Quem faz o Movimento?

Reproduzimos na integra entrevista concedida por Theotonio dos Santos, publicada em agosto de 1995 no Jornal INVERTA Nº 57

Theotônio dos Santos, intelectual marxista de reconhecimento internacional, com mais de 40 títulos publicados no Brasil e no exterior, em diversos idiomas, e destacado teórico do movimento revolucionário brasileiro. Iniciou sua militância política no movimento estudantil, criando a juventude trabalhista. Foi fundador da POLOP (Política Operária), movimento revolucionário que deu origem a várias organizações. Com o golpe de 1964, exilou-se no Chile, e lá, em contato com vários intelectuais e revolucionários exilados, produziu a Teoria da Dependência. Theotônio é membro do Conselho Editorial do INVERTA. (Entrevista publicada em agosto de 1995 no INVERTA nº 57)

 

INV - Theotônio, qual foi a sua origem de classe? Cidade onde nasceu? As condições de vida?

 

TS - Nasci no interior de Minas, em Carangola. Depois fui para Muriaé, onde estive a maior parte de minha juventude. Sou de uma família basicamente pequeno-burguesa, nas condições do interior, de posição social bastante importante. Típica família mineira, muito grande.

 

INV - Como se deu a sua ligação, como um filho dos setores médios, num município onde predominava o setor agrário, com a teoria marxista?

 

TS - Depois que saí do interior, porque fui expulso por fazer críticas a um professor, fui para o Gremlin, que era um colégio moderno e comecei a ter contato com socialistas, comunistas. E depois em Belo Horizonte, onde estabeleci esse contato pela via intelectual e pelo movimento estudantil.

 

INV - Então você iniciou sua militância com o movimento estudantil?

 

TS - O movimento estudantil foi o iniciador do meu relacionamento com a militância partidária. Optei pelo trabalhismo, na ideia de ver dentro dele uma ala revolucionária. Talvez um dos primeiros que pensara assim as coisas. Formamos a Juventude Trabalhista entre 56 e 57, com gente de origem de esquerda, marxistas, outros nacional-democráticos, outros com alguma formação marxista, alguns mesmos ligados ao Partido Comunista, que militavam dentro do Partido Trabalhista, e os católicos de esquerda, que entrei em contato em Minas com a formação da JEC, Juventude Estudantil Católica, em que o Betinho era uma das figuras mais importantes. Criamos uma revista que se chamava Mosaico, foi uma das bases ideológicas do movimento estudantil. Depois criamos o jornal Tribuna Universitária, um semanário tipo metropolitano aqui no Rio. Formei também uma revista com José Nilo Tavares, Silvério Santiago, Maurício Gomes Leite, Barros de Siqueira, Frederico Moraes, Ezequiel Neves, Rokerman, Mashmellow, Carlos Kriber. Éramos um grupo fazendo teatro, cinema. A Juventude Trabalhista foi uma das bases da criação da Política Operária. Ela surgiu do contato com a Juventude Socialista do Rio, da Bahia, São Paulo. Sob a inspiração de uma pessoa que trazia a experiência do movimento operário e da oposição comunista alemã. O Eric, que assinava Odorico Martins, nos dava uma interpretação da História do Movimento Operário, que não era nem do Partido Comunista nem do trotskismo. Nem nos impedia também de que tivéssemos um certo convívio com o pensamento nacional democrático brasileiro, que era um pensamento ativo. O Partido Comunista se fazia nacional democrático. Tínhamos uma posição crítica, exigindo uma postura de classe e não somente nacional diante da realidade brasileira. Quando o PC imprime uma curva na direção de um pensamento nacional democrático que se consolida no Congresso de 1958, definitivamente nos separamos do Partido Comunista. A esquerda cristã evoluía para uma postura de propor um caminho socialista para o Brasil. Também chamávamos para uma luta pelo Socialismo no Brasil. Surge então a Política Operária e a Ação Popular do outro lado, organizando o grupo cristão.

 

INV - Você então foi um dos fundadores da Política Operária, que surgiu no mesmo processo, ao mesmo tempo que a AP. Como foi crescendo sua participação na vida revolucionária, a partir da formação da POLOP?

 

TS - O movimento estudantil era de uma agitação política muito grande. Tínhamos movimento de rua quase diariamente, em torno das questões mais diversas, desde o bonde que aumentava o preço, quando aumentavam a conta de luz, exigíamos a encampação da Força e Luz. Uma militância permanente. Era o momento de avanço da luta de classes realmente excepcional, porque isto se fazia no auge de um crescimento econômico. As primeiras greves nacionais significativas depois da década de 17, anarquista, foram feitas em 58: a greve pela paridade foi feita pelos ferroviários, que foi um dos setores mais importantes na reorganização do movimento operário. Daí se vai para a CGT, que ainda não era central, era o Comando Geral dos Trabalhadores. Isso foi na reunião de 61, 60, aqui no Rio, quando se fez a primeira reunião operária unificando o movimento operário brasileiro, no qual eu participei como representante estudantil, tínhamos posição e participação dentro do Comando. Já existia a POLOP. Começamos a atuar com propostas. Uma delas, que não sei se estava certa, era terminar com o imposto sindical; contra o peleguismo, propomos um movimento sindical mais participante, de massa, mais de base empresarial. Levantamos o movimento camponês em Minas com bastante força e depois no resto do país, e eu, já como dirigente da POLOP, acompanhava o movimento de massas no país todo. Não tínhamos lideranças de massas importantes, mas uma participação significativa tanto o movimento estudantil, o movimento operário e o movimento camponês, que eram as três grandes forças daquela época. Passamos a constituir algumas bases nesses movimentos, e começávamos então a representar uma ala mais ou

menos organizada do movimento revolucionário, como também tínhamos inserção no Partido Trabalhista em Minas, Partido Socialista de São Paulo, alguma influência na vida política eleitoral. Na verdade, não tínhamos força para levantar candidaturas. Na medida em que a influência da Revolução Cubana cresce no país, a questão da luta armada se coloca logo no início da formação da POLOP. Fomos contra a linha guerrilheira foquista. Um dos primeiros artigos do nosso jornal foi contra exatamente a linha guevarista, a concepção de que era possível uma guerrilha saindo do campo para a cidade. Mas tínhamos uma enorme simpatia pela Revolução Cubana, colocávamos como tarefa política a defesa da Revolução Cubana. A linha foquista foi um atraso para a esquerda na década de 60, realmente destruiu o movimento de esquerda, nessa tentativa de formar um movimento guerrilheiro sem base social, definida a partir de grupos. Mas passamos a ter esse processo de relação com a questão da luta armada, e inclusive com o setor militar. Quando Jânio se demite, forma-se o movimento da legalidade. Surge movimentos como o do Brizola, que era um movimento de auge do movimento social brasileiro. E nesse momento a questão da luta armada passa a ser uma questão de caráter nacional e dentro dos militares surge o movimento dos sargentos. O comando nacional dos sargentos tinha muita simpatia pelas nossas ideias, que era a quarta perna do movimento de massas brasileiro. O movimento dos sargentos chegou a eleger candidatos. Uma organização dentro das Forças Armadas. Esse forte movimento de massas convergiu para a formação da Frente de Mobilização Popular, que reunia os representantes da UNE, do movimento secundarista, da CGT, do movimento camponês, o Comando Nacional dos Sargentos, os oficiais, a Frente Parlamentar Nacionalista, onde Neiva Moreira era secretário-geral. Dentro de cada partido havia uma ala revolucionária, até dentro da UDN havia uma ala de esquerda. Dentro do parlamento havia uma militância de esquerda. Isto vai conduzir a 64, porque na verdade o golpe se dirigiu contra esse movimento de massas em ascensão.

 

INV - Essa Frente de Mobilização Popular competia um pouco com o Pacto de Unidade e Ação em São Paulo?

 

TS - O PUA era uma coisa de massas muito do movimento operário anarquista de São Paulo. Fizeram a greve geral de São Paulo de 54. Depois teve uma greve em 55. O Pacto de Unidade e Ação foi a base da criação da CGT. Já a Frente de Mobilização Popular unificava tanto o movimento operário, o movimento estudantil e o camponês, e mais as esquerdas. Era como um grande conselho das forças populares. E a figura do líder era o Brizola. Nesse período de auge do movimento social, a gente discutia realmente a passagem para o regime socialista.

 

INV - Com o golpe militar de 64, o período de repressão abateu-se sobre todo o movimento. Como foi a sua participação no processo de resistência ao Golpe?

 

TS - Achávamos que haveria um golpe do Jango ou um golpe de direita. Não havia condições para manter o quadro democrático no país, porque o movimento de massas era muito forte. Vínhamos nos preparando para uma situação de ilegalidade. Durante todo o ano de 63 e 64 houve várias ameaças de golpe. Tínhamos aparelhos para nos esconder. Durante o golpe, eu estava em Brasília, na Universidade. Estava numa reunião de professores tentando armar algum tipo de resistência, quando surgiu policiais me procurando e um aluno veio para a reunião me avisar. Fui levado para um aparelho, com minha mulher que estava esperando filho, ficamos ali um mês e pouco. Depois fui para São Paulo, fiquei dois anos clandestino, reorganizando a POLOP. Tivemos um papel bastante ativo na reestruturação clandestina no Brasil ao ponto que, das forças ativas contra a ditadura, a POLOP foi a base de três grupos guerrilheiros e outros grupos. Nossas teses pareciam verdadeiras. O pensamento social democrático não dá, é preciso radicalizar para uma posição

mais avançada de caráter socialista. Neste momento, o Brizola estava no Uruguai organizando o comando de um movimento que terminou aceitando a linha guerrilheira. O Brizola aceitou essa linha um pouco contra a visão dele. Na verdade, o que ele queria fazer era um movimento a partir das milícias do Rio Grande do Sul, tomar o estado e partir para o resto do país, imaginava uma coluna. Na Marinha, havia uma conspiração muito grande. Entramos lá dentro. Depois o grupo dos sargentos, que terminou ligando-se ao Brizola para formar a luta de Caparaó.

 

INV - Você falou que da POLOP se formaram três novas organizações?

 

TS - Dentro da POLOP começou uma discussão muito grande sobre ir para a luta armada ou não. E o pessoal mais jovem, como Juarez Britto e outros, resolveram partir para a ação. Formaram a VPR, depois a Colina, em Minas. E depois a Varpalmares. Eu já não estava mais no Brasil. Saí em 66. Quando comecei a ter um certo questionamento dessa linha veio a minha condenação em Minas, 15 anos de prisão. Me senti sem base e preferi o exílio. Fui para a Embaixada do Chile na perspectiva de preparar a volta depois que se definisse essa luta interna dentro da organização. Éramos a favor de uma organização perfeitamente armada, não havia nenhuma perspectiva de luta contra a ditadura pela via pacífica, mas não sob aquelas formas. Mas perdemos o controle. Teve um movimento de massas importante em 66 e 68, chegou a ter o Congresso da UNE e tudo. Mas depois fecha tudo. O caminho guerrilheiro vai se consolidando como alternativa para a massa estudantil, que tinha apoio. Na medida em que começaram as ações armadas, esse apoio foi recuando. A classe média, que no primeiro momento achava que ia poder se confrontar com a ditadura, começou a sentir que essa confrontação era muito dura. Depois, uma parte grande do movimento operário começa a se acomodar. A classe média também se acomoda. O movimento se isola totalmente. E a repressão dura arrebenta com o movimento.

 

INV - No Chile, com a concentração de revolucionários, foi surgindo uma corrente que começou a se definir pela Teoria da Dependência. Como foi essa formação?

 

TS - Foi um momento de grande questionamento da teoria social em seu conjunto, dos parâmetros científicos para analisar o capitalismo a nível mundial. Começa a se perceber a crise desse sistema, o que nos levou a buscar uma alternativa não só política, mas científica. Voltamo-nos para a leitura de "O Capital". No Chile, formamos vários grupos de leitura, com Marta Harneck, o grupo de Che, nós do Brasil. Fizemos a crítica do Programa Nacional Democrático, objetivo das lutas do Terceiro Mundo. Vimos que ele não tinha condições de triunfar nas condições do capitalismo mundial: não havia possibilidade de um capitalismo nacional. A possibilidade de desenvolvimento do capitalismo só era viável sob a condição de dependência. Isso no Brasil ficou mais claro, porque a industrialização passou a ser feita com o capital internacional.

 

INV - Como você vê os diferentes enfoques da teoria aqui no Brasil?

 

TS - Aqui, nós sofremos um processo de divisão, que ficou claro na década de 70. Fernando Henrique liderou essa cisão. Ele se apresenta como autor da Teoria da Dependência no Brasil. É muito chato, porque foi um trabalho coletivo. Fizemos um acordo de que não há um caminho fora desse sistema mundial que permita um desenvolvimento industrial dentro da economia capitalista. Nós propúnhamos, há uma alternativa para isso: é o Socialismo. FHC disse que essa era uma alternativa decadente, que tínhamos que aceitar a negociação e tentar influenciar nas condições dessa dependência.

 

INV - Você acha que a crise hoje é dos comunistas que se formaram ao longo dessa experiência histórica ou do movimento comunista?

 

TS - Eu aceito as ideias de que a crise não é do comunismo como movimento histórico. Eu não tenho dúvidas que a humanidade avança para o Socialismo. Eu não vejo nenhuma outra forma de organizar a humanidade senão nesse sistema. Eu considero que essa crise tem como fator principal o avanço do socialismo. O problema do Socialismo hoje é que Socialismo é uma questão global da humanidade, não de uma nação ou outra. É a gestão do planeta. A confrontação entre socialismo/capitalismo ameaçava a sobrevivência da humanidade. O povo soviético capitulou dessa posição de ser a vanguarda desse novo movimento social, a população se cansou da responsabilidade de dirigir um processo que estava tendo um custo brutal. Eles não queriam deixar de ser socialistas. O neoliberalismo se aproveitou. A dissolução da União Soviética foi parte desse desvio. A sociedade soviética está unida, não há como viver separado, porque há uma integração grande das regiões. O Socialismo vai voltar numa base muito avançada.

 

INV - Diante da crise de direção revolucionária mundial nas novas condições, qual a possibilidade de reorganizar, refundar as forças comunistas?

 

TS - Eu não vejo como uma refundação do passado, mas de uma coisa nova que vai se construir. Ela não vai ser só a experiência comunista, mas vai integrar um conjunto de experiências. Conviver com civilizações, com uma pluralidade muito grande. Não será possível reconstruir um movimento a partir de uma doutrina. Muitas ideias e valores são de comunidades inteiras. O papel do marxista é de protagonista.

 

INV - Qual o papel do INVERTA?

 

TS - O primeiro papel que eu acho fundamental no Inverta é o de ser um centro de resistência. É um momento em que o movimento neoliberal instaurou o terrorismo de tal maneira que as pessoas com uma formação teórica ou com compromissos vacilaram e passaram para o outro lado. O caso de FHC é de vacilação. Ele criou uma situação que facilita esse terrorismo. Nesse momento, o Inverta manter uma linha que não concede isso é um marco. Ele devia evoluir da posição de resistência para uma posição de reconstrução ou refundação. Fundar algo que venha a ser continuidade do processo histórico, mas que esteja numa etapa nova e represente uma fase superior de reconstrução.