Circo do Mundo leva ao picadeiro a dura vida dos mineiros chilenos

No dia 1° de abril o giro do El Circo del Mundo - Chile - começou no Brasil a apresentação do espetáculo Destinos Bajo Tierra (Destinos Embaixo da Terra), na Praça Onze, no bairro Cidade Nova (centro do Rio de Janeiro), no Centro de Atividades Socioculturais do Programa Social Crescer e Viver. O público, formado por adultos e crianças de todas as idades, em sua maioria da comunidade, teve a oportunidade de entrar em contato com a difícil realidade dos trabalhadores mineiros, tão explorados e submetidos a arriscadas condições de trabalho.

Circo do Mundo leva ao picadeiro a dura vida dos mineiros chilenos


No dia 1° de abril o giro do El Circo del Mundo - Chile - começou no Brasil a apresentação do espetáculo Destinos Bajo Tierra (Destinos Embaixo da Terra), na Praça Onze, no bairro Cidade Nova (centro do Rio de Janeiro), no Centro de Atividades Socioculturais do Programa Social Crescer e Viver. O público, formado por adultos e crianças de todas as idades, em sua maioria da comunidade, teve a oportunidade de entrar em contato com a difícil realidade dos trabalhadores mineiros, tão explorados e submetidos a arriscadas condições de trabalho. O Jornal INVERTA entrevistou o diretor do espetáculo, Bartolomé Silva, que contou sobre a história do El Circo del Mundo e também sobre a importância dos mineiros para a história do seu país.


IN - Você poderia falar sobre o Circo do Mundo, sua proposta e história?

BS - O Circo do Mundo começa como uma aventura de trabalho de artistas que vão conformando esta coisa que hoje em dia já é um fenômeno, que é a arte nas transformações sociais, a arte na incidência social e cultural dos marginados. O início foi uma aventura junto ao Circo du Soleil, que hoje está em 23 cidades do mundo e o Chile está incluído nessa rede de formação de formadores e também na rede Circo do Mundo, assim como o Brasil. E o que pudemos ver é que as artes incidem no processo educativo e de transformação entre os jovens e encontramos um instrumento muito importante que foi o circo. E você pode perguntar, por que o circo? Em primeiro lugar, no nosso país o circo tem um caráter popular e está nos bairros mais pobres ou pode estar nos lugares mais culturais do país. E tem esta capacidade de unir os que têm jóias e os que nada têm. É uma arte de conceito popular e isso nos faz sentir que é um tipo de arte que pode ser usada para ascender às pessoas rapidamente. Quando começamos no Chile, íamos aos bairros pobres, como as favelas, e perguntávamos: você vai ao teatro? E a resposta era: um pouquinho. Vai ao cinema? Não. Dança? Nada. E ao circo? E a resposta era positiva. Existe um referente cultural. Segundo, a técnica do circo tem elementos que são vitais para trabalhar com pessoas com dificuldades. Os riscos, o risco das ruas, o risco descontrolado, o risco da violência se modificam pelo risco da altura, do controle corporal e o risco da técnica circense. Elementos fundamentais para o processo de entrada de um jovem ou uma criança para entender a arte desde o ponto de vista do corpo. O circo não é como a arte teatral, analítica, o circo entra pelo corpo. E através do corpo fala, e através do corpo começa. Esses são conceitos básicos que utilizamos para formar essa grande proposta consolidada. No Chile, o Circo do Mundo tem um programa social com 7 projetos em favelas e bairros com crianças e jovens em formação, com creches, com crianças de cinco anos, mulheres... Tem um programa, também, de formação acadêmica, porque o jovem que participou do Circo do Mundo por 4 ou 5 anos em formação, nos pergunte depois se ele, apesar de não ter recursos, pode ser artista. E nós lhe dizemos que sim, que tem uma oportunidade para ser artista. Porque a arte que não está somente para a elite, mas sim para todas as pessoas, todos temos capacidades para nos desenvolver na arte. Temos outra área, que é a de geração de recursos e de produção, onde fazemos nossos espetáculos e já criamos três espetáculos. Hoje estamos com esse espetáculo, que se chama Sub Zirko, porque existe uma literatura no Chile que se chama Sub-Terra, que fala sobre os mineiros, então nós decidimos fazer Sub Zirko: destinos embaixo da terra. É um relatório sobre os trabalhadores mineiros, especialmente do Chile, um país muito mineiro, que tem cobre, e onde há uma história não somente nossa, mas de todos estes trabalhadores mineiros latino-americanos. Além disso, no Chile, celebramos os cem anos da Cantata de Santa Maria de Iquique, uma homenagem aos operários mineiros fuzilados no Chile. E os jovens propuseram usar o tema da Cantata de Santa Maria, não de evocá-la folcloricamente, mas dando-lhe uma estética mais moderna, resgatando o valor do trabalho debaixo da terra, do trabalho dos mineiros de toda a América Latina. E este contexto para nós é muito interessante, pois não somente os jovens aprendem uma técnica, mas propõem uma linguagem de reconhecimento de sua própria história e isso vai abrindo consciência de cidadania e de participação política para se reencontrar com as suas origens e com a luta social de uma forma estética, bela e com conteúdo. Porque atualmente no Chile os jovens não têm participação política com os partidos e não vão buscar um partido e sim vão buscar a arte para se expressar, para sentir que estão dizendo e fazendo algo que gostam e como não crêem e não valorizam a política tradicional, usam o circo para isso. E isso nos permite uma fortaleza, não somente física, que é a arte do circo por si só, mas também nos permite uma fortaleza mental, de pensamento, de expressão e de cidadania. Por isso fazemos um circo social. Por isso o conceito de circo social é distinto de um circo comercial e tradicional, é aquele que propõe em cena um discurso social e cultural com o jovem.


IN - Quantas pessoas trabalham no circo atualmente?

BS - Neste espetáculo são seis atores e dois diretores. Estamos fazendo um giro, logo iremos a Buenos Aires (Argentina) e depois a Calí (Colômbia). Um técnico de iluminação e som e mais dois técnicos de técnicas circenses.


IN - Como vocês pensam a integração da América Latina e as transformações e mudanças na nossa região?

BS - A arte é um veículo. A arte e a educação. Ela permite que uma pessoa desenvolva uma expressão de si própria, o autoreconhecimento, a autovalorização, o autocontrole, etc. A arte em todas as suas esferas é uma forma de autocontrole, de autodisciplina e de autovalorização. Quanto você pinta um quadro e o olha, pensa que ficou maravilhoso, você se autovaloriza. Quando, na lona, o público aplaude é também uma forma de autovalorização em uma sociedade que não valoriza ao indivíduo e os poderes são tão compactos e voltados para si próprios que não vêem o que está ao redor, não vêem a cidadania como participadora e nem como sujeito. Estou certo de que as transformações sociais podem vir através da arte como um veículo, de transformação da educação, uma vez que temos que fazer um trabalho forte em comunicação, pois temos que ter um objetivo, que é criar agentes comunicadores.


IN - Qual é o objetivo para o futuro?

BS - Temos que entrar nos sistemas comunicativos e dizer que nosso trabalho é de qualidade, que isto nos permite romper os obstáculos e dizer estamos aqui falando e promovendo a arte. E nós perguntamos qual é a diferença? Que este é um processo que vem de baixo, com qualidade.


IN - Você poderia falar sobre a questão dos mineiros no Chile?

BS - Nós temos que discutir esta questão porque hoje no Chile é um tema importante. Temos uma empresa mineira do Estado, mas as outras são concessões usadas por empresas dos Estados Unidos, Canadá, etc. Os mineiros no Chile sempre foram uma bandeira de luta social, de direitos sociais. Nesse espetáculo, refletimos essa realidade também de uma forma muito romântica, do mineiro que luta por seu amor, que está debaixo da terra e não pode subir, pois pode morrer, a morte é parte do processo do mineiro. Mas quando ligamos esteticamente a morte com a esperança fazemos algo importante. É como trabalhar com uma criança de rua, que não tem nenhuma esperança nesse mundo em que vivemos. Mas sim o podemos fazer com um nariz de palhaço.

Camila Rocha