O espólio da Revolução

Há trinta anos, militares de direita, a pretexto de combater a subversão e a corrupção, e "salvar" o País do "bolchevismo", tomaram o poder pelas armas e, no poder, permaneceram quase duas décadas. A esse golpe de Estado, semelhante a todos os outros que já se tomaram rotina na história do nosso Continente, chamaram de "revolução". O golpe precisava justificar-se, forjar sua ideologia que, aliás, já estava pronta, a "doutrina" da segurança nacional, elaborada na Escola Superior de Guerra, apelidada, não se sabe porque, de Sorbonne.

Há trinta anos, militares de direita, a pretexto de combater a subversão e a corrupção, e "salvar" o País do "bolchevismo", tomaram o poder pelas armas e, no poder, permaneceram quase duas décadas. A esse golpe de Estado, semelhante a todos os outros que já se tomaram rotina na história do nosso Continente, chamaram de "revolução". O golpe precisava justificar-se, forjar sua ideologia que, aliás, já estava pronta, a "doutrina" da segurança nacional, elaborada na Escola Superior de Guerra, apelidada, não se sabe porque, de Sorbonne. Ideologia exótica, alienada, importada dos Estados Unidos da América do Norte. Em nome dessa doutrina, os militares formados pela "Sorbonne" da Pátria, paradoxalmente Vermelha, instauraram no País a ditadura, o governo despótico da minoria armada, a tirania, como prefere dizer Montesquieu.

E, para "salvar" o País da corrupção e da subversão, do "perigo bolchevista", cassaram mandatos populares, suspenderam direitos políticos, demitiram, aposentaram e exilaram, reprimiram e oprimiram. E, quando a mocidade brasileira, levada ao desepero, desencadeou a luta armada, não hesitaram em recorrer à tortura, o mais hediondo e covardes dos processos de luta. As novas gerações, daqueles que hoje têm entre quinze e vinte anos, não sabem o que foi esse tempo, de terror e angústia, em que o povo brasileiro, exilado de seu próprio território, viu-se privado, pela força, de qualquer participação no processo político. Em nome da democracia, instauraram a ditadura; em nome das tradições cristãs de nosso povo, prenderam, seqüestraram, torturaram e mataram; e, em nome da segurança nacional, criaram no País um clima de ódio e de violência, de total insegurança, pois qualquer um, a qualquer hora e em qualquer lugar, por qualquer motivo, ou sem motivo algum, podia ser preso, algemado e desaparecer para sempre, como aconteceu com tantos.

Os pretextos não eram novos, porque remontam do século IV antes de Cristo. Sócrates, o melhor homem do seu tempo, não foi acusado de corrupção e subversão, e condenado a beber cicuta na prisão de Atenas? E o Cristo também não foi considerado subversivo e por isso condenado ao martírio da Cruz? E o nosso Tiradentes, não pretendia subverter a ordem vigente, libertando-nos da dominação portuguesa? Que tem sido a história, em seus momentos positivos, de avanço e de progresso, senão a história das subversões? A Revolução Francesa não foi uma subversão contra o "antigo regimen", aristocrático e feudal? E a Revolução Russa não foi uma subversão contra autocracia tzarista, reacionária e obscurantista?

Instaurando a ditadura, a serviço do status quo, capitalista e burguês, o golpe de 64 foi o contrário da revolução, contra-golpe reacionário, destinado a conter, a impedir a revolução. Os processos empregados para manter a minoria armada no poder também não foram novos nem originais. No Livro V, a propósito da tirania e das regras a que se deve obedecer para perpetuar-se no poder, diz Aristóteles. Nivelar as elites e anular os espíritos superiores; proibir as refeições em comum; reprimir a cultura intelectual, proibir a formação de círculos literários e reuniões de estudo; destruir a nobreza da alma e a confiança; impedir que os cidadãos se conheçam; vigiar constantemente os súditos e informar-se sobre tudo o que dizem e fazem, empregando espiões; estimular as querelas entre os cidadãos; empobrecer os súditos, cobrando pesados tributos e fazendo que, absorvidos pelo trabalho quotidiano, não tenham tempo de conspirar; fomentar a delação... Resumindo, diz Aristóteles, as principais regras são as seguintes: aviltar a alma dos súditos, semear á discórdia entre eles e torná-los incapazes de ocupar-se com a coisa pública. Com algumas variantes, não foi o que fizeram os "revolucionários" de 64?

Já se disse que a árvore se conhece pelos frutos. Quais foram os frutos do golpe militar de 64 pelo qual a nação pagou um preço tão alto? Nossos melhores homens excluídos da vida pública, monopolizada pela minoria prepotente e incapaz. Centenas de moços sacrificados, pelo terrorismo e pela droga, toda uma geração perdida, confinada, pela força, na vida privada, sem horizonte. O processo de auto-consciência nacional, iniciado pelo ISEB, brutalmente interrompido, em favor do obscurantismo reacionário. O País desarticulado e acéfalo, sem liderança espiritual, pois precisaríamos de um Péricles, em lugar de oficiais eqüestres, nostálgicos das coudelarias. O Estado convertido em entidade estranha, hostil e ameaçadora, de que só se esperava o aumento dos tributos e a violência em relação aos cidadãos.

A ditadura militar precipitou o País na crise mais grave de sua história. Dívida externa que nos toma uma colônia de banqueiros e que jamais poderemos pagar. Dívida interna de trilhões de cruzeiros. Inflação galopante e incontrolável, com alta contínua dos tributos, bens e serviços. Recessão, desemprego, miséria, fome, violência, furtos e crimes de morte, nas grandes e também nas pequenas cidades, situação de total insegurança, jamais vista no País. E a corrupção institucionalizada, nos altos escalões do governo e nas empresas nacionais e internacionais. Porque o que corrompe é o dinheiro e nenhum regime é mais propício à corrupção do que a ditadura fascista, o dinheiro a serviço do poder e o poder a serviço do dinheiro.

Esse o fruto, o espólio da "revolução". A corrupção, a insolvência, um país falido. E o conselho está nos Evangelhos, "toda árvore que não produz bons frutos deve ser cortada e lançada ao fogo".

Roland Corbisier (Filósofo)

Matéria publicada na edição 28 do Jornal Inverta em 1º de abril de 1994