Debate: Rompendo com o Trotskismo

Artigo publicado pelo Comitê Executivo da Corrente Leninista Internacional (CLI) na Revista “SOVIET”, Edição n. 6 – inverno 2000/2001. Traduzido por J. Safrany F.

Debate

Rompendo com o Trotskismo

Por: Corrente Leninista Internacional (CLI)
Comitê Executivo
Fonte: Revista “SOVIET” – edição n. 6 – inverno 2000/2001
Traduzido por:  J. Safrany F.



A Corrente Leninista Internacional foi fundada em agosto de 1996, depois de um longo processo seletivo, que culminou com o rompimento definitivo com o movimento trotskysta internacional. Meio século foi tempo suficiente para definir, de uma vez por todas, que o trotskysmo fracassou como alternativa à social-democracia bem como ao stalinismo. Essa alternativa não poderia mesmo ser levada em consideração pela simples razão de que, após o colapso da URSS e da chegada da era da globalização, nem a genuína social-democracia nem o stalinismo existiam mais. Portanto, era desnecessário criar uma alternativa competitiva em relação a ambos e sim uma nova liderança com um novo programa renascido das cinzas do passado.

Estamos conscientes do atraso para um tal balanço. Nossa declaração sobre o fracasso do trotskysmo, fazendo juz à história, é baseada em dois fatos: primeiro, a estratégia trotskysta se fundamentava no mito do papel decisivo da classe trabalhadora ocidental e, segundo, a compulsão em combater o stalinismo levou à decadência stalinófoba e a uma contaminação com uma dose letal de contra-revolucionarismo social-democrata.

Àqueles que se perderam na grande ilusão de um ressurgimento revolucionário miraculoso, no qual o proletariado fosse dar a volta por cima curando suas feridas, superando sua imaturidade que, finalmente, o levaria rapidamente à emergência de novos partidos revolucionários, nós respondemos que:

Uma sociedade podre como é a capitalista tende a reproduzir-se e fazer surgir partidos podres. Flores podem crescer do pântano, mas só quando pelo menos se coloca uma semente dela para tanto. É necessário plantar a semente do comunismo de novo na história humana sem se incomodar se a fertilidade da lama capitalista está em decadência. Um partido revolucionário, isto é, aquele capaz de conduzir a revolução, não aparece na história da mesma forma que uma criança, do ventre da mãe. Um partido revolucionário deve surgir como resultado de um longo processo de criatividade social e não como conseqüência natural, espontânea desse processo. Sua gênese é, antes de tudo, uma auto-criação, consciente. Esse partido “tem que romper” com a sociedade burguesa, de modo semelhante quando da constituição da própria sociedade humana, ou melhor, quando os humanóides romperam com a natureza, dando um enorme salto de qualidade em suas vidas, passando de submetidos a submetedores da mesma. O partido deve ser uma expressão consciente de um processo inconsciente. A questão não está em ficar contemplando o desenrolar da história, esperando pelo amadurecimento espontâneo da fruta para, então, colhê-la. A questão está em construir uma organização que seja capaz de enfrentar a história, a fim de prevenir que seu curso possa nos levar a atravessar uma fase de barbarismo sob domínio imperialista. Cuidar da fruta, desde seu florescimento, para evitar que seja atacada por parasitas ou contaminada, etc.

Aos antigos companheiros que fugiram da doutrina, como do Talmude, nós respondemos que:

Aqueles que desejarem manterem-se apartados, em tempos como os de hoje, estão condenados a ficar para trás, estão condenados a perder qualquer contato com a realidade assim como do próprio processo revolucionário vindouro. Para nós, o programa é apenas uma linha-mestra para a ação e o partido um instrumento para interferir no processo histórico turbulento e multi-social. Quando uma bússola está avariada ou não funcionando devidamente, ela deve ser, antes de mais nada, consertada, do contrário você certamente seguirá caminho errado ou tenderá a seguir a corrente dominante.

Já para aqueles camaradas que deram no pé, aterrorizados, e que não quiseram nos seguir por pensarem que estamos exagerando em nossas posições ou fora da realidade, dizemos o seguinte:

Devido à dramática demora para começarmos nossas tentativas de superação das dificuldades, nos vemos, sem compaixão, frente a frente com a missão de procurar entender e apontar os erros de nossos predecessores e os pontos em que teremos que melhor desenvolver o Marxismo a fim de defender seu caráter revolucionário. O Marxismo é uma ciência social, enquanto que o Leninismo é a arte da revolução social. Ambos são incompatíveis com a estagnação, a falta de mobilidade, falta de mudança, ambos carregam em seu bojo o recurso de seu próprio desenvolvimento (a dialética – N. T.) Seria muito estranho que uma doutrina dialético-materialista, que postula a transformação constante do sistema social e de sua superestrutura, uma doutrina que ostensivamente conceba tais mudanças, suas causas e conseqüências, seria estranho, repetimos, se ela própria se excluísse do processo histórico, de que faz parte, e se enganasse como se fosse uma estrutura metafísica.

Não há garantia alguma para aqueles que pularem da locomotiva do conhecimento por não quererem cometer erros ou para esconder suas plumas. Para aprender a nadar é necessário, cedo ou tarde, mergulhar na água. Aqueles que vivem obcecados pelo medo de se afogarem jamais aprenderão a nadar. De forma semelhante, aqueles que vivem paralisados com medo de trair o Marxismo na verdade já morreram para ele e já não são de nenhuma valia para a causa da Revolução, porque quando resolverem pular para as águas revoltas da revolução e perceberem que a corrente está tomando outra direção, então se darão conta que serão escorraçados. É melhor levar uma vida revolucionária modesta através da história do que pretender acumular pontos doutrinários enclausurando-se em catacumbas de ortodoxia.

O trotskysmo teve, desde o seu nascedouro, algumas falhas fatais. Em primeiro lugar, uma visão histórica determinista, mecanicista e euro-centrista, bem como um fetichismo vulgar da experiência soviética. A nível programático, esses defeitos foram introduzidos no próprio programa de fundação da IV Internacional. Quando nós nos preparávamos para a fundação da nossa Corrente Leninista Internacional, declaramos:

“Este programa, que aponta as tarefas do Partido Comunista em meio a uma crise social, com um caráter revolucionário e as interpretações da Revolução de Outubro como um fetiche, é uma obra euclidiana baseada em cinco hipóteses :

Primeira: ‘As forças produtivas da humanidade pararam de crescer. Novas invenções técnicas e aperfeiçoamentos não elevaram o nível de riqueza material’. Esta alegação foi derrotada. Na segunda metade do século XX o desenvolvimento das forças produtivas não só não estagnou como avançou de maneira sem precedentes na história. Os avanços técnicos redundaram num aumento brutal da riqueza a escala internacional, ainda que a sua distribuição tenha sido desigual.

Segunda: ‘As condições objetivas para a revolução proletária não estão apenas amadurecidas, já estão começando a apodrecer... (A burguesia está) abalada por uma profunda crise social, característica da condição pré-revolucionária da sociedade’.

Esta suposição foi provada errada, também. As pré-condições objetivas da revolução não estão apodrecidas. Nos últimos 50 anos o proletariado industrial cresceu a escala mundial; as forças produtivas para levar a cabo a sociedade socialista estão mais maduras do que nunca. E, nessas condições, uma transição mais rápida e segura para o Socialismo seria melhor do que aquela dos anos 30.

Terceira: ‘Sem uma revolução socialista dentro de um período histórico muito próximo, a humanidade e sua civilização devem ser destruídas por uma catástrofe, isto é, caindo para o barbarismo’. Esta tese, igualmente, foi demonstrada incorreta pela história. A Revolução Socialista não aconteceu de imediato, contudo, a humanidade ainda não decaiu para o barbarismo irreversível. O capitalismo não colapsou ainda, ao contrário, fortaleceu-se e manobrou para refrear a difusão da revolução e a criação de novos estados dos trabalhadores, envolvendo-se numa batalha titânica contra os estados proletários existentes; e mais, o capitalismo venceu a batalha e o seu inimigo foi arrasado.

Quarta: ‘Todo o destino da humanidade depende do proletariado, isto é, acima de tudo de sua vanguarda revolucionária’. Esta também foi flagrada em erro. Depois da II Guerra Mundial o proletariado, em que pese o avanço do mundo revolucionário, não tratou de destruir a burguesia em nenhum lugar. Em nenhum dos países que fizeram a revolução os comunistas revolucionários levaram o proletariado ao poder e sim, este foi acolhido pela social-democracia, o stalinismo e o populismo nacionalista. Nos lugares onde a burguesia foi destruída (Iugoslávia, Europa Oriental, China, Vietnã e Cuba), aquelas revoluções não foram acompanhadas pelos partidos proletários e/ou marxistas, mas sim, apesar de sua extrema fraqueza, sob a liderança de forças stalinistas e/ou pequeno-burguesas, por movimentos armados de camponeses como instrumento decisivo.

Quinta: ‘A crise histórica da humanidade é devida à crise de liderança revolucionária

Isso não é verdade. A crise da humanidade não é devida, acima de tudo, à crise de liderança política da classe trabalhadora. A própria classe trabalhadora é que está numa crise histórica. Estamos nos referindo à falta de habilidade do proletariado, particularmente do proletariado ocidental. E esta prolongada falta de habilidade também não pode ser explicada apenas pela existência de partidos reformistas. Sua perseverança obstinada é reflexo do desenvolvimento capitalista, que não tinha sido devidamente previsto, um desenvolvimento que possibilitou à burguesia uma distribuição dos lucros extraordinários provenientes da periferia semi-colonizada através de uma impressionante rede de corrupção do proletariado europeu, norte-americano e japonês. (Não esquecer as cooptações das elites burocratizadas do proletariado – N. T.). O proletariado não tentou uma vez sequer (exceto, talvez, em Portugal, com a Revolução dos Cravos, em 1975), empreender uma luta de vida ou morte contra a burguesia para tomar o poder estatal, desde o acontecido no século XIX e depois da I Guerra Mundial. No Ocidente não houve revoluções perdidas que dependessem apenas de uma liderança para levar a cabo as tarefas requeridas. A triste e cruel realidade é que, no Ocidente, desde a Guerra Civil Espanhola, não aconteceram revoluções genuínas, apenas crises pré-revolucionárias (como, por exemplo, na Itália e França depois da II Guerra Mundial e nos anos de 1968/1969).

Nossos velhos companheiros nos responderam, em sua monotonia doutrinária, que,

pelo menos os princípios estavam corretos...” Isso demonstra uma incrível confusão de princípios com as análises. Para eles, princípios corretos só podem levar a análises corretas. Mas, este não é o caso. Isso é tão errado quanto acreditar que o programa é derivado ao método. O inverso é verdadeiro! O método é que pode ser derivado a um determinado programa que, por sua vez, define determinadas tarefas. O critério para se determinar se a análise está certa é a prática e não a mera conformidade da análise com os princípios. Os princípios se tornam meras abstrações se não forem postos em prática por via da análise. A orientação política correta é o resultado de uma análise concreta da realidade concreta. Os princípios apenas podem nos fornecer umas poucas referências básicas centrais sobre o nosso horizonte. Análises incorretas levam a orientações incorretas e a táticas erradas. E, com táticas erradas, revolucionariamente não se pode avançar estrategicamente.

A fundação da Corrente Leninista Internacional foi, por isso, um clamor contra o misticismo do Programa. Os sectários acreditam que ele seja uma espécie de amuleto e pensam que devem defendê-lo com unhas e dentes contra a própria realidade da vida, a fim de evitar a sua ‘degeneração’. Que ilusão! Só há uma maneira de evitar a degeneração: manter-se revolucionário e pôr o programa em prática; e permanecer sempre em posição de combate, estar próximo das parcelas mais exploradas do proletariado, que não podem ser corrompidas pelo capital com suas oferendas!

Apenas três anos se passaram desde o Congresso de fundação de nossa corrente, período curto, porém, suficiente para traçarmos um primeiro balanço sumário. E, no geral, este balanço é positivo. É verdade que nenhuma nova organização se juntou à CLI. Para falar a verdade, não estivemos procurando por novas adesões de organizações. Optamos por outro método, que nos traz resultados menos espetaculares, porém mais estáveis. Estabelecemo-nos objetivos mais modestos: criar uma rede firme de amizades, relações e alianças para a ação, com o melhor do movimento revolucionário internacional. É a isso que nos temos atido e de que estamos orgulhosos. Com eles pretendemos criar as bases de uma futura INTERNACIONAL DOS COMUNISTAS.


Julho de 2000,

COMITÊ EXECUTIVO DA CORRENTE LENINISTA INTERNACIONAL (CLI)