O golpe de 64 e a economia nacional

Eu posso julgar os 30 anos de governo militar através da dívida externa. Porque quando Castello Branco chegou ao governo, a dívida externa do Brasil no tempo de João Goulart era apenas de pouco mais de três bilhões de dólares. E quando terminou a fase militar, a dívida externa do Brasil tinha passado para 100 bilhões.

Eu posso julgar os 30 anos de governo militar através da dívida externa. Porque quando Castello Branco chegou ao governo, a dívida externa do Brasil no tempo de João Goulart era apenas de pouco mais de três bilhões de dólares. E quando terminou a fase militar, a dívida externa do Brasil tinha passado para 100 bilhões. Neste momento de crise maior por que estamos passando isso dá uma idéia de que temos que ter um pouco mais de cautela na questão da presença de um governo militar, nos antecedentes.

Dos governos militares, tenho maiores restrições quanto ao Castelo Branco, porque ele tinha como ministro o udenista Roberto Campos, cujas idéias têm sido combatidas através de todos os tempos, não só por mim como por todos os nacionalistas brasileiros. O governo Castelo Branco praticamente foi um governo do Roberto Campos. O fato é que os outros militares que vieram para o governo não quiseram que Roberto Campos continuasse com as funções que tinha no Governo Castelo Branco, mas trouxeram Delfim Neto e Simonsen, ministros da fazenda. E todos eles concorreram para que essa dívida se aviltasse dessa maneira. ,

Agora se a gente for procurar se essa dívida de 100 bilhões foi usada realmente para melhoramentos para o Brasil, nós não vamos encontrar. Essa dívida se compõe talvez de 20% que pode ter sido aplicado em obras úteis, mas 70% foi de juros.

Para o trabalhador não teve o mesmo ambiente que tinha com João Goulart. Este saiu do governo sobretudo porque era amigo dos trabalhadores e daí por diante os trabalhadores não tiveram a mesma proteção que nos governos anteriores. Eu acho que o segundo governo, o do General Costa e Silva, tinha uma mentalidade diferente. Tanto é que ele esteve aqui num banquete na Associação Brasileira de Imprensa e a que considerar atenuantes nos governos militares.

Mas a gente quando considera que, por exemplo, no governo Geisel, a light que devia passar para o domínio do povo brasileiro daí a 10 ou 12 anos, de graça, entretanto o governo pagou mais de 400 bilhões de dólares para comprá-la. Alegava-se naquela hora que havia necessidade de uma medida urgente para evitar o racionamento de energia elétrica.

Mas eu cheguei a lembrar na época que o governo podia entrar com essa quantia que é necessária para atualizar energia elétrica, mas como capital do governo e não da light, que era uma maneira de evitar o racionamento das cidades do Brasil.

Quando se recorda essas coisas lamentamos que os militares não tenham tido uma atuação que pudesse de certa maneira prestigiá-los e não criar um ambiente desfavorável.

Hoje acredito que não há perigo de golpe. Essas lembranças de certa maneira afastam os riscos de um golpe militar. Embora reconheça que hoje nas Forças Armadas há um profundo sentimento nacionalista que se pode verificar na atitude do comandante-brigadeiro Ferolla e como ele tem muitos outros nacionalistas. Tanto que temos recebido chefes militares para fazerem entrevistas e conferências dentro desse sentido nacionalista, porque nós estamos aqui na ABI exatamente para prestigiar o sentimento dos nacionalistas brasileiros.

 

Barbosa Lima Sobrinho

(Presidente da ABI)

Matéria publicada na edição 28 do Jornal Inverta em 1º de abril de 1994