Iván Márquez: "Nosso objetivo é a paz"

Em entrevista inédita, Iván Márquez, do Secretariado do Estado Maior e Central das FARC-EP, fala sobre a importância do intercâmbio humanitário, o papel de Chávez nas negociações pela paz, a atitude antipatriótica e criminosa de Uribe e afirma o objetivo de "construir um novo país, onde haja a verdadeira democracia, em que o soberano seja o povo, e que acabe a injustiça que está matando os assalariados de fome e produzindo lucros para as empresas e investidores internacionais".

Iván Márquez: "Nosso objetivo é a paz"

 

Entrevista inédita realizada por Aluisio Bevilaqua com o Comandante Iván Márquez, do secretariado do Estado Maior e Central das FARC-EP, nas montanhas da Colômbia. Um dos destacados quadros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo, Iván Márquez nessa entrevista histórica ao INVERTA, fala sobre a importância do intercâmbio humanitário, sobre o papel de Chávez nas negociações pela paz, a atitude antipatriótica e alienada de Uribe, e afirma o objetivo de "construir um novo país, onde haja a verdadeira democracia, em que o soberano seja o povo, um país cujos ramos do poder público sejam eleitos fundamentalmente pelo povo(....) , um país cujas instituições jurídicas desistam desse sistema penal acusatório copiado dos países do norte, do império fundamentalmente, um país sem corrupção, requeremos um país sem política econômica neoliberal, que termine com essa situação de injustiça dentro do povo, essa legislação trabalhista que está nos matando, que está matando os assalariados de fome e produzindo grandes lucros para as empresas e os investidores internacionais".


IN - Iván Márquez, as FARC ocuparam um espaço muito grande na mídia em todo o mundo devido à libertação das duas prisioneiras. A que se deve essa posição unilateral das FARC com a libertação dessas prisioneiras?

IM - A libertação de Clara Rojas, ex-candidata à vice-presidência da Colômbia e da ex-congressista Consuelo González de Perdomo, obedeceu a um gesto de desagravo das FARC - Exército do Povo ao Presidente da República Bolivariana da Venezuela, que foi excluído de maneira grosseira pelo governo de Uribe desse trabalho tão importante e tão eficaz que estava realizando, de intermediação humanitária, e que estava a ponto de concretizar os primeiros resultados concretos depois da conversa que tivemos no Palácio de Miraflores. É um gesto unilateral, como você mesmo apontou. Além disso, o Presidente Chávez nos havia pedido algo semelhante, e nós consideramos oportuno, diante dessas circunstâncias produzidas pelo governo de Bogotá, proceder com a libertação destas duas pessoas que encontravam-se em nosso poder como prisioneiros de guerra.


IN - Houve um avanço sobre a possibilidade de um intercâmbio humanitário dos prisioneiros ou houve um atraso devido a retirada do Presidente Hugo Chávez, da frente das negociações, como havia sido nomeado tanto pelas FARC como, de certa forma, pelo governo de Uribe, que até então havia permitido que ele e a senadora Piedad Córdoba estivessem nessa comissão pelo intercâmbio humanitário?

IM - Considero que houve um avanço nessa difícil luta para concretizar a intercâmbio humanitário de prisioneiros de guerra. Desta batalha que temos travado, em primeiro lugar pelo reconhecimento das FARC como uma organização político-militar, questão que, inexplicavelmente, desconhece o sr. Álvaro Uribe Vélez, que também diz que na Colômbia não existe um conflito armado, agindo como uma pessoa alienada, que está totalmente desligada da realidade. Este é um conflito que leva já mais de 40 anos, no qual, igualmente, desenvolvem-se ações militares continuadas por parte do Estado contra nossa organização. Se não houvesse conflito armado não haveria, então, necessidade, por exemplo, do Plano Patriota, que é o componente militar da “Política de Segurança Democrática”, desenhada pelo Comando Sul do Exército dos Estados Unidos e que busca fundamentalmente aniquilar o movimento armado colombiano e, sobretudo, atropelar a luta travada pelo povo, a luta das organizações populares, sindicais e políticas. Desde o começo propusemos que, primeiro, enquanto persista o conflito na Colômbia, estude-se a possibilidade por parte do Congresso da República de aprovar uma Lei de Troca Permanente, que facilite resolver essa situação, evitando assim o sofrimento permanente dos cativos que encontram-se nessa situação. Mas o governo interpôs vários motivos, que não são mais que pretextos. Por exemplo, que não está na Constituição, que não é legal. Mas nós sabemos que se não é legal, pode-se apresentar um Projeto de Lei. Também, se o problema remete-se ao fato de que não está dentro dos marcos constitucionais, bom, está na faculdade deles aprovar um projeto de ato legislativo, apresentar um projeto de ato legislativo que permita a aprovação de uma medida desta natureza com caráter constitucional. Mas eles negaram-se. Por outro lado, o governo -sobretudo o governo de Uribe- acredita que não deve realizar um intercâmbio humanitário conosco, porque isso pode nos dar de fato um status de força beligerante. Disse que não faria uma troca de prisioneiros com uma organização que considera terrorista. Mais terrorista que esse governo da oligarquia na Colômbia não existe. Mais terrorista e violenta que essa oligarquia santanderista na Colômbia não existe em nosso continente. Devemos recordar aqui que a história da Colômbia tem sido uma história violenta, propiciada pelos que estão no poder; que na década de 50, depois do assassinato do grande caudilho popular, liberal, Jorge Eliécer Gaitán, a oligarquia liberal-conservadora propiciou o enfrentamento civil, no qual morreram ao redor de trezentos mil cidadãos, em uma guerra sem regras, com uma violência transbordante, na qual decapitavam as pessoas, abriam as barrigas das pessoas, torturava-se, incendiavam-se as casas, destruíam-se as plantações, exercia-se o terror no campo, o que produziu um grande deslocamento das populações desde então. Essa foi a prática desta oligarquia colombiana: a violência. Foi a prática cotidiana desta oligarquia colombiana. Quando as FARC, no marco das negociações de paz com o governo de Belisario Betancur, lançaram um movimento político chamado União Patriótica, que foi praticamente exterminado a balas pelas oligarquias, pelo exército e seus grupos para-militares, cerca de 5 mil militantes e dirigentes da União Patriótica foram assassinados. Essa é uma oligarquia intolerante e intransigente, que não permite a oposição política. O opositor político na Colômbia é simplesmente assassinado ou é submetido a pressões que o obrigam a sair do país ou a deslocar-se para outra região. É uma situação grave, muito terrível. Mas aqueles que hoje nos dão o qualificativo de “terroristas” são os verdadeiros terroristas. Estamos numa tarefa muito grande de contatos com as distintas organizações políticas e sociais do país, para ver como construímos uma alternativa, uma alternativa política que nos permita sair dessa noite escura. Queremos construir um novo país. Um país onde haja a verdadeira democracia, um país em que o soberano seja o povo, um país cujos ramos do poder público sejam eleitos fundamentalmente pelo povo, um país que assuma como um fato da vida política a revocatória do mandato, por exemplo, um país cujas instituições jurídicas desistam desse sistema penal acusatório copiado dos países do norte, do império fundamentalmente, um país sem corrupção, requeremos um país sem política econômica neoliberal, que termine com essa situação de injustiça dentro do povo, essa legislação trabalhista que está nos matando, que está matando os assalariados de fome e produzindo grandes lucros para as empresas e os investidores internacionais na Colômbia. Queremos, igualmente, analisar e buscar a exploração racional dos recursos naturais, tendo em conta que nós, colombianos, somos os proprietários das riquezas naturais, buscamos que as empresas transnacionais não levem daqui a “parte do leão”, que tenhamos recursos suficientes para impulsionar nosso desenvolvimento, para dignificar o homem e a mulher, para fazer justiça social. Igualmente, propendemos por, e isso é muito importante, conformar um novo exército. Um exército com outra mentalidade, nós dizemos que com uma doutrina bolivariana. Bolívar formou o exército no amor ao povo e no ódio à tirania. Queremos isso. Um exército que esteja em função de defender fundamentalmente as garantias sociais, não apenas a defesa das fronteiras, que é importante e deve ser feita, mas a tarefa e preocupação principal sejam a defesa das garantias sociais. Na política internacional trabalharemos com a bandeira da integração de nossos povos, como foi a luta do nosso Libertador, Simón Bolívar. Trabalharemos pela Pátria Grande. E trabalharemos pelo Socialismo. Buscaremos a unidade de nossos povos em torno de nossos próceres, de nossos heróis da liberdade, em torno de Simón Bolívar e dos heróis e próceres de cada país, para juntos resistirmos à investida da recolonização neoliberal do império. Nós não queremos que a Colômbia seja convertida em cabeça de praia para o assalto neoliberal ao continente. Também no campo da política internacional, devemos lutar pela identidade latino-americana, pois somos povos irmãos. Isso para desvirtuar toda uma argumentação que é parte de uma campanha da mídia do governo da Colômbia e do Estado, que é, em si, um Estado com políticas terroristas. Também interpôs, o senhor Uribe, alguns obstáculos irremovíveis para impedir que cheguemos a um acordo de Intercâmbio de Prisioneiros. Esses obstáculos irremovíveis são: não desmilitariza um território para que a guerrilha possa ter certeza de segurança para acordar com o governo os termos do Intercâmbio Humanitário.


IN - No Brasil conhece-se hoje uma determinada quantidade de prisioneiros de guerra que as FARC conseguiram obter em combate, nas ações, mas não se fala de quantos prisioneiros das FARC, do povo, que alçou-se contra o governo existem nas prisões colombianas.

IM - Sim, nos últimos anos as FARC capturaram em combate cerca de 500 militares. Capturados em combate. Prisioneiros de Guerra. Viemos libertando-os. Um primeiro grupo foi libertado através de um Acordo Humanitário, assinado com o governo de Andrés Pastrana. Nesse Acordo Humanitário, ambas as partes nos comprometemos a libertar pessoas doentes. As FARC libertaram 47 militares e policiais. O governo, em um gesto de pouca reciprocidade, devolveu-nos apenas 13. Não interpusemos nenhuma dificuldade. Estávamos interessados em fazer esse Intercâmbio Humanitário. Imediatamente depois, como um gesto de vontade política e de humanidade, um gesto unilateral, libertamos sem nenhuma contrapartida 305 prisioneiros de guerra. Pastrana não atuou à mesma altura, não houve um só guerrilheiro libertado pelo governo da Colômbia diante desse gesto unilateral das FARC. Hoje nós reclamamos a liberdade de cerca de 500 guerrilheiros presos em distintas partes do país, fundamentalmente em Prisões de Segurança Máxima, construídas ultimamente com toda a assessoria dos carcereiros dos EUA, os carcereiros de Abu-Graib e de Guantánamo, onde violam-se todos os direitos humanos. Colocaríamos em liberdade mais ou menos 45 prisioneiros de guerra que estão ainda em nosso poder, todos eles oficiais e sub-oficiais, e alguns dirigentes políticos do país que estiveram comprometidos com a guerra, com leis que apontam contra o povo e para reforçar as medidas de guerra do governo. Queria, então, continuar dizendo-lhes, que existe esse primeiro obstáculo irremovível do sr.Uribe, não desmilitarizar Pradera e Florida, que são dois municípios da Colômbia escolhidos quase que ao azar, depois da negativa do governo em desmilitarizar San Vicente del Caguán e Cartagena del Chairá. O governo dizia, que isso significaria a suspensão do Plano Patriota e que haviam determinado derrotar militarmente a guerrilha, algo que é impossível. Para facilitar as coisas, decidimos trocar de proposta. Escolhemos dois municípios localizados a mais de 500km de distância do teatro central das operações do Plano Patriota, e sugerimos Pradera e Florida, no estado de El Valle. Essa é uma guerra que tem profundas raízes políticas, econômicas e sociais, a rebeldia popular na Colômbia não será exterminada a tiros e balaços, nem com as bombas, as metralhadoras e a aviação. Isso deveria ser solucionado falando, conversando. Nós estamos lutando pela paz, nosso objetivo é a paz.


IN - Com a presença recente de 7 países na entrega das duas prisioneiras feita pelas FARC, em termos do reconhecimento das FARC como força beligerante, como tem avançado esse processo?

IM - De fato nós somos força beligerante. Se olharmos os protocolos, podemos dizer que somos uma força beligerante. Temos um comando unificado, há subordinação de todas as FARC ao Estado Maior Central e seu Secretariado, somos uma organização que porta armas ostensivamente, em todo esse processo de paz o mundo pôde dar-se conta de que somos uma organização armada, que também portamos uniformes, o que é um dos requisitos para ser considerado força beligerante, também pensamos o seguinte: que de fato o somos e, como dizem alguns companheiros, de direito também, porque já assinamos acordos com o governo da Colômbia, por exemplo, com o governo de Belisario Betancur, assinamos um Acordo de Paz que a oligarquia colombiana não cumpriu, que chamou-se acordo de “La Uribe”, não foi cumprido, e está estampada a assinatura do presidente e de alguns ministros, e as assinaturas dos integrantes do Secretariado Nacional das FARC dessa época. Há outros documentos que assinamos com governos posteriores, por exemplo, com o governo de César Gaviria Trujillo, com o qual mantivemos negociações para buscar uma solução diplomática para o conflito social e armado que vive a Colômbia, dialogamos em duas ocasiões na cidade de Caracas, e depois trasladamos esse diálogo ao México, a Tlaxcala, mais precisamente. Nessa última etapa, chegamos a acordos com o governo Pastrana, com quem acordamos uma Agenda Comum de Discussão na mesa de San Vicente del Caguán, e há a assinatura das duas partes. Nós somos uma parte na contenda. É diferente que o governo empenhe-se em não reconhecer-nos. Mas essa situação equivale a enterrar a cabeça na areia, a desconhecer uma realidade que não pode desconhecer, e Uribe pretende fazer isso. O outro obstáculo irremovível: é que os guerrilheiros libertados em um acordo de intercâmbio, segundo Uribe, não poderiam de maneira alguma regressar à montanha. Isso não seria, então, intercâmbio. Em nenhuma parte do mundo isso é intercâmbio. Para que haja intercâmbio, como diz Manuel Marulanda Vélez, nosso Comandante-em-Chefe, deve-se dar e receber. Para que configure-se o intercâmbio, se não, não há intercâmbio. Apenas Uribe pensa essa loucura. E a complementa dizendo, por exemplo, que os guerrilheiros libertados em um possível acordo deveriam ser desterrados da Colômbia, transladados a um país de ultra-mar, como a França, quando nossa legislação penal não tem a figura do Desterro. Realmente, Uribe é o inimigo público número 1 do Intercâmbio Humanitário na Colômbia. Nós requeremos, necessitamos do apoio dos povos, do apoio dos governos, para obrigar Uribe a sentar-se na mesa de negociações com as FARC e pactuar esse Acordo Humanitário. Ele está empenhado na loucura do resgate militar, do resgate a sangue e fogo dos prisioneiros, o que é uma irresponsabilidade, pois qualquer tentativa de resgate militar que tenha um desenlace funesto, fatal, seria então responsabilidade exclusiva do governo do senhor Uribe. Se Uribe tivesse desmilitarizado Pradera e Florida, poderíamos assegurar ao mundo que há mais de cinco anos teríamos assinado esse Acordo e os prisioneiros, tanto os que estão nas montanhas como os que estão nas prisões do regime dos EUA, já estariam em suas casas, em seus lares, desfrutando da liberdade, mas isso não foi possível devido à obstinação do presidente Uribe.


IN - O Comandante Marulanda chamou, em nota oficial, a começar um processo de uma fase mais atuante da guerrilha rumo à ofensiva final. Que pode dizer-nos disso?

IM - Só posso dizer que com o Plano Patriota, que empregou tecnologias militares de ponta provenientes dos Estados Unidos ou fornecidas pelo governo dos Estados Unidos, com novas modalidades do deslocamento de forças pelo exército da Colômbia, como o avanço em massa com grande poder de fogo, forjou um Guerrilheiro de Novo Tipo, dizemos o Guerrilheiro da ofensiva final. Esse guerrilheiro que surgiu sob o fogo do Plano Patriota, das tecnologias militares de ponta do governo dos Estados Unidos, das grandes manobras de deslocamento de tropas do exército colombiano, é um guerrilheiro que praticamente foi forjado no combate e está pronto para a ação militar em outros níveis. Por isso dizemos que forjou-se, sob o fogo do Plano Patriota, o Guerrilheiro da Ofensiva Final. Um guerrilheiro que não deterá-se diante do fogo massivo e da tecnologia, que marchará com passo firme ao encontro do povo insurreto nas ruas. Esse é o temor dessa oligarquia colombiana, esse é o temor do governo dos Estados Unidos, temem uma guerrilha bolivariana, temem fundamentalmente Bolívar, porque Bolívar está regressando neste século na luta dos povos, podemos dizer que já está despontando a nova aurora. Eles não querem uma explosão social da Colômbia com uma guerrilha bolivariana forte, uma guerrilha bolivariana experimentada em mil combates.


IN - Queremos agradecer ao Comandante Iván Márquez, do Secretariado do Estado Maior Geral e Central das FARC, e finalizar com seu comentário para o povo brasileiro, de que a guerrilha não pensa apenas na luta e no momento, mas que toda essa luta tem também uma poesia, e essa poesia está em cada lugar onde a guerrilha tem seu ponto central. Eu pergunto, comandante, por que a Serra? Por que guerrilha na Serra?

IM - Porque, como dizia Martí, “o arroio da serra me compraz mais que o mar”. Tudo isso é poesia. A selva é poesia. Nesses dias, sairá à luz pública um livro de poesia que intitulado Versos Insurgentes e reúne a poesia de guerrilheiros das FARC, da FMLN, do MRTA e das FALN venezuelanas, onde plasma-se isso que estou dizendo. No final, no prólogo, que me correspondeu fazer, digo que nós nos inspiramos muito em um poeta que chama-se o poeta Bolívar, e ao final desse prólogo, faz-se uma transcrição dessa poesia extraordinária e admirável do Libertador Simón Bolívar, que ele mesmo denominou “Meu delírio sobre o Chimborazo”, onde o personagem central é a Colômbia. A Colômbia como categoria que integra povos; a Colômbia que une as nações para conformar um pólo de poder que possa contra-arrestar, resistir ao predomínio político do governo dos Estados Unidos. Por aí também dizemos: o quê é a vida sem causa e sem bandeiras? Sem o desafio aos impérios opressores, sem sentir o fogo de suas explosões, selva adentro? Não teria sentido a vida. E atenção, pois tudo isso é poesia, a luta é poesia.


IN - Que mensagem você deixa sobre esse encontro com Hugo Chávez? Que mensagem deixa para um homem que hoje no Brasil representa nossa luta em termos intelectuais e que sempre esteve ao lado da luta da guerrilha colombiana e das FARC, nosso grande arquiteto, Oscar Niemeyer, que cumpriu 100 anos de idade e segue com seu trabalho e seu apoio à luta pela unidade na América Latina?

IM - Nosso encontro com o Presidente da República Bolivariana da Venezuela, Hugo Chávez, constituiu para as FARC uma grande honra, para nós foi algo transcendental, extraordinário, poder intercambiar com o mais brilhante oficial de Bolívar, que regressa nesse século. Dissemos em alguma ocasião que é o mais resplandecente de todos eles, nesse século. Isso é Chávez. E também Chávez é um semeador de consciências, como disse Fidel. Chávez acendeu novamente a luz da esperança em todos os povos do continente. Isso é muito importante na luta dos povos, pois nos insufla força moral, fogo interior para afrontar essa dura luta por buscar um mundo distinto para os povos da terra, para os povos da Nossa América, para os pobres da terra, como diz Martí em seus “Versos Sencillos”. Com Chávez falamos, fundamentalmente, em grande parte sobre a paz. Chávez é um homem que, como dissemos, palpita pela paz da Colômbia, e é um homem que está lutando pela redenção dos povos da Nossa América, dos pobres da Nossa América. Estivemos analisando o problema da guerra na Colômbia. 43 anos é algo que preocupa o Presidente Chávez, que é um homem da paz. As FARC, desde que alçaram-se em armas, alçaram-se pela paz, buscando a paz. Queremos chegar ao poder para construir a paz, essa paz surgida da justiça social, surgida da dignidade do povo, surgida da democracia verdadeira, surgida do Acordo Nacional de todas as forças que anseiam por uma mudança social para este país. Gostaríamos de chegar a esse momento. Com o governo Uribe será muito difícil, pois Uribe não foi programado pelos gringos nem para o Intercâmbio Humanitário, nem para a paz. O mundo já está consciente dessa situação. Mas estamos buscando uma alternativa distinta para a Colômbia, uma alternativa política de mudança, e estamos conversando nesse sentido com as lideranças populares, as lideranças políticas, buscando articular uma nova proposta política para a Colômbia em torno de bandeiras. Nós sugerimos, por exemplo, a Plataforma Bolivariana pela Nova Colômbia. Há muitos dirigentes políticos, dirigentes populares da Colômbia que manifestaram seu total acordo com as propostas que fazemos nessa Plataforma Bolivariana pela Nova Colômbia. Agora, se é possível construir essa alternativa política, e se existem as garantias necessárias, com certeza essa alternativa política, essa opção política, esse movimento político que se forme, sairá à praça publica, buscando o apoio do povo, nas praças públicas participando nas eleições. Queremos que isso aconteça, e que chegue ao poder em 2010 um governo com mentalidade patriótica. Eu diria, em nome das FARC, que Oscar Niemeyer é um dos imprescindíveis, um revolucionário de uma vida inteira, que acompanha o povo do Brasil em suas lutas, que acompanha nossos irmãos das favelas, nossos irmãos sem-terra, sem-teto, nossos irmãos do Brasil que estão sendo castigados pela política neoliberal. Niemeyer pode ser hoje um daqueles comandantes da Coluna Invencível, da Coluna Prestes, em busca de um futuro melhor para o povo brasileiro.

 

Aluisio Bevilaqua