A derrocada do futebol brasileiro e, em especial, a do Botafogo

Artigo enviado para debate por José de Abreu Ramos, Benemérito e Conselheiro do Botafogo Futebol e Regatas

A derrocada do futebol brasileiro e, em especial, a do Botafogo

Enviado Por: José de Abreu Ramos
Benemérito e Conselheiro do Botafogo Futebol e Regatas



O BFR, uma instituição virtualmente secular, com visceral identificação com o epíteto de “O Glorioso”- atributo a que, em passado não distante, fez pleno jus - foi fundado em 12 de agosto de 1904, sob a denominação de Botafogo Football Clube.

A partir do ocaso da década de 40 foi conduzido ao apogeu, com notável repercussão no futebol mundial, deflagrando, em seu contexto, a diáspora de supercraques brasileiros rumo ao futebol europeu, sem prejuízo, todavia, do acervo de glórias que, ao longo de décadas, continuou a contabilizar, mercê, basicamente, da presença, em sua cúpula dirigente, de estrelas de primeiríssima grandeza, dotadas de incomum tirocínio administrativo.

A exceção, hoje, de nomes de envergadura que ainda remanescem atuantes, mas em número exíguo, constituído, rigorosamente, apenas de um quarteto de Grandes Beneméritos da estatura de Althemar Dutra de Castilho, Guilherme Arinos, Zeferino Xisto Toniato e Emanuel Sodré Viveiros de Castro, os quais, inferimos, elegeram como paradigmas dos seus antecessores e preceptores, circunstância que nos remete à nostálgica ilação segundo a qual, àquela época essencialmente histórica, constituíam, esses superdirigentes, a Suprema Corte Alvinegra.

Era, portanto, naquele passado não remoto, a instância superior do BFR, uma seleção constituída e fomentada pelo genuíno sentimento botafoguense, que se sobrepunha a limites usuais de abnegação e, entre essa elite de talentos, se destacam divindades como Carlito Rocha, Paulo Azeredo, Rivadávia Corrêa Meyer, Adhemar Bebiano, Renato Estelita, Ney Cidade Palmeiro, João Citro, Sérgio Darcy, Emanuel Sodré, Gumercindo Dantas Brunet, Alcino Faria Machado, assim como uma incomensurável legião de notáveis que a nossa memória, já encanecida, não pôde eximir-se da omissão de nomes inescurecíveis.

São, estas reflexões, de um lado, recheadas de saudosismos, de outro, de frustrações e malogros configurados em humilhantes e deprimentes resultados colhidos ultimamente pela equipe de futebol, insucessos de que não pode se desvincular - nos constrange registrar - a atual diretoria, para cuja constituição contribuímos, composta, não obstante, de escassas exceções que por si se impõem, mas também, de dirigentes imaturos, uns, de amadores ou neófitos, outros, enquanto não lhes possa atribuir propósitos conflitantes com os interesses do BFR.

São todavia, conjecturas em que se estribam as perspectivas nebulosas que definem, sem apelo a catastrofismo vulgar, o futuro de que se tornou refém o “Clube da Estrela Solitária”, um dos ícones de maior dimensão do futebol brasileiro, a despeito de encontrar-se, transitoriamente, sob o comando de uma parcela de dirigentes imaturos, impotentes inclusive para atrelar, à guisa do patrocínio, a tradicional marca Botafogo a empreendimentos empresariais de dimensões compatíveis com um clube que se identifica com o populoso bairro que constitui o seu berço e, também, lhe empresta o nome.

A insólita contradição em que se insere o retorno triunfal de um ex-presidente que se encontrava ausente do Clube há cerca de 20 anos, conhecido entre centenas de associados e torcedores como o seu coveiro, constitui uma irrecusável excrescência, de que são autores alguns membros da atual diretoria, fato deplorável que se converteu em agressão à dignidade de uma instituição visceralmente associada às conquistas de maior relevância do futebol brasileiro - os quatro títulos mundiais - e, paralelamente também as memórias imperecíveis dos Grande Beneméritos, Carlito Rocha e Ney Cidade Palmeiro, que se opuseram, com determinação, à sua primeira gestão, especialmente em face da delituosa ousadia de alienar, arbitrária e predatoriamente, o histórico, tradicional e intocável patrimônio imobiliário do BFR.

Em que sentido contribuiu para elevar a grandeza do Botafogo o reingresso, condecorado, de um ex-presidente que foi conduzido ao poder num momento de flagrante irreflexão de uma pequena maioria do quadro social, ludibriada e cooptada pela velhaca mitomania de quem ainda como agravante a condição de irmão do então diretor do temido DOPS, órgão da tirania militar que se atribuía superporeis, entre eles, sobretudo, o de torturar patriotas indefesos que dedicavam suas vidas fundamentalmente à luta pela preservação da soberania nacional, insistentemente ameaçada pelas oligarquias nacionais e internacionais, com o apoio explícito da representação “diplomática” norte-americana, a que se associava, com a sua notória aracúndia, o influxo ultra-direitista do pernicioso lacerdismo.

O alvo desse conglomerado de fascistas, de que teria sido integrante, em nível subalterno, o nosso semi-aculturado ex-presidente, concentrava-se, essencialmente, na obstinada destituição do governo progressista do Dr. Goulart, legalmente instituído, mas obsessivamente perseguido por um movimento conspiratório que elegeu como pretexto de seus intentos golpistas uma histérica e delirante comunofobia de conveniência que ocultava os reais propósitos que não eram outros senão a implantação do modelo econômico neoliberal que o FMI, àquela altura, já planejava impor aos países subdesenvolvidos, e que, afinal veio a se consumar nos governos de traição nacional monitorados por dois nefastos Fernandos.

Não se encontram mais entre nós, e não nos cansamos de lastimar, com infindável tristeza, os nossos fraternais companheiros socialistas, os saudosos beneméritos João Saldanha e Maurício Porto, assim como o eminente ex-Conselheiro Sandro Moreyra, que professava a mesma linha politico-ideólogica. Era com o Maurício Porto, o nosso inesquecível Mauricinho, que dividíamos, naqueles momentos angustiantes em que imperava o pesadelo “boresista”, as incumbências pertinentes aos trâmites da liderança processual rotulada de “Ação Popular”, o veículo de cujo teor emergiram as circunstâncias que possibilitaram, efetivamente, o nosso reencontro com as raízes fincadas na Avenida Venceslau Brás e na Rua General Severiano.

O complexo de desacertos que a quase totalidade dos dirigentes do futebol brasileiro incorpora, especialmente a parcela que tem efetivo poder, a exemplo do arrogante e prepotente malufista Eurico Miranda não exclui, num vaticínio suscetível de assumir conotação sinistra, para a qual contribui decididamente a Lei Pelé e outros ingredientes como o modelo de gestão anacrônico, já esgotado, mas que não obstante, ainda adotam os dirigentes que permanecem estacionados no século XIX, situação que redundará, inapelavelmente, no funeral dos clubes que integram a elite do futebol carioca, não imune, por conseguinte, ao “efeito dominó”.

É pungente e lastimável, antes de tudo, o diagnóstico das perspectivas que rondam o futuro do nosso idolatrado Botafogo, condenado, segundo noticiário razoavelmente freqüente na mídia impressa e eletrônica, ora de modo tácito, ora expresso, com base no qual fomos contaminados por patologia administrativa grave, passível de nos conduzir numa visão analítica destituída de paixão, à condição de clone do São Cristóvão, clube de inequívoca tradição, mas que sobrevive precariamente à base de um prosaico saudosismo.

No bojo deste catastrófico vaticínio podem embarcar, como potenciais candidatos, o Vasco da Gama e o C. R. Flamengo, ambos virtualmente insolventes e, por via de conseqüência, impotentes para arrostar adversidades que têm no macroendividamento o seu epicentro, passível de se tornar ainda mais grave, na medida em que os impactos negativos da LEI PELË se tornem mais contundentes.


Rio de Janeiro, maio de 2001
José de Abreu Ramos - Benemérito e Conselheiro do Botafogo Futebol e Regatas

Paulo Ramos de Alencar
Paulo Ramos de Alencar disse:
08/05/2012 14h03

É a pura verdade o excelente comentário de José de Abreu Ramos, que acabo de ler, ainda muito chateado com a diretoria, os técnicos e até a torcida acharem que o Loco é herói e joga futebol, com a humilhante derrota para o Fluminense, com a falta de um beque, dois laterais (substitutos), um armador e um centro avante, com a eterna ausência do Jobson, um promissor atacante de qualidades, com o uniforme todo preto (o Botafogo empata ou perde quando joga com ele; não é superstição, é estatística), com uma camisa branca e uma faixa preta no peito, horrível, novidade, eis que o Glorioso nunca teve uma camisa tão feia, com a estrela diminuindo e quase no pescoço (horrível) etc. Com o Loco jamais o Botafogo chegará a algum lugar! Ele não tabela, não disputa a bola, não sabe "matar" a bola, faz de canela, os companheiros correndo, lutando e ele só esperando os passes dentro da grande e pequena área, fazendo gols a um ou dois metros da área, só empurrando a bola, uma facilidade e todo mundo achando um "craque", herói. Já pintaram o muro de General Severiano com a foto dele ao lado dos melhores craques do futebol brasileiro. Pode? Imperdoável. Inacreditável. Será que o Botafogo alcançará o título de campeão carioca domingo, dia 13? Cancelei o camarote BB private no Engenhão porque não acredito nesse milagre. Podemos brilhar na Copa Brasil e no Campeonato Brasileiro, mas com os reforços e sem o Sebaatian Loco Abreu (pasme! capitão da equipe e com bracelete do Uruguai, aquele que encontrou um corredor pela direita da defesa do Brasil e fez dois gols, tornando-se campeão mundial dentro do Maracanã. Bigode titular e o Nilton Santos na reserva. Barbaridade. Técnicos cegos. Burrice. Em 1958, Garrincha, o melhor jogador de futebol de todos os tempos, na reserva do Joel. É o fim da picada! Após a vitória contra a Rússia, os doutores da comissão técnica ficaram estupefatos com a estupenda, decisiva e maravilhosa exibição do Mané Garrincha, "O Incomparável!" O Demônio da Copas, O Anjo das Pernas Tortas, A Alegria do Povo! Viva o Botafogo de Futebol e Regatas! Avante, Glorioso da Estrela Solitária!

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