permite que candidatos que não atendam o interesse dos grupos doadores para sua campanha tenham sequer algum tipo de expressão ou espaço na mídia. Os meios não deram nenhuma projeção às propostas dos candidatos alternativos como Kucinick ou Edwards, que não conseguiram contribuições dos grupos empresariais ou dos setores mais pungentes da população. Os 100 milhões de dólares que Obama tinha no princípio da campanha, contrastavam com os três milhões de Edwards ou os 650.000 dólares de Kucinick. A maioria dos fundos de campanha não vem, como freqüentemente se diz, de pequenas contribuições de 20 ou 30 dólares enviadas ao candidato por seus simpatizantes, senão que são grandes quantidades procedentes de grupos empresariais, financeiros, profissionais e grupos de interesse e pressão. As conseqüências de tal privatização do sistema eleitoral são enormes. Não só excluem às esquerdas, senão que reproduzem uma classe política muito estável. Segundo o Instituto de análises eleitorais, Common Cause, 92% dos candidatos que recebem mais dinheiro nas campanhas ganham as eleições. Há, portanto, uma clara relação entre dinheiro e capacidade de ser eleito.

 Este dinheiro chega diretamente ao candidato ou às associações que o promovem e que não estão sujeitas aos limites de contribuições individuais que um candidato pode receber quando o dinheiro vai diretamente para ele. Obama, por exemplo, recebeu 414.863 dólares das seguradoras de saúde privada e McCain 274.729 dólares. Uma parte também procede das agências promotoras de interesses empresariais sediadas em Washington, que são conhecidas como lobbies. Obama disse recusar dinheiro dos lobbies baseados em Washington, mas recebeu dinheiro (e muito) dos interesses financeiros (baseados em Wall Street) e empresariais. Não é certo que a maioria de seus fundos procedeu de contribuições de menos de 200 dólares. Só cerca de 20% das contribuições individuais vieram de tal tipo de contribuições. A origem do dinheiro varia segundo o momento da campanha. Assim, no começo, quando o candidato não é ainda conhecido, o dinheiro procede de grupos financeiros e empresariais que tentam influenciar ao candidato. Dessa forma, Obama havia recolhido 100 milhões de dólares antes que começassem as eleições prévias de seu partido. Estes fundos incluíam fundos de grupos imobiliários e capital financeiro. É somente mais tarde, quando os candidatos são conhecidos, que as contribuições individuais jogam um papel maior, sendo sua percentagem maior à medida que continue a campanha. Parte do sucesso da campanha de Obama foi mobilizar três milhões de doadores para garantir um fluxo constante de 200 euros ou quantidades semelhantes. A maioria das contribuições, no entanto, são maiores que tais quantidades e procedem de 30 por cento de renda superior da população. (Vicenç Navarro, Mesianismo ó movilización, http://www.rebelion.org/noticia.php?id=75709). No total, foram gastos mais de dois bilhões de dólares nas campanhas de presidenciáveis e congressistas. Foi definitivamente uma campanha multimilionária!

De qualquer forma, não podemos negar o valor simbólico e histórico dessa vitória. Certamente foi um fenômeno que 64% do eleitorado estadunidenses votasse por Obama; destes, 93% eram negros, 66% hispânicos, 66% jovens abaixo de 30 anos e, entre os trabalhadores brancos, teve um apoio de 44%. Claramente há um descontentamento na sociedade estadunidense, também oprimida pelo capital e cansada de continuar sendo as bases de uma sociedade opressora. Sem contar o desespero que muitos estão sofrendo e sofrerão na pele devido aos efeitos da crise (desemprego, desalojamentos, falta de crédito, entre outros aspectos). Sem dúvida existe um pedido de mudança. E Obama, apesar de não ter atingido este lugar devido às mobilizações populares, é a materialização desse pedido, como algo quase “messiânico”. Faz-nos certamente recordar da eleição no Brasil de 2002, na qual os publicitários nos fizeram acreditar que “A esperança venceu o medo”. Nos Estados Unidos, durante a campanha presidencial, a mídia e os publicitários foram capazes de despolitizar ao máximo as eleições e levar o eixo do debate para as questões dos direitos civis, como a questão racial. Eleger-se-ia o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos (Obama já havia levado o mérito de haver sido o terceiro senador negro). Obviamente, parte do eleitorado e da população estadunidense “comprou” este discurso. Pessoas de idade, negros e hispânicos em sua maioria, no dia 04 de novembro, acordaram cedo para enfrentar filas, em um país onde o voto não é obrigatório, para garantir que seu voto pelo primeiro presidente negro estivesse na urna. Porém, não podemos subestimar aqueles que viram em Obama a oportunidade de transformar (salvar?) a economia do país e que exigem o fim da Guerra no Iraque, o fim do bloqueio a Cuba, o fechamento dos cárceres de Guantánamo e Abu Ghraib, uma nova política migratória, entre outras questões que fazem parte hoje da crise política que vive este país. Múmia Abu-Jamal, um reconhecido jornalista e ex-Pantera Negra que criticava abertamente a violência e o racismo da sociedade estadunidense, preso e condenado sem provas pelo assassinato de um policial branco desde 1982, em um artigo sobre a vitória de Obama titulado Obama: o significado da vitória faz a seguinte brincadeira: “Entre amigos, dentro da sala de visitas da prisão, várias vezes fiz esta quase piada: Obama vence de forma esmagadora e, em seu discurso aceitando a vitória, emocionado pelo triunfo, cheio de “capital político,” começará dizendo: “Cidadãos norte-americanos - primeiro e, sobretudo, quero agradecer à única pessoa que fez possível (se não inevitável) a minha eleição: George W. Bush!”

 Este descontentamento foi aumentando com a crise financeira motivada, certamente, pela crise política. Tal crise iniciou-se a partir dos anos do Presidente Reagan cujas políticas públicas têm polarizado a distribuição das rendas nos EUA, com um descenso da capacidade aquisitiva das classes populares (um operário de 30 anos recebe um salário que é 17% abaixo que o existente em 1980), e um aumento das rendas superiores, que atingem uns níveis de grande exuberância. Na realidade, a renda de 1% da população de renda superior é maior que a soma da renda de 40% da população dos EUA. Enquanto em 1980 (o início da revolução liberal), um executivo de uma grande empresa cobrava quarenta vezes o que ganhava um trabalhador médio, em 2000, o primeiro ganhava quatrocentas vezes mais que o segundo. Ganhava em um dia o que o trabalhador ganhava em todo um ano. Nunca antes (desde a Grande Depressão) se haviam atingido uns níveis de desigualdade semelhantes. Enquanto os salários caíram desde 1996 a 2001, as rendas dos 10% mais ricos aumentaram durante o mesmo período em 58%. E tal polarização significou também uma diminuição da mobilidade vertical da cidadania, de maneira que paradoxalmente, no mesmo período em que um afro-estadunidense é eleito Presidente, dando uma imagem de mobilidade racial, as possibilidades para que uma pessoa que está entre os 10% mais pobres do país deixe tal nível são mais baixas que nos países da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD) de nível comparável aos dos EUA (ver George Irwin. Super Rich. The Rise of Inequalities in Great Britain and in the U.S. Polity Press.- 2007). Deparamo-nos então com uma sociedade extremamente endividada, enquanto a renda está sendo transformada em capital especulativo, gerando “bolhas especulativas” e a crise financeira. Isso certamente impulsiona o desejo das massas de mudança.

Mas a pergunta que fica é: será que Barack Obama tem realmente a intenção de realizar mudanças? Se a resposta for afirmativa, será que os grupos de poder que financiaram sua campanha, permitirão essas mudanças? Quais são as limitações de seu projeto político? O que está por trás do espetáculo? Será possível investir em educação, saúde e em programas sociais quando existe um compromisso de 700 bilhões de dólares com projetos militares? O primeiro anuncio que um israelense, Rahm Emanuel, que serviu na Inteligência do exército israelense, será o chefe da agenda na Casa Branca, não será uma demonstração do que realmente definirá a próxima política no Oriente Médio?

Do ponto de vista da reforma profunda que os Estados Unidos e o mundo requerem, as limitações do programa de Barack Hussein Obama são grandes, marcadas pelo conflito entre as grandes influências empresariais e financeiras que lhe apoiaram e suas bases eleitorais mais mobilizadas (a classe trabalhadora e setores das classes médias) que exigem uma transformação). Aos capitalistas não lhes interessa se é um negro, um índio, uma mulher ou um chinês que defenda seus interesses, contanto que os defenda. Resta-nos torcer para que o povo estadunidense se conscientize cada vez mais do papel que pode assumir na história da luta de classes mundial e que exerça este papel de forma contundente, organizando-se, mobilizando-se e pressionando ao próximo presidente eleito, para que de fato essas tão esperadas transformações ocorram. A história já nos mostrou que isso é possível! Afinal de contas, Franklin Roosevelt também foi um candidato moderado que pressionado pelas mobilizações populares estabeleceu o New Deal (que sequer estava em seu programa quando foi eleito pela primeira vez), realizando um “pacto social”, propondo uma nova ação do Estado, implementando o keynesianismo econômico. O mesmo poderia acontecer com Obama.


Camila Rocha

 

giovanna
giovanna disse:
21/09/2011 00h49

texto excelente!

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