Editorial: Quem disse que falta ética na política?

Editorial Jornal Inverta, Ed. 291 (02 a 08 de junho de 2001) "Todos com o mínimo de consciência do processo político nacional e continental, no presente contexto histórico, acompanharam com muita atenção o discurso de renúncia de Antônio Carlos Magalhães ao Senado Federal (...)"

Quem disse que falta ética na política?

Editorial

 


Todos com o mínimo de consciência do processo político nacional e continental, no presente contexto histórico, acompanharam com muita atenção o discurso de renúncia de Antônio Carlos Magalhães ao Senado Federal.

Muitos, de antemão, tentaram imputar um significado ao mesmo outorgando-lhe o monopólio da representação oligarca no Congresso Nacional e daí concluindo, “logicamente”, que significava a ruptura das oligarquias com o governo neoliberal de FHC. Seria isto uma verdade? Outros porém foram além e atribuíram a renúncia de ACM o fim de um ciclo na política nacional – onde os oligarcas reinavam – e que de agora em diante tudo será diferente.

Será mesmo? Se isto é verdade, então porque tanta preocupação com o discurso de renúncia de ACM; porque simplesmente não ignorar ao invés de tomar ares de manifesto à nação transmitido ao vivo, pela imprensa falada, escrita e televisiva, como se este fato fosse o acontecimento político mais sensacional ou importante da época? Que mal ou bem a renúncia poderá causar ao país ou ao governo FHC ? Por acaso sobre seu discurso não incidirá a máxima do mentiroso, que é mais ou menos assim:

Coitado do mentiroso
mente uma vez
mente sempre
e mesmo que fale a verdade
todos dizem que mente...

Por trás de todo o espetáculo, do brilho das luzes e tudo mais, há algo maior e cujos rumores estão nas bocas e mentes dos que assistem a tudo com a aparente passividade dos que assistem mais um domingão do faustão. O que será ? Mirem-se no exemplo de Tocantins... Quartéis amotinados e Exército nas ruas.

Na verdade, como mostra a lógica de todo o discurso de renúncia de ACM, por trás de sua renúncia forçada está a gravíssima crise que atravessa o país, como disse o próprio ACM, e da qual é um dos protagonistas. É gravíssima porque além de se apresentar como resultado da política neoliberal levado à cabo pelo governo – privatização, desregulamentação e flexibilização – como base de sustentação de uma política cambial fraudulenta (paridade artificial entre o Real e o Dólar), também se apresenta como resultado da ausência de paradigmas éticos na sociedade.

Mas alto lá, estou falando da ética revolucionária; aquele ceticismo revolucionário que só existe nos homens e mulheres que se entregaram a uma causa por razões de consciência revolucionária e paixão humana e que não encontra paralelo ou paradigma na sociedade burguesa e suas instituições atuais porque foram eliminadas pela repressão, terror e assassinados, durante a ditadura militar no qual ACM ficou conhecido como “Tuninho Malvadeza”; quer dizer: ele é vítima hoje de seu próprio veneno. Portanto, este quadro que tanto ACM deplora em seu discurso não poderia deixar de se manifestar com toda a força, principalmente na política e particularmente no Congresso Nacional e governo. Aqui no apagão da ética em toda a sociedade, de alto a baixo, porque o capital financeiro corrompe a sociedade inteira, homens públicos da estatura de Luiz Carlos Prestes, Olga Benário, Mariguella, Lamarca, Mário Alves, Maurício Grabois, e tantos e tantos velhos, moços e jovens que se entregaram à luta por um Brasil digno, justo e igualitário são luzes que nos faltam ao fim do túnel e os poucos que nos restam, são reservas morais revolucionárias que continuam eclipsados pelos impostores do sistema apresentados pela mídia nazi-fascista como “Lanterna dos afogados”.

O discurso de ACM é muito claro, atribui sua renúncia à imposição das forças “poderosas” contrárias a sua luta contra o apagão econômico e moral da sociedade – e esquece que foi um dos seus principais artífices. Mostra que sua quebra de decorro é mal menor comparado aos escândalos das privatizações “comissionadas” - aludindo a responsabilidade disso a Malan e sua equipe - ; da compra de votos para reeleição - aludindo a FHC e seu ex-secretário Eduardo Jorge - ; dos desvios de verbas - aludindo diretamente a Jader Barbalho (Banpará), Fernando Bezerra (Sudene), Nicolau e Luiz Estevão (TRT de SP) –; esquece que seu filho junto com o Serjão (“Que Deus os tenha”) comandaram o esquartejamento das Telecomunicações do país. Atribuiu ainda a decisão do Conselho de Ética por sua cassação à mesquinhez e inveja política ao papel que ocupa na história política nacional – aludindo sua eleição como prefeito do século e a seu nome como legenda viva, só não disse quem o elegeu com um e outro significado. ACM, sem dúvida, açoitou a todos com o seu discurso, do Judiciário, passando por cada um de seus principais adversários do Congresso, até FHC e FMI.

Cada palavra, cada oração, em seu discurso soava como chibatada direcionada aos que ali se prostravam como platéia vivais, comportada e resignada com o castigo. O único ponto fraco em todo o discurso de ACM, acompanhando toda a sua lógica e aparente coerência do gesto teatral de renúncia em pompas, foi precisamente seu argumento de por que ao invés de resistir ao processo de cassação e lutar até o fim, preferiu renunciar, covardemente, admitindo a culpa. Aqui a lógica da renúncia pela moral ilibada e como resultado do “complô das forças do mal” contra o rei da Bahia, se esfumaça diante de um outro código de ética, que nada tem de revolucionário e ilibado, mas de máfia oligárquica.

Quem acompanhou os dias que antecederam o surgimento dos boatos sobre a lista de votos dos senadores durante a cassação de Luiz Estevão, sabe muito bem que isto se deu eclipsando a luta de toda a oposição pela CPI da Corrupção, que ele próprio, ACM, em sua luta para manter a posição hegemônica no Senado e no governo, brincava de assinar e a esgrimia a todo o momento como espada de Demócrito na cara de Jader Barbalho e do próprio governo. ACM, na verdade, nunca teve a intenção de assinar verdadeiramente a CPI. E aí começou um jogo mais pesado e sujo entre a “Prostituta e o Ladrão”. E neste jogo, como disse Jáder Barbalho, e com razão, como pode uma velha prostituta cobrar moral das que estão se iniciando na profissão? Assim como neste jogo, como disse ACM, e com razão, “que as que roubavam o erário público, não precisavam se prostituir”. Neste jogo de metáforas reais, já se transpirava o quadro ético que amarrava o destino da “prostituta” e do “ladrão”. Este quadro ético são as relações promíscuas entre ambos e o presidente. Assim, do dueto onírico, fez-se a tróica histórica em que cada elemento se liga ao outro com a mesma força que as correntes de Hefaísto aprisionavam Prometeu aos rochedos.

A “prostituta”, o “ladrão” e o presidente têm um destino comum que os une como elementos de uma mesma classe social e bloco oligárquico no poder: a defesa do seu ser social e situação de classe dominante ante as classes dominadas e subalternas, como diz Gramsci. Neste sentido, embora a renúncia de ACM possa transpirar mesquinhez, ódio, e vingança, ela não poderia romper com a ética das prostitutas, ladrões e presidentes corruptos, que emblemam o perfil e consciência histórica das classes dominantes no Brasil. Neste código de ética, o sacrifício em nome do poder e em nome de sua classe, como disse, com razão, Arruda em seu discurso de renúncia, e reconheceu o próprio FHC, tem sua ética. Portanto, todo o episódio de renúncia de ACM guarda uma ética como poder das oligarquias do país. Nada mais ridículo, demagógico, hipócrita, cínico, se apresentar ou justificar seu ato de renúncia como vítima do apagão ético e econômico.

O mal e o bem que ACM com sua renúncia podem fazer ao país é relativo. Fará um grande bem se sua renúncia for compreendida pelo povo como uma declaração e demonstração de falência econômica, moral e política de toda a classe burguesa e do seu governo oligárquico, e diante disto, mesmo com a ausência de uma força moral revolucionária, o Partido Comunista, a classe operária e aliados vão para as ruas e praças públicas, e em greve geral, exijam a queda deste governo das oligarquias, comandado por prostitutos, ladrões e corruptos da política. Mas fará também um grande mal, se a renúncia de ACM for compreendida como a solução dos problemas do país, livrando o governo do mesmo destino. Neste contexto, sem a compreensão de que a renúncia de ACM deve ser um motivo a mais para a luta contra toda a classe burguesa no país, a exemplo de Tocantins, crescerão as rebeliões sem que sejam acompanhadas pela organização do Partido Comunista, Marxista-Leninista. Sem o Partido não se poderá orientar o movimento e organizá-lo como nova estrutura de poder que vai nascendo da cooperação e organização unitária dos trabalhadores, camponeses, estudantes e setores militares em luta de classes.

O mal de ACM para o povo é o bem de ACM para o poder. O bem de ACM para o povo é o mal de ACM para o poder. Mas o poder mesmo de transformar o bem no mal e o mal no bem está unicamente nas mãos do povo, pois como dizia um grande e livre pensador anti-escravista baiano Castro Alves: “A praça é do povo como o céu é do condor” – a liberdade é uma conquista, como a revolução é a condição da liberdade. O dever de todos com o mínimo de integridade moral e que desejam um país justo e digno para si e os demais é marchar contra as oligarquias e fazer valer o destino comum que fundamenta a ética e a ligação promíscua da tróica no poder: da “prostituta”, do “ladrão” e do presidente corrupto.


Abaixo o governo das oligarquias e sua tróica!
Todos lutando por uma Greve Geral para salvar o país da bancarrota!
Viva a revolução proletária!
Viva o Partido Comunista, Marxista-Leninista!

 

PI Bvilla

Pelo OC do PCML