Primeiro Bush, Agora o Papa e Depois?

Estamos na curva descendente da primeira década do século XXI e o continente latino americano, na contra-tendência do atual processo histórico, impulsionado pelo desespero das oligarquias financeiras em superar a crise geral do capitalismo, que voltou a assombrar o seu mundo dos sonhos, volta a se erguer pouco a pouco do longo período de genuflexão e escravidão ideológica em que esteve mergulhado.

Primeiro Bush, Agora o Papa e Depois?

(Peleando se aprende a cantar)

 

    Estamos na curva descendente da primeira década do século XXI e o continente latino americano, na contra-tendência do atual processo histórico, impulsionado pelo desespero das oligarquias financeiras em superar a crise geral do capitalismo, que voltou a assombrar o seu mundo dos sonhos, volta a se erguer pouco a pouco do longo período de genuflexão e escravidão ideológica em que esteve mergulhado. Naturalmente, para muitos que opinam sobre a história, este novo alvorecer latino é compreendido apenas como um fenômeno de curta duração que as injunções do projeto de globalização neoliberal (estratégia do imperialismo para superar a crise) deu lugar por suas contradições históricas, econômicas, políticas e militares. Sem dúvida, é possível se pensar assim considerando os ciclos políticos vivenciados por nossa América ao longo do século XX, onde ditaduras militares e oligárquicas se alternavam a períodos considerados de democracia política, combinados às conjunturas de luta pela hegemonia mundial, seja dentro do próprio sistema capitalista, seja entre sistemas, como ocorria até o final do século passado em que subsistia o sistema socialista, em sua plenitude, no Leste Europeu e URSS. Contudo, é preciso entender melhor o atual processo e saber distinguir o novo conteúdo histórico que aporta, naturalmente sem desconsiderar ou subestimar a capacidade de reação do imperialismo diante deste levante, no que considera seu quintal, ou de que ele possa atrapalhar os planos hegemônicos e de solução a crise do seu sistema.

    Posto isto, independente do atual fenômeno político ter aflorado pelos vãos ou rachaduras que o plano de globalização neoliberal criou ao ter que deslocar forças econômicas, políticas e militares para o Leste Europeu e Oriente Médio – processo de derrubamento do bloco socialista do Leste e da URSS e dos regimes nacionalistas no Iraque e Afeganistão – o importante aqui é registrar que ao contrário dos regimes políticos que aspiravam a independência econômica (nacionalismo) no pós-segunda guerra mundial, bem como na década de 60 do século passado, cujo grande esteio era a bipolarização provocada pela luta mundial entre sistemas (capitalismo versus socialismo), o fenômeno atual, da revolução bolivariana na Venezuela, a ascensão do MAS na Bolívia, a vitória de Rafael Correa no Equador e do retorno dos Sandinistas na Nicarágua – mais expressivos expoentes desta nova tendência histórica em nossa América –, ao contrário de se respaldarem na estrutura de contraponto ao capitalismo, a URSS; e, embora demonstrem vínculos com as idéias da revolução socialista, sua base de sustentação reside muito mais como resultado de um processo histórico de maturação dos povos nestes países, do que, digamos assim, do apelo revolucionário que tem estas idéias de forma conjuntural, dado o influxo da luta de classes. E se é assim, trata-se de uma base de maior consistência que os processos pretéritos. Pois, justamente num momento em que o imperialismo leva à derrocada a experiência socialista no Leste e na URSS, tritura todos os símbolos e valores que tal iniciativa histórica aporta a humanidade; quando a força do capital expressa em seu núcleo cerne – EUA – detém o maior poder bélico, de comunicação e financeiro, jamais visto na história – como diz Fidel Castro; justamente neste momento, os povos da América resolvem sair desta posição de genuflexão e insurgem-se contra este poder dantesco.

    Com efeito, trata-se de um fenômeno idílico e que a razão julga não poder explicar ou compreender. Aqui, somente uma explicação poderia retirar a tradução deste fato da narrativa meramente telúrica, fundamentada na filosofia milenarista do Império Inca para explicar o porque Cortéz, cerca de cinco séculos atrás, conseguiu com apenas 300 homens conquistar e iniciar a destruição da civilização que possuía um exército de 50 mil soldados. O “santo” Ratzinger disse na abertura da 5º Conferência Episcopal Latino-Americana e do Caribe: “O anúncio de Jesus e seu Evangelho não supôs, em nenhum momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi à imposição de uma cultura estrangeira (...)” “A utopia de voltar a dar vida às religiões pré-colombianas, separando-as de Cristo e da igreja universal, não seria um progresso, mas um retrocesso. Em realidade, seria uma involução até um atrasado momento histórico (...)”. Em síntese, não houve imposição, o que houve foi a sobreposição de uma “cultura mais evoluída” sobre uma “cultura mais atrasada”. Quer dizer, o milenarismo incaico era inferior ao milenarismo cristão! Portanto, eis o paradoxo do pensamento absoluto, ele não considera que a espada do Libertador cortou o nó górdico da mecânica deste pensamento, não pela utopia infantil, mas pela consciência calcada aos cérebros dos homens e mulheres que viveram o horror da escravidão e servidão aos impérios coloniais abençoados e ideologicamente dominados pela “santa madre igreja”. O movimento de independência nas Américas encontrou na dialética a base de apoio cultural que se enraizava no povo e sua utopia de liberdade, igualdade e justiça. E novamente aqui, pode-se encontrar o porque esta utopia milenarista para o mundo racionalista do capital não pode explicar a força destas idéias entrelaçadas às da revolução socialista, particularmente daquela cujo conteúdo expressou sua perfeita harmonia com esta herança fundamental das culturas pré-colombianas (usurpadas pela conquista colonial): a Revolução Cubana.

    É importante se ater a este tema, porque uma vez mais a roda da história gira em outro patamar para os povos de nossa América, já não é segredo para ninguém, em especial para o imperialismo, que o processo revolucionário no continente se passou a novo degrau de enraizamento nas massas pela fenda aberta pela estratégia de globalização neoliberal e que sua máquina ideológica já não é capaz de manter a situação anterior de genuflexão de nossos povos; que a cantilena do livre mercado, da democracia como valor universal, do fim da história não passam de letras mortas sem forças para manter a situação de resignação das massas diante do horror econômico e terror militar. Que o nativo, o negro e o europeu, que se compuseram numa nova população mestiça, em sua ampla maioria, longe estão de querer retornar às condições históricas em que imaginava o conquistador de hoje como amigo ou simplesmente a realização de uma profecia milenarista, mas seu opressor e explorador. Que os povos de Nossa América, atualmente, da cultura pré-colombiana extraem os valores do respeito, igualdade, sabedoria de viver em harmonia com a natureza sob relações sociais e econômicas de outro modo, que a própria igreja em seu início vaticinava como Nova Canaã. Mas Canaã não existe, disse Nilo Peçanha, com alguma lucidez em sua rasa idéia de socialismo. Frei Beto disse também: “o paraíso não existe”, numa defesa muito envergonhada do socialismo em Cuba. Mas Fidel, um materialista dialético e revolucionário disse o contrário ao afirmar em “Um Grano de Maíz”: “Lutar por uma utopia é em parte construí-la!”; Lênin, fundador da URSS e homem que comandou a revolução vitoriosa de outubro de 1917, contra o império russo, o imperialismo europeu e asiático e governo de socialismo de fachada (mencheviques e sociais revolucionários de Kerensky), disse também: “é possível sonhar, mas com a condição de acreditar neles e lutar por eles!”.

    A nova Santa Aliança neoliberal, da qual Ratzinger é mais um dos seus porta-vozes, qualificado como intelectual, mas que precisa ser um adjetivo adjetivado de reacionário, pois se não fosse assim não continuaria a repisar teses historicamente ultrapassadas, como condenar o aborto, exigir castidade, catequese e negar, ao contrário de João Paulo II, a contribuição do marxismo à humanidade com o rancor do nazista inconformado pela derrota imposta pelos soviéticos, como emblema a Bandeira Vermelha com a Foice e o Martelo, cravados no coração do III Reich. Seu discurso contra as culturas pré-colombianas e o marxismo, naturalmente tenta romper o elo que une as raízes mais profundas, em termos culturais, dos povos de nossa América em sua luta pela independência econômica, política e cultural com a luta pelo socialismo. É certo que o discurso do papa Bento poderá dificultar muito a ação dos grupos religiosos que atualmente combatem ao lado dos povos de Nossa América, mas até aqui não é novidade, a história da igreja é marcada por isso: Giordano Bruno, Copérnico, Galileu Galilei, Joana D`arc, Bartolomeu de Las Casas e tantos outros. Vemos, portanto, que o imperialismo inicia sua mobilização extensiva de forças para abortar mais uma vez este novo alvorecer das Américas. Primeiro Bush e sua proposta de recolonização neoliberal, agora o Ratzinger e sua proposta de nova evangelização, e depois “el Condor” voará novamente? Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e Daniel Ortega têm um destino histórico de marcharem ao lado da Revolução Cubana e seu comandante máximo Fidel Castro. Nossa América foi um grande aborto da igreja, pois a América católica e capitalista para existir teve que matar a América pré-colombiana, teve que matar a cultura africana e continua matando até hoje tudo que tente nascer fora de sua cultura arcaica e serviçal. Mas é momento de lutar e a palavra de ordem ressoa como “Canción para mi America”, de Daniel Viglietti, compositor uruguaio, imortalizada na voz de Violeta Parra:

        Dale tu mano al indio.
        Dale que te hará bien:
        Encontrarás el camino
        Como ayer yo lo encontré.
        Es el tiempo del cobre:
        Mestizo, grito y fusil.
        Si no se abren las puertas,
        El pueblo las sabe abrir.
        América está gritando
        Y el siglo se vuelve azul.
        Pampas, ríos y montañas
        Liberan su propia luz.
        La copla no quiere dueños.
        Patrones ¡no más mandar!
        La guitarra americana
        ¡Peleando aprendió a cantar!


Viva a luta revolucionária dos povos de nossa América!

Viva a Revolução Continental!

Viva a Revolução Brasileira!

Rio de Janeiro, 16 de Maio de 2007.

P.I. Bvilla pelo OC do PCML