Abajur Lilás ilumina TBC

Plínio Marcos tem o poder de nos remeter ao teatro, dentro da sua mais alta função, refletir, repensar, porque só depois de algum tempo você consegue diluir tudo que ele propõe, seu teatro é forte, instigante, é verdadeiro, não tem meio termo, é como a lâmina que penetra a carne e faz o estrago, uma luz que desvenda tudo.

Abajur Lilás ilumina TBC

Por: RN



Plínio Marcos tem o poder de nos remeter ao teatro, dentro da sua mais alta função, refletir, repensar, porque só depois de algum tempo você consegue diluir tudo que ele propõe, seu teatro é forte, instigante, é verdadeiro, não tem meio termo, é como a lâmina que penetra a carne e faz o estrago, uma luz que desvenda tudo.

A mesquinhez humana está presente em todos os seus textos, um jogo cruel de conscientização. Seus personagens são subservientes de um processo, de um sistema que aprisiona e destrói. “Um se servindo do outro, isso não é vida, é uma bosta fedida...”(Neusa Sueli - personagem de Navalha na Carne). “Nas casas de família é tudo igual, os maridos agüentam as mulheres, por causa da grana” (Vado - Navalha na Carne). Uma realidade cruel, que nos fez meditar sobre o nosso cotidiano, nosso mundinho, porque de uma forma ou de outra estamos lá, mais perto agora do que há trinta anos, quando foi escrita e proibida, e que a torna mais atual e verdadeira, esse universo teatral/cruel, um circo de horrores, que esbarra na gente a todo momento, nas ruas, na TV, nos jornais, toda a polêmica causada pela obra de Plínio, nos serviu para alertar e conscientizar-nos “a que ponto chegamos”, e naqueles anos tortuosos, uma famosa deputada aos berros, dizia sobre a peça: “não vi nem quero ver”, requerendo dessa forma o seu atestado de burrice. Mas o teatro que ele faz é maior ainda, porque as coisas, os objetos, tomam forma, tomam vida, têm função, porque representam o elemento de discórdia, o motivo de discussão, uma navalha, um sapato, um abajur, tomam proporções gigantescas, nos levando ao nó dramático da cena. Em seu teatro todo relacionamento é minado, é tortuoso, um jogo de opressor e oprimido.

O relacionamento desencadeado em “Abajur Lilás”, é velado, a meia luz, emboleirado, nos remetendo ao passado doloroso, anos da repressão da ditadura militar.

A remontagem do espetáculo se faz necessária, e nos leva a um beco sem saída, expõe nossa vergonha impunemente, como um alerta.

Parabéns a todo elenco, à direção de Sérgio Ferrara, ponto alto do espetáculo, já que os personagens são interpretados por grandes estrelas do nosso teatro. Um viva, a Esther Góes, Francarlos Reis, Magali Biff, Lavínia Pannunzio e Elder Fraga, pela coragem e competência. Os cenários de J.C. Serroni e Laura Carone, dispensam comentários, pelo perfeccionismo de sempre.

“Abajur Lilás” está em cartaz no TBC, Rua Major Diogo , 315, sextas e sábados, às 21 horas e domingo às 20 horas.