Do Terror e da Guerra

 

Desde o ataque de 11 de Setembro de 2001 às torres gêmeas do WTC (World Trade Center), em Nova Iorque, e ao Pentágono, em Washington D.C., nos EUA; cuja autoria é atribuída à “Rede Al Qaeda” (organização paramilitar, liderada por Osama Bin Laden), a questão do terror passou ao primeiro plano na conjuntura política internacional. O governo dos EUA desencadeou uma ampla ofensiva contra o que denominou de terrorismo, em todo o mundo, elegendo como inimigos principais a organização de Osama e um leque de países que nomeou como “eixo do mal”: Afeganistão, Iraque, Síria, Irã, Líbia, Coréia do Norte, Sudão, Etiópia, etc. Embora muitos explicassem a reação americana à crise geral do capital iniciada três anos antes, em 1998 na Ásia, através do crash da Bolsa de Hong Kong, seguida pela Rússia e depois Brasil, a escatologia do combate ao terrorismo dominou a opinião pública mundial e os dois anos que se seguiram foram marcados por dois espetáculos dantescos de destruição, assassinatos, terror e barbárie de duas guerras: contra o Afeganistão e o Iraque.

A vitória das forças militares dos EUA e aliados sobre as forças armadas oficiais destes países foi total e inquestionável. Na primeira guerra, contra o Afeganistão, iniciada em outubro de 2001, esta vitória expressou-se na derrota dos Talibãs, na constituição de um novo governo títere e na reorganização das forças armadas do país; na segunda, contra o Iraque, iniciada em 20 de março de 2003, a vitória militar foi tão estrondosa que o próprio presidente iraquiano Saddan Hussein foi capturado e está preso, aguardando julgamento, e o novo governo é dirigido diretamente pelos americanos. A fúria norte-americana contra o “terrorismo” se apresentou tão monstruosa que os demais países da famosa lista do “eixo do mal” trataram de rapidamente se recompor no campo diplomático, atendendo às suas exigências econômicas, políticas e militares; com exceção da Coréia do Norte, que ao contrário de dar tiros para o alto e prometer a mãe de todas as batalhas, retomou o programa nuclear firmando sua condição de soberania.

Diante destes acontecimentos, a liderança norte-americana sobre o mundo capitalista novamente se apresentou hegemônica e incontestável; sua declaração de guerra ao terrorismo, fundamentada no direito à autodefesa, reivindicou a ação preventiva através da qual leva adiante sua campanha militar, obrigando aos demais países capitalistas, organizações e fóruns internacionais a sustentarem suas teses e ações unilaterais. Na guerra contra o Iraque, ao contrário da guerra contra o Afeganistão, mesmo a Alemanha, França e Rússia se negando a enviar tropas e não concordando com a guerra, acabaram aceitando os fatos e dando suporte às operações militares dos americanos e ingleses; hoje se encontram plenamente integrados no projeto de reconstrução destes países, por outras palavras, participam da pilhagem das riquezas naturais dos mesmos.

Entretanto, toda esta realidade que parecia pender inexoravelmente para reafirmar, não somente a liderança norte-americana sobre o mundo capitalista, como sua condição de hegemonia militar, rapidamente se desfez, projetando uma nova atmosfera sombria sobre o ocidente capitalista: a da guerra irregular e total sob forma de terror. A fobia e terror aos ataques da rede Al Qaeda lançaram-se definitivamente sobre o velho continente europeu e sua porta de entrada foi, nada mais, nada menos, que a Espanha de Aznar, aliado de primeira hora de Bush e sua campanha internacional “antiterror”. O ataque ao metrô de Madri, neste 11 de março de 2004, matou 200 pessoas e feriu 400. Porém, mais que destruir trens e estação de metrô, matar 200 pessoas, ferir outras 400 e insuflar o terror, levou à derrota eleitoral de Aznar e seu PP nas eleições presidenciais deste país, trazendo ao governo, novamente, o PSOE, o Partido Socialista Operário Espanhol, de Sapatero. Este acontecimento, mais que ferir, mortalmente, os braços de sustentação americana na Europa, quebrou as ilusões das oligarquias financeiras de eternizarem sua política econômica neoliberal e seu mundo globalizado.

Como se pode ver, a história da luta de classes, mais que destruir ilusões e desfazer consensos, também prega peças nos poderosos. No caso da Espanha, o sinal é evidente: o resultado das eleições presidenciais mostrou claramente a nova tendência dominante naquele continente, pois, assim como Aznar, a roda viva desta conjuntura parece apontar também para Blair, na Inglaterra, e Berlusconi, na Itália; isto se chegarem até às eleições, pois nunca é demais lembrar que os mestres em golpes são os nossos colonizadores europeus. Contudo, o capítulo final desta nova conjuntura histórica parece encaminhar-se para um momento decisivo, as eleições americanas que estão na ordem do dia. Aqui, mesmo com todo o aparato de comunicação de massa e poder de corrupção, a opinião pública parece preparar um grande NÃO ao farsante Bush, todas as pesquisas são unânimes em mostrar que o candidato democrata John Kerry está na frente da preferência popular. Um outro detalhe é que Bush guarda algumas cartas na manga para trabalhar a sede de segurança das massas, tais como o Julgamento Público de Saddan, ao vivo e a cores, inclusive com depoimento de Bush.

Entretanto, a questão fundamental colocada por este novo ataque terrorista, em Madri, ainda não foi efetivamente respondida, posto que ela tem por problema saber até que ponto se pode qualificar esta ação como uma ação terrorista, entendida no sentido tradicional? Ela foge ao padrão dos atos terroristas considerados tradicionais na Europa e no mundo, pois o número de vítimas ganha a dimensão de massa, e os alvos escolhidos parecem indicar isto mesmo. Neste aspecto, é importante lembrar que semelhante forma de ação militar é uma tradição dos atentados produzidos pelas organizações islâmicas. E, talvez seja melhor entendê-la como ato de guerra, numa perspectiva real do que é uma guerra total, sem os mesmos recursos tecnológicos dos EUA. Naturalmente, que o milenarismo presente na ideologia do Islã contribui para a dimensão de massa das tragédias, mas não são menos cruentas que os bombardeios de aviões e mísseis sobre as cidades de densa população como Bagdá, Kabul, e etc.; quem vê no manto da oficialidade a cobertura para o genocídio e o extermínio, como se processa diuturnamente na Palestina pela ação de Israel, que desperte a consciência de que não existe guerra “limpa”, sem “sangue”, sem “carnificina”, sem “terror”, e sem “terrorismo”. O exemplo da II Guerra Mundial é incontestável: por um lado, o Exército Vermelho, na defesa de Stalingrado e na marcha sobre Berlim, levando às últimas conseqüências de heroísmo e honra militar o ato de guerra; por outro, o genocídio e o extermínio de bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagazaki.

O Terror mesmo é algo tão preso à política e à guerra, quanto à guerra seja entendida como prolongamento da política por outros meios, como disse Clauwsevitz, e neste caso, o terror que se apresenta nas ações das organizações militares e estados islâmicos contra o capitalismo ocidental, ele não deixa a menor sombra de dúvida quanto a sua condição de ato de guerra, logo, uma guerra sem quartel contra os EUA e aliados. Portanto, antes de classificar o ato de terror e fazer ironias a esta forma de luta, o mais importante é saber qual o seu significado e sentido histórico. No caso do WTC, seu significado foi, para seus autores, o mesmo reivindicado pelos EUA para desencadearem sua campanha antiterror e guerras: a autodefesa e a ação preventiva. Já o sentido histórico, foi mostrar a crise do capital e o abismo a que se projeta toda a humanidade sob a liderança das oligarquias financeiras dos EUA. No caso do recente atentado em Madri, ele teve significado e sentido históricos idênticos, pois apenas confirma a irreversibilidade da crise geral do capital e da transformação histórica do atual modo de produção social. Agora, veremos como a população americana reagirá ao mesmo. Quanto à crueldade e barbarismo da ação, a explicação não é ideológica, é pura e simplesmente tecnológica. Por isso é que, mais do que nunca, a realidade confirma a possibilidade histórica do Comunismo. A questão é, como diz Fidel: Socialismo ou barbárie!

Todo o nosso pesar ao povo espanhol.
Todo o nosso apoio à luta pela revolução!
Proletários de todos os países, uni-vos!

Rio de Janeiro, 19 de março de 2004

P. I. Bvilla pelo OC do PCML (Br)