Memória da dor A Operação Condor no Brasil (1973/1985)

A idéia de realizar uma Pesquisa sobre a Operação Condor surgiu quando conheci o Professor e ex-preso político paraguaio Martim Almada, por ocasião da entrega da Medalha Chico Mendes de Resistência, no ano de 2002. Ele, como meu pai (então já falecido), era um dos agraciados.

Memória da dor

A Operação Condor no Brasil (1973/1985)


A idéia de realizar uma Pesquisa sobre a Operação Condor surgiu quando conheci o Professor e ex-preso político paraguaio Martim Almada, por ocasião da entrega da Medalha Chico Mendes de Resistência, no ano de 2002. Ele, como meu pai (então já falecido), era um dos agraciados.

Já sabia que ele havia descoberto toneladas de documentos numa Delegacia do Paraguai, que comprovavam a colaboração dos órgãos de Segurança do Cone Sul no seqüestro e extermínio de opositores das ditaduras de pelo menos quatro países  do subcontinente. Conversamos muito e começamos a trocar informações.
Para mim, a descoberta não era surpresa, já que estava fazendo esse levantamento desde o seqüestro e extermínio de opositores das ditaduras de pelo menos quatro países do subcontinente. Conversamos muito e começamos a trocar informações.

Para mim, a descoberta não era surpresa, já que estava fazendo esse levantamento desde o seqüestro de meu pai, o major Joaquim Pires Cerveira, e de João Batista de Rita Pereda, em 1973, em Buenos Aires, numa operação conjunta dos órgãos de Segurança brasileiros e argentinos. E sabia que, em princípios de 1974, o resto dos companheiros da organização em que meu pai militava naquele momento – como Joel e Daniel Carvalho, Onofre Pinto e o jovem argentino Ruggia – tiveram o mesmo destino.

Durante o preparo de minha dissertação de mestrado (Luta Armada no Nordeste – PCR – 1966/1973), defendia na UFRN, consegui mais documentos que apontavam nessa direção, e que  embora não tivessem sido utilizados naquela pesquisa, apareceram no decorrer do estudo. Obtive também material testemunhal e jornalístico, que, somado ao meu acervo pessoal de quase 30 anos, apontavam um caminho. A história teimava em aparecer.

No princípio, o que me incomodava um pouco era que os jornalistas e pesquisadores da época (como o historiador norte-americano John Dinges, por exemplo) insistiam em que essa colaboração só tivera início a partir de 1975, e totalmente idealizada e tutelada pelos EUA.
Isso aguçou mais ainda minha curiosidade. Decidi, então, começar a pesquisa, utilizando o material pessoal, documental e testemunhal que havia acumulado e mais a contribuição do Professor Almada.

Prioritariamente, a pesquisa não tinha como objetivo enfocar o caso Cerveira e seus companheiros de organização e muito menos adquirir cunho memorialista. Porém, após dialogar com a bibliografia que foi surgindo dos pesquisadores da Operação Condor e de depoimentos, no Brasil e noutros países envolvidos, o caminho apontava para surpreendentes descobertas tais como: os casos Cerveira/Rita Pereda foram mais ou menos uma estréia bem sucedida ou o embrião que gestou a Operação Condor.

Claramente as ditaduras através desse braço terrorista que se tornou a Condor tinham uma certa autonomia no que se referia a aplicar técnicas aprendidas na Escola das Américas/EUA, onde muitos oficiais latino-americanos, brasileiros, inclusive, foram treinados pelos estadunidenses.

Já na minha qualificação da USP, procurei demonstrar isso para a Banca Examinadora, composta pelos Drs Antonio Rago, Osvaldo Coggiola e Marcos Silva.

Percebi que nessa primeira fase até o golpe do Chile (1973), a Condor deixava muitos rastros, provas e testemunhas. Pude concluir que, no momento em que a CIA e outras Agências americanas passaram a participar na operacionalização e execução do trabalho de extermínio, assumindo sua coordenação direta, a Condor  se refinou. Isso fez com que os casos pós-1975 passassem a ser de mais difícil comprovação.
Posso  afirmar com segurança que a idéia da Condor partiu dos órgãos de repressão brasileiros, e posteriormente foi aperfeiçoada pelos EUA, até desaparecer temporariamente nas selvas da Nicarágua no final da experiência sandinista.

Posso afirmar também, baseada em pesquisas e documentos, que o criou a Condor permanece, e só pede uma razão para ser reativado.
A tese em alguns momentos adquire com certeza uma dimensão memorialista, em função de não poder escapar do fato de que fui personagem desses fatos históricos que me propus analisar, mas procuro ir além disso.

O recorte temporal que me propus fazer encerra-se com essa tese, mas não com minhas pesquisas: Há muito ainda a ser desvendado não só por mim, como por colegas brasileiros e de outras nacionalidades. Os últimos escritos de Dinges, Stella Calloni, Patrice Mc Sherry e Almada seguem a mesma direção que foi colocada como hipótese desde o início dessa pesquisa.

Uma questão importante que este trabalho busca colocar é a tentativa de furar todos os bloqueios e conseguir uma entrevista com alguns dos participantes dos Órgãos de repressão que atuaram na Condor.

Consegui nesse sentido bastante coisa, inclusive uma entrevista com o Coronel Ustra, o Dr. Tibiriçá. Fiz até um comentário que julguei pertinente no último capítulo sobre o livro que Ustra escreveu. Sei que é perigoso, sofri  muitas ameaças e retaliações e até críticas, mas aconselho todo pesquisador a procurar ouvir  os diferentes lados envolvidos. O pesquisador tem que se expor para garimpar a verdade, e ainda há muita verdade a ser garimpada.

Casos mais recentes da Operação Condor que estão fora do meu recorte temporal não foram analisados nesta tese, mas são do meu conhecimento, até por ter tido militância com Direitos Humanos, sendo uma das fundadoras do GTNM e do CBA. Se fosse colocar todo material, vocês estariam lendo mais de mil páginas!
Acredito que no decorrer de minhas próximas pesquisas, já tenho material, vocês estariam lendo mais de mil páginas!

Acredito que no decorrer de minhas próximas pesquisas, já tenho material suficiente para partir para estudos com novo enfoque, novos personagens e nova temporalidade. Vou trabalhar com o Projeto Orvil. Meu orientador doará documentos que não utilizei em minhas pesquisas, para possibilitar que pesquisadores possam utilizar informações documentais que consegui, e, acredito, devam ser democratizadas.

Penso que atingi o objetivo que me propus, mesmo essa pesquisa tendo sido realizada se Bolsa.




Correio Brasiliense publica séria de reportagens sobre documentos que consegui



O Jornal Correio Brasilense publicou uma série de reportagens (iniciadas em 22 de julho de 2007} sobre documentos que conseguiu do CIEX como inéditos, embora  a maioria, ou eu diria até mais,  já conste da Tese defendida por mim  em 14 de maio de 2007. Mas considerei isso bom.

Embora nunca tenha pretendido cultuar a memória do meu pai,  sempre soube que a história  verdadeira apareceria, de uma forma ou de outra. Triste foi saber que esses fatos que eu conhecia todos, a repressão também conhecia, triste que não tenham sido seus ex-companheiros que tenham contado como os fatos se passaram, muitos dos quais nem estariam vivos ou teriam voltado para o Brasil  escrever livrinhos... se não fosse o suplício que meu pai e outros companheiros foram submetidos  sem entregar ninguém. Triste que a verdade tenha saído dos arquivos secretos do CIEX. O que importa, apesar de tudo é que a  luta continua!

“Até agora pouco se sabe da atuação do ex-coronel Joaquim Cerveira, relegado a um papel menor na memória da resistência armada. Ele é identificado como uma espécie de braço-direito de Brizola na Frente de Libertação Nacional, dissolvida em 1970, data de sua primeira prisão. Ele foi banido naquele ano, e depois disso passaria a integrar as filas do MR8, informação inédita, que se soma ao fato de que Cerveira chegou a ser eleito pelo regime cubano para liderar nova tentativa de uma guerrilha rural. De fato, os informes do Ciex dão conta de uma movimentação incessante de Cerveira, com colaboração da esposa Lourdes, na estruturação de uma ação contra o regime militar, especialmente a partir dos anos 70.
Cerveira é citado no Informe 483, de 8 de dezembro de 1970, tendo convencido o presidente cubano, Fidel Castro, a permitir que todos os brasileiros de Cuba fossem escoados para o Chile, onde se reuniriam com outros provenientes da Argélia. O plano de ataque incluiria levantamento de todos os quartéis de fronteira, do Acre até a Bolívia. “Já se encontraria em Cuba o levantamento da base da Marinha brasileira localizada em Corumbá”, informa. Também haveria levantamento sobre a vida privada do general Ernesto Geisel.
O informe 85, de 19 de abril de 1971, confirma como Cerveira se tornou importante para o regime de Cuba, “que não ajudou Jefferson por não confiar nele”. “Cerveira recebeu recursos financeiros e autorização para recrutar gente em Cuba”, relata. “Como é do conhecimento da comunidade, Cerveira tem sido apontado como o ‘lider militar’ escolhido pela DGI cubana para chefiar a guerrilha rural no Brasil. Nessa qualidade, receberia ‘assistência técnica’ de elementos cubanos – notadamente Fermin Ravello – e possivelmente de brasileiros treinados em Cuba – como Thalles Fleury. O círculo de Cerveira em Santiago é bastante fechado, não permitindo fácil infiltração”, avalia o Ciex.

Há vários informes com detalhes sobre atividades de Cerveira ao longo de 1972, inclusive a montagem de uma base em Arica. O informe 033/72 traz balanço geral dos movimentos subversivos no Chile e classifica, segundo sua força e capacidade de influência no Brasil, em primeiro o de Cerveira – constituído por elementos do MRT, FLN, Ex-Colina, VPR e Val-Palmares. O informe 657/72, mostra que o Ciex tinha o endereço de Cerveira em Santiago. A última referência a ele com vida está no informe 635, sobre encontro com Cāndido Aragão em Buenos Aires. Lá, Cerveira desapareceu após ser preso.”


Neusah Cerveira


Jonas
Jonas disse:
13/01/2011 17h31
Tem previsão de lançamento em alguma editora ou ja foi lançado. Gostaria de adquirir e não estou conseguindo achá-lo...
Obrigado!
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