Liderança Indígena sofre perseguição

Nesta edição o Inverta publica entrevista com o cacique Eliseu Lopes, da aldeia Kurussú Ambá, no município de Coronel Sapucaia.

Liderança Indígena sofre perseguição


Nesta edição o Inverta publica entrevista com o cacique Eliseu Lopes, da aldeia Kurussú Ambá, no município de Coronel Sapucaia.

Eliseu, que pertence ao povo Guarani-Kaiowá, teve sua prisão decretada pela justiça burguesa. Pela mesma acusação outras lideranças de seu povo já estão presas. Ele fala sobre a cilada armada pelos fazendeiros para incriminar injustamente as lideranças que lutam pela retomada de suas terras.

Os Guaranis-Kaiowá vêm sofrendo diversos ataques por parte dos fazendeiros, só em 2007 28 lideranças indígenas foram assassinadas no Estado do Mato Grosso do Sul por lutarem por suas terras.


IN - Como está a questão da terra do povo Guarani-Kaiowá?

EL - Somos de uma área reivindicada de 18.000 hectares, essa área é onde estão enterrados nossos antepassados. Lutamos para ter essa terra de volta. Isso é fundamental para que nossas famílias, nossa comunidade sintam a liberdade. Estamos acampados na beira da estrada. Lá somos 47 famílias, mais de 300 pessoas, muitas crianças.


IN - Há quanto tempo vocês estão acampados?

EL - Desde janeiro de 2007. Nessa terra, em janeiro, mataram Julite Lopes, de uma dessas famílias. Julite era uma rezadeira de 73 anos que conhecia bem a área reivindicada. Ela sabia onde foram enterrados os pais e os avós dela. E ela foi assassinada por fazendeiros e seus capangas. Foi a primeira que nós perdemos, nossa liderança religiosa. E depois, em julho, mataram nosso líder, Ortiz Lopes, dentro da casa dele. E mais, os fazendeiros fizeram uma armação para prender nossas outras lideranças, que pertencem à nossa comunidade. Francisco Fernandes e mais três pessoas com ele estão presas na região de Amambá por conta da luta pela terra. Foi armada uma cilada, onde alguns fazendeiros emprestaram um trator a eles e logo os denunciaram por roubo. Eles foram condenados a 17 anos de prisão.


IN - O que aconteceu com os fazendeiros que cometeram os assassinatos?

EL - Nenhum dos fazendeiros foi punido. Até agora nenhum fazendeiro, nenhum capanga foi punido ou preso. E as nossas lideranças estão sendo presas pela luta da terra, condenados a 17 anos.


IN - Quantos Guaranis estão presos?

EL - Provavelmente mais de 700 Guaranis no total estão presos. O maior número de Guaranis-Kaiowá estão presos aqui, no Mato Grosso do Sul. Muitos dizem que defendem os índios, mas não defendem na prática. Principalmente a FUNAI, da nossa região. Estão todos envolvidos com os fazendeiros. Não estão resolvendo nossos problemas. A imprensa da região, polícia civil, polícia militar, a FUNAI, todos envolvidos. Então não tem para onde a gente correr, reclamar a nossa dor, fazer depoimentos. Essa é a maior dificuldade nesta fase da nossa luta.


Guaranis dançandoIN - Como você acha que a MOPIC pode ajudar vocês a enfrentar esses problemas, principalmente de morte e de prisões?

EL - A MOPIC pela primeira vez nos convidou a participar. É muito importante que ela nós ajude a defender cada vez mais a nossa terra. Juntar os documentos, os recursos e a mobilização que precisamos para retomar a nossa terra. Estamos pedindo esse apoio à MOPIC, que nos convidou várias vezes para reuniões, para fazer denúncias, e a gente agradece muito essa ajuda. Apesar de terem várias aldeias Guarani-Kaiowá na nossa região, a nossa comunidade foi a escolhida para participar da Assembléia da MOPIC. Ficamos muito fortalecidos por esse evento, fortalece nossa luta pela terra. Nós queremos reforçar a organização da Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado, para que seja requerido para vários órgãos a libertação de nossos presos, nossas lideranças.


IN - Como está a denúncia junto às organizações de Direitos Humanos?

EL - A única denúncia que fizemos, por causa da terra, das prisões, fizemos aqui em Campo Grande para a comissão de Direitos Humanos da OAB e até uma denúncia pedindo apoio para deputados em assembléia, principalmente para alguns deputados que estão dando apoio.


IN - Quais são as formas de resistência que vocês encontraram até agora para manter sua cultura viva?

EL - Estamos preservando nossa cultura. Não a estamos perdendo. Ensinando às crianças, aos professores. Temos nossa alimentação tradicional, nossos remédios tradicionais, nossos rituais. Isso é muito importante e fortalece nossa luta.


IN - Onde vocês estavam antes de acamparem na BR?

EL - Na verdade, a comunidade de Kurussú Ambá estava espalhada, porque na região de Amambá e Dourados existem várias aldeias. Agora nos juntamos novamente para que retornemos a nossa aldeia que nos pertence. Estamos acampados na BR esperando que o governo e a justiça devolvam a nossa terra. Chega de matar nossas lideranças, chega de derramamento de sangue. Enquanto os poderosos estão enriquecendo a custos do sangue das nossas lideranças. Então pedimos o apoio da MOPIC para pressionar vários órgãos para que nossa situação se resolva, encaminhando um documento para o governo federal. E mais urgente precisamos que a FUNAI envie o grupo de trabalho para fazer um levantamento e demarcar a terra que nos pertence.


IN - A terra de vocês está em uma região de fronteira?

EL - A nossa terra está na fronteira com o Paraguai.


IN - Como é a relação de vocês na fronteira, já que estabelecer um limite entre um país e outro é uma criação dos grupos de poder de cada país que querem defender seu interesse, mas para os povos indígenas, que sempre passaram de um lado para o outro dessa fronteira não existe. Como é a relação de vocês com os outros indígenas que estão do outro lado?

EL - No momento estamos fazendo uma aliança de todo povo Guarani. Inclusive temos uma reunião que aconteceu duas vezes na nossa região, que a gente chama de Grande Povo Guarani. Então juntamos os Guaranis da Argentina, Bolívia, Paraguai e de vários estados do Brasil. Fazemos parcerias, porque para nós, Guaranis-Kaiowá, não tem a divisão. Porque quem divide os índios são os não-índios. Para nós não tem Paraguai, não tem Bolívia, Argentina, Mato Grosso do Sul, porque nossa terra é uma só. Estamos fazendo essa reunião anualmente com professores, lideranças, com a comunidade, chamando vários guaranis.


IN - Tem mais alguma questão que você gostaria de colocar, alguma denúncia?

EL - Eu gostaria de deixar a denúncia para que seja punido quem matou Juriti Lopes e Ortiz Lopes. Agora recentemente, semanas antes do encontro da MOPIC, os fazendeiros balearam mais 4 pessoas nossas, entre eles uma mulher, que foi o caso mais grave, a gente conhece quem são, mas até agora não foram punidos. Temos determinação para lutar, prova disso é que um dos quatro baleados participou da Assembléia da MOPIC.


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