O Brasil mestiço de Clara

Sob a direção de Gustavo Gasparani, esta é uma montagem que mostra várias fases da carreira de Clara Nunes, uma das maiores intérpretes da música popular brasileira de todos os tempos, a partir de seu repertório sempre voltado para as raízes da cultura brasileira.

O Brasil mestiço de Clara

Por: Almeida Rodrigues



O musical em homenagem a Clara Nunes, uma das maiores intérpretes da música popular brasileira de todos os tempos, estréia no dia 1º de junho de 2001, no Teatro III do Centro Cultural do Banco do Brasil, de quarta a domingo, às 19h30.

Sob a direção de Gustavo Gasparani, esta é uma montagem que mostra várias fases da carreira da cantora a partir de seu repertório sempre voltado para as raízes da cultura brasileira. Clara cantou temas urbanos e também o sertão brasileiro. Realizou gravações personalíssimas e antológicas de músicas de Vinícius, Dolores, Chico, Paulinho, Cartola, Candeia e tantos outros.

No elenco, Ana Carbatti, Flavio Bauraqui, Marcelo Vianna, Vera Novello e Ana Velloso, que escrevem o roteiro com Gustavo Gasparani. Direção: Gustavo Gasparani. O espetáculo foi realizado após um profundo trabalho de pesquisa de Renata e Rodrigo Auzuguir. Direção Musical: Gustavo Rente.O CCBB se localiza no Centro do Rio de Janeiro.

Clara Nunes morreu há 18 anos. Foi porta-voz de compositores de todos os matizes, como Ataulfo Alves, João Bosco, Candeia, Chico Buarque, Luiz Gonzaga, Vinícius de Moraes, Dorival Caymmi, Cartola e Paulo César Pinheiro, entre muitos outros, derrubando tabus e levantando bandeiras com muita graça, beleza e talento. Soube reunir em seu trabalho as influências que trouxe da infância e juventude de Minas - povoada por manifestações folclóricas como a congada e a folia de reis - aos ritmos e estéticas que abraçou vida afora, como o samba, a marcha, o rancho, o samba-canção, os pontos de macumba estilizados, o frevo, a valsa, o choro e tudo o que se relacionasse com o nosso Brasil tão mestiço. Sua batalha por nossa música e por nossos compositores fez com que a apelidassem de Guerreira.

Ao lado de Vinícius e Toquinho, concebeu o espetáculo O Poeta, a Moça e o Violão, em 73 e, um ano depois, atuou em Brasileiro, Profissão Esperança - ao lado de Paulo Gracindo - um marco do teatro engajado dos tempos de ditadura, onde cantou e contou, com perfeição, a vida de outra grande guerreira: Dolores Duran. “Curiosamente, foi nas coxias do musical Dolores, apresentado há dois anos aqui mesmo no CCBB, que eu, Vera e Ana decidimos que era hora de elaborar um espetáculo em homenagem a Clara”, conta o diretor do espetáculo, Gustavo Gasparani.

O espetáculo, escrito por Ana Velloso, Gustavo Gasparani e Vera Novello, retrata a trajetória artística de Clara Nunes, desde os primeiros sucessos até vê-la se transformar numa figura marcante, vestindo exuberantes trajes ligados ao artesanato popular e à brasilidade e cantando os mais diversos ritmos brasileiros.

Dividido em cinco blocos, o texto ressalta, em cenas curtas, fatos pessoais, situações e emoções que influenciaram o gosto musical de Clara e ajudaram a definir o perfil desta grande intérprete. Inicia com a menina Clara, filha de pai violeiro e criada com pé no chão, banho de rio e muita música. No segundo bloco aparece sua história em Belo Horizonte, o trabalho como tecelã de fábrica e seu cotidiano de operária, mas já iniciando a carreira de cantora, se apresentando como crooner em boates e festas. Já no terceiro, Clara vem para o Rio de Janeiro e assina seu primeiro contrato com a gravadora Odeon, grava o primeiro disco e divide um apartamento em Copacaana. O quarto bloco mostra a sua descoberta da religiosidade, o envolvimento com a macumba e seu encontro com o samba. O quinto e último fala de seu casamento com Paulo César Pinheiro, a consolidação da carreira e a compra do teatro que recebeu o seu nome.