Governo do Equador corta orçamento da Amawtay Wasi e intensifica perseguição contra lideranças indígenas

Governo de Daniel Noboa amplia a perseguição política e financeira contra dirigentes indígenas, defensores de direitos humanos e lutadores sociais em todo o país.

A Universidade Intercultural das Nacionalidades e Povos Indígenas Amawtay Wasi enfrenta uma crise sem precedentes após o corte de mais de 30% em seu orçamento, enquanto o governo de Daniel Noboa amplia a perseguição política e financeira contra dirigentes indígenas, defensores de direitos humanos e lutadores sociais em todo o país.

A redução do orçamento, inserida no pacote de ajustes neoliberais alinhado aos acordos com os Estados Unidos e o Fundo Monetário Internacional, ameaça diretamente o acesso à educação superior de milhares de jovens indígenas. Para muitos, a Amawtay Wasi representa a primeira oportunidade familiar de ingressar em uma universidade, constituindo ferramenta essencial para superar a exclusão histórica imposta pelo Estado aos povos originários ao longo de mais de 500 anos.

Paralelamente, o Executivo equatoriano tenta assumir o controle da direção da universidade por meio de manobras que, segundo denúncias, beiram a ilegalidade usando uma suposta intervenção sem sustento legal. O objetivo, apontam integrantes da comunidade acadêmica, seria silenciar vozes críticas e padronizar o ensino segundo padrões coloniais ditados pelo norte global.

Perseguição política e financeira

A ofensiva contra os povos indígenas não se limita ao campo educacional. Em 14 de abril, o líder Darío Iza, presidente do povo Kitu Kara, filiado à CONAIE, foi convocado a prestar depoimento sob a acusação de "enriquecimento privado não justificado". O processo é resultado direto de sua participação ativa nos processos de luta e resistência contra as políticas neoliberais dos últimos governos equatorianos.

Apesar da falta de elementos probatórios consistentes, o Estado já abriu mais de 63 investigações contra dirigentes indígenas, defensores de direitos humanos, defensores da natureza e lutadores sociais. A prática de judicializar a oposição não se traduz apenas nas longas horas de comparecimento a tribunais penais, civis e até eleitorais, mas se estendeu a uma perseguição financeira sistemática.

Mais de 60 pessoas perderam suas fontes de sustento depois que bancos, em conluio com o governo, fecharam suas contas e chegaram a confiscar os fundos, sem que houvesse processo judicial algum ou ordem de juiz competente. O próprio Darío Iza foi demitido de seu trabalho por ordens do governo, ficando sem condições de subsistência. Em entrevista coletiva antes de seu depoimento, acompanhado pelo presidente da ECUARUNARI, Leonidas Iza Salazar, o líder explicou que sua comunidade e seu povo o acolhem e defendem coletivamente, como parte da cultura ancestral de proteção aos dirigentes.

A última agressão contra Pachakutik

No mesmo sentido, o día 28 julho o Partido Plurinacional e Intercultural Pachakutik – Novo País (Pachcakutik ou PK), foi informado sobre a abertura de um expediente sancionador no Tribunal Contencioso Eleitoral do Equador, sob uma suposta denúncia do Conselho Nacional Eleitoral por umas faturas “não entregues’ sobre a consulta popular de 2024.

Esta ação extraordinária fica envolvida com o processo de eliminar os partidos políticos de oposição perto das eleições que serão realizadas em novembro deste ano. De receber uma sanção o Movimento Pachakutik os povos indígenas do Equador ficariam sem voz nem possibilidade de obter representação nos seus próprios territórios.

Alinhamento com Washington e política neofascista

O governo de Daniel Noboa — que também possui nacionalidade estadunidense — tem impulsionado uma política neoliberal e neofascista que mergulha o país em profunda crise, ao mesmo tempo em que se alinha aos interesses estratégicos dos Estados Unidos na região, servindo como ponta de lança para Washington.

Diante desse cenário, crescem os apelos nacionais e internacionais pelo desembolso imediato dos recursos para o funcionamento pleno da Amawtay Wasi, pelo fim da perseguição política e financeira contra lideranças indígenas e pelo respeito irrestrito à autonomia universitária e aos direitos dos povos ancestrais.

Todas estas ações representam a virada ditatorial do atual regime equatoriano para conseguir aplicar os interesses dos EUA no continente.

Por Jairo Estrada Álvarez

Professor do Departamento de Ciência Política

Universidade Nacional da Colômbia

Publicado pelo Inverta em 31 de julho de 2026

 

bannercriseorganicadocapital.png