Brasil, põe suas barbas de molho com o FMI

Certos adágios populares se adaptam muito bem à situação pela qual os países latino-americanos estão passando. Assim, nunca é tarde para relembrar que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. E se o Brasil acha que porque é grande vai agüentar o tranco do saque que lhe estão armando - é só lembrar que “tamanho não e documento”.

Brasil, põe suas barbas de molho com o FMI

Roselis Batista Reallis

Correspondente na França


Certos adágios populares se adaptam muito bem à situação pela qual os países latino-americanos estão passando. Assim, nunca é tarde para relembrar que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. E se o Brasil acha que porque é grande vai agüentar o tranco do saque que lhe estão armando - é só lembrar que “tamanho não e documento”.

Assim, o Equador é o país que mais ficou “furado” com essa persistente do FMI e do Banco Mundial, e por isso mesmo se tornou um dos países mais destruídos (des)graças a essa água infecta e ácida proveniente desse manancial que só pensa na sua ganância. Na realidade, não precisou bater muito para conseguir a desintegração de uma nação, bastou propor condições de “ajuda” sacanas e injustas. Vejamos alguns dados espantosos: a “dívida pública de 13,5 bilhões de dólares representa 90% do PIB; a taxa de desemprego atinge 50% da população; 64% das crianças entre 6 e 15 anos não são escolarizadas; 70% da população não tem acesso à saúde, e nesses dois casos por não terem absolutamente meios para pagar; as entradas de dinheiro provenientes do trabalho estão caindo 20% a cada ano que passa”..

Se nós observarmos uma nota do Le Monde Diplomatique do ano passado (set.) a respeito do Equador, seis milhões de dólares da dívida vêm dos bônus Brady, pois o Sr. N. Brady, que era em 1989 secretário do tesouro do presidente Reagan, propôs intercambiar os créditos bancários (dívidas ativas) por títulos garantidos pelo tesouro americano”. Abro um parênteses: garantido por e para o Tesouro americano. Fecho o parênteses. “essa troca seria feita somente com a condição de que os bancos credores aceitassem a redução do montante das dívidas ativas e que colocassem dinheiro no circuito. Os países beneficiários, em contrapartida, se comprometeriam a consolidar a parte principal de sua dívida e a assinar os programas de ajuste com o FMI”.

Depois de toda essa atitude de ajuda - que é em realidade um saque - e que teve o aval das elites corruptas do Equador que assinaram tudo o que o FMI quis - não é de surpreender que o resultado tenha sido o desmantelamento total do país. Alguns meses passaram e a oficialização da polarização do país “já arruinou centenas de milhares de poupanças da população, assim como também das aposentadorias”. No meio disso tudo, veio a supressão dos subsídios aos produtos de base, cortes claros no que resta dos serviços públicos, privatização das empresas públicas e outras mazelas.

Oxalá a crítica - mais do que evidente - a essas ajudas altamente perniciosas, draculamente sugadoras das riquezas do país - fosse somente minha e de um punhado de pessoas que se preocupam pelo futuro - e pelo presente - dos países outrora em desenvolvimento. Mas na França escreve-se:

“Para o FMI essas tragédias sociais pesam infinitamente menos do que a exigência do pagamento da dívida”. Sem falar em que os cálculos da dívida são sempre exagerada-mente aumentados - será que ainda e preciso explicar a necessidade do público, sempre mais importante do que o privado para a maioria da população de qualquer país?

É preciso melhorar a educação pública, e não dilapidá-la, criticá-la, e ignorar que o privado só vai pensar no seu lucro. É preciso melhorar a saúde pública pela mesma razão, e assim vai a lista de obrigações que um estado-nação tem o dever de oferecer a seus cidadãos, e se há corrupção, é preciso combatê-la, pois no privado não há a quem recorrer, nem a quem pedir, nem a quem esfregar na cara as suas reivindicações. Tão simplesmente porque no plano privado não podem existir reivindicações, não há direito à reclamação nenhuma, e nele a corrupção existe de pior maneira: está mascarada, camuflada pelo empreguinho a contrato meio-fixo ou nada fixo, em que o patrão pode colocar na rua a hora que quiser.

Exemplos que não sejam os 50% de desempregados do Equador? Há milhares de exemplos aqui mesmo no primeiro mundo que também se está privatizando: o emprego-jovem na Inglaterra de Blair, onde se contrata para pagar oito horas diárias, mas se trabalha 10-12. E o empregado é um produto descartável, pois seis meses, ou 8 ou 12 depois, vai mesmo para o olho da rua. Se o 1° mundo europeu tem a sorte de não ter um FMI propondo ajuda - pois não precisa - , tem o azar de estar perdendo as grandes aquisições dos trabalhadores que lutaram por melhores condições de vida ao longo de quase dois séculos. Outro exemplo é o caso das demissões em massa da Danone, justamente quando esta empresa declara ter recordes de lucro. É o Partido Comunista Francês quem está lutando para a aprovação de um projeto de lei que impeça a uma empresa rentável de despedir impunemente os seus trabalhadores quando pode perfeitamente pagar-lhes.

Finalizando com a tragédia equatoriana, que se está alastrando por toda a América latina, lembramos que graças à CONAIE (Confederação das nacionalidades indígenas do Equador), e graças a uma parte do exército dirigida por 70 oficiais, o presidente morno, Jamil Mahuad, caiu. Será que até - e sobretudo - os povos indígenas latino-americanos enxergam mais do que qualquer cidadão escolarizado, urbano e barbado?

Será que o Chiapas mexicano com seus zapatistas, sub-comandante Marcos e seu exército indígena, enxergam mais do que os engravatados e “civilizados”? Para esses e aqueles o FMI e as elites corruptas de seus países, os trouxeram mais miséria, mais tristeza, mais medo. Sabem que “quando a esmola é grande, o pobre desconfia”. Logo, Brasil, antes que a falta de luz escureça até o teu raciocínio, põe tuas barbas de molho...