Ferramentas Pessoais
Você está aqui: Página Inicial Edição Impressa Edição 436 Editorial

Quem Precisa da OEA?

Essa matéria foi publicada na Edição 436 do Jornal Inverta, em 02/06/2009
— registrado em:

Editorial do Jornal Inverta sobre a Solidariedade a Cuba

A Solidariedade a Cuba é maior que o Bloqueio dos EUA!


 

Uma vez mais Cuba torna-se o centro do debate na OEA – Organização dos Estados Americanos – porém, desta vez, pela força dos países que compõem a ALBA – Alternativa Bolivariana para as Américas –, Nicarágua e Honduras, que encaminham distintas propostas para revogar a resolução que em 1962 expulsou Cuba desta entidade. Tanto Nicarágua, como Honduras, entendem que tal posição da OEA significa reparar um erro histórico: a primeira afirma que o ato de exclusão de Cuba foi “um ato político, imposto pelos Estados Unidos apoiado pelos governos alinhados e a condenação do bloqueio”; a segunda prende-se apenas à flagrante contradição da expulsão com os princípios basilares da Carta que constituiu a OEA, de “não ingerência e autodeterminação”. Os Estados Unidos, uma vez mais, tentam manobrar a resolução impondo condicionantes como “eleições diretas e direitos humanos”, para não sair mal do processo e reafirmar a sua nova face na política externa com o governo Obama.

 

Cuba por sua vez respondeu, primeiramente pelas palavras de seu primeiro ministro Raul Castro: "Antes de integrar (Cuba) à OEA, primeiro se unirá o mar do Norte com o mar do sul e nascerá uma serpente em um ovo de águia. Com americanos ou sem americanos, a OEA tem que desaparecer". Em seguida Fidel Castro se pronunciou: “A OEA tem uma história que coleciona todo o lixo de 60 anos de traição aos povos da América Latina... envolvida em ações agressivas que resultaram na morte de milhares de pessoas na região”. E respondendo ao secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, que afirmou que Cuba deverá ser "aceita" pelo organismo. Disse Fidel: "Ele sabe que nós não queremos nem sequer escutar o nome dessa vil instituição". Sem dúvida Cuba, Fidel e Raul têm toda a razão e o direito de pedir o fim da OEA pelo seu histórico de traição ao povo latino-americano, bem como foi a cobertura de crimes execráveis e hediondos não somente contra Cuba mais a cada um dos países que viveram nos últimos sessenta anos as intervenções econômicas, políticas e militares dos EUA, comprando vidas de milhares de latino-americanos, pela tortura, assassinatos, golpes, invasões, bloqueio econômico e saque das suas economias nacionais.

 

O jornalista Oscar Sánchez Serra, do Granma Internacional escreveu um extenso artigo enumerando alguns destes crimes e também que os mesmos estão diretamente ligados ao ideário estadunidense desde a declaração da doutrina Monroe, em 1823: “América para os Americanos”. Mostrou que a conferência Pan-americana, convocada pelos Estados Unidos, em 1889, sob pretexto da unidade continental, não passa de atualização da doutrina Monroe, relembrando as palavras de José Martí: “Para que ir de aliados, no melhor da juventude, na batalha que os EUA se preparam para travar com o resto do mundo?”. Ele afirma: “E tinha razão, entre 1899 e 1945, durante oito conferências similares, três reuniões de consulta e várias conferências sobre temas especiais, foi-se estabelecendo o avanço da penetração econômica, política e militar dos EUA na América Latina”. No desenrolar do artigo, mostra os fundamentos da OEA: instituição a serviço do seu expansionismo e controle regional, base geopolítica de hegemonia frente a ONU; um organismo vertebrado pelo Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) e pela política do Big Stick. É o que se pode concluir do artigo: “A Vergonhosa História da OEA”. 1

 

Sem dúvida, não se pode concluir outra coisa do histórico americano de intervenções e anexações iniciado na América Latina, iniciando pela usurpação da Flórida em 1811, diante da ocupação da Espanha pelas tropas de Napoleão. Com a declaração da doutrina Monroe, em 1823, e do “Destino Manifesto”, a usurpação do Texas, Califórnia, de Novo México, do México, entre 1840-1856). Foi neste processo que ficou imortalizada a célebre expressão de Porfírio Diáz: “Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”. Mas é preciso adicionar ao processo da OEA o sentimento histórico de cobiça e de soberba dos Estados Unidos a Cuba. Em 1826, quando Bolívar convoca o I Congresso Pan-americano no Panamá tendo por eixo central a libertação de Cuba e de Porto Rico, ainda sob jugo espanhol, os Estados Unidos além de unir-se a Inglaterra e manobrar para malograr o Congresso, opondo-se à guerra de independência e fazendo com que os delegados do Brasil e Argentina não comparecessem ao mesmo, nas instruções do então presidente Jonh Quincy Adams e do secretário de Estado Henry Clay, o delegado expõe a cobiça histórica dos Estados Unidos sobre Cuba: “Nenhuma potência, nem mesmo a Espanha... tem um interesse tão grande no futuro desta ilha quanto os Estados Unidos... Não desejamos qualquer mudança em relação à sua posse ou à sua situação política... Não veremos com indiferença a transferência para outra potência europeia que não seja a Espanha. Também não queremos que ela seja cedida ou anexada a um novo Estado americano”.2

 

Esta declaração dos Estados Unidos, não mais repetia por outras palavras, o que disse Thomas Jefferson à Monroe: “Devemos colocar-nos a seguinte questão: desejamos adquirir para nossa Confederação algumas províncias hispano-americanas?... Confesso sinceramente que sempre fui de opinião que Cuba seria a aquisição mais interessante que poderíamos fazer para juntar ao conjunto dos nossos Estados... O domínio desta ilha e da Flórida nos daria o controle do Golfo do México e dos países do Istmo...”. Mas se Jefferson justificava geopoliticamente a importância da anexação de Cuba (quiçá a razão da base de Guantânamo), já o mesmo inicialmente não se aplicava em relação à Bacia do Prata, como deixou claro Pablo Max Ynfrans, historiando a expedição punitiva dos Estados Unidos ao Paraguai em 1857, ao mencionar o brinde dos oficiais da armada americana: “Ergo a minha taça... para que as nossas dificuldades com o Paraguai terminem e nós acabemos por anexar toda a bacia do Rio de la Plata...”. No final do século as intervenções americanas se multiplicaram: Havaí, Porto Rico, Filipinas, Cuba, Guam, Samoa, os portos da China e Panamá. Mark Twain consternado escreveu: “Pintem-se de negro as listras brancas e acrescentem-se as tíbias e a caveira onde estão colocadas as estrelas”.3

 

Quando os Estados Unidos passa da cobiça a conquista de Cuba - no desenrolar da II Guerra de Independência do país sob a liderança de José Martí e do internacionalista Máximo Gomez, em 1895, que soergueu o brio dos patriotas cubanos, mesmo após a derrota da I Guerra de Independência, que durou 10 anos sob o comando de Antônio Maceo; e as vitórias já colocavam a independência ao alcance do exército libertador - recorre a velha tática das trampas (armadilhas), forjar situações para provocar a intervenção como fez para anexar o Texas, Califórnia, etc., através da explosão do Encouraçado Maine, em Havana, que causou a morte de mais de 250 tripulantes. Neste contexto, o presidente William Mackinley declara guerra à Espanha em 21 de abril de 1898. A batalha teve curta duração e a armada espanhola foi aniquilada em Santiago de Cuba. No desembarque das tropas estadunidenses, entre os Rough Riders, voluntários da cavalaria que ocuparam a Ilha, estava Theodore Roosevelt, o futuro presidente dos Estados Unidos, que iria se tornar o campeão do intervencionismo através da horrenda política do Big Stick. Assim, os Estados Unidos usurpam Porto Rico e Filipinas, além disso, utiliza o artifício da independência cubana desde de então governada militarmente por Leonard Wood, que somente passa às mãos cubanas após uma Assembleia Constituinte, convocada pelo próprio Wood, e a aprovação pela mesma da Emenda redigida pelo senador de Connecticut Orville Platt, mais conhecida como Emenda Platt, em 23 de Maio de 1903.

 

Sob a égide da Emenda Platt Cuba se tornaria vassala dos Estados Unidos, alguns dos artigos desta emenda mostram claramente este fato: artigo I: “O Governo de Cuba não assinará qualquer acordo que permita a uma potência estrangeira obter, para fins navais ou militares, uma parte da ilha...”; artigo III: “O Governo de Cuba aceita que os Estados Unidos possam exercer o direito de Intervir para preservar a independência cubana e a manutenção de um governo adequado à proteção da vida, da propriedade...”; artigo V: dava o direto a instalar bases militares no território cubano. Guantânamo é a lembrança viva deste escárnio à liberdade, independência e autodeterminação dos povos. Em uma carta o governador Wood informava à Roosevelt, em 1903: “Pouca, na verdade, ou nenhuma independência deixou a Emenda Platt a Cuba. Os cubanos mais sensíveis compreendem isso e pensam que a única coisa positiva que lhes resta fazer é pedir a anexação”. Com base nesta emenda, os Estados Unidos interviriam em Cuba em 1906, 1912, 1917. Só em 1934 é que Franklin D. Roosevelt aceitaria retirar “certas cláusulas constrangedoras”.4

 

É assim que se pode entender o quanto representou a Revolução Cubana, liderada por Fidel Castro, Raul e Guevara. Portanto, por trás de todos os argumentos da geopolítica da guerra fria, do reclame dos gusanos da Flórida, por trás dos discursos escatológicos de “liberdades democráticas e direitos humanos”, que embasaram a argumentação dos Estados Unidos na OEA para exclusão de Cuba da mesma, está o orgulho ferido do senhor em sua eugenia em ver aqueles que considera raça inferior, serviçais e escravos, se levantarem livremente e construírem um país igualitário, humano, fraterno, solidário e soberano. Aos senhores é a insolência imperdoável, a ferida que não cicatriza, o exemplo que não deve ser seguido, a fratura exposta que mostra o caminho aos explorados e oprimidos da América Latina e do mundo, que “Sí, és Posible Resistir y Vencer al Império, no sólo Cuba, pero todos los pueblos de Latinoamerica”, como já havia vaticinado Bolívar e Martí! Eis porque a solidariedade a Cuba se tornou maior que a força do império e todas as suas trampas para subjugar Cuba e sua revolução socialista.

 

E para que Cuba necessita da OEA? Aliás, quem dos povos americanos necessita da OEA? Desde sua criação em 1948, esteve ao lado do opressor, inaugurando o seu histórico de sangue pelo silêncio, omissão ou apoiou ao assassinato de Gaitã na Colômbia, a invasão da Baía dos Porcos, se somou ao bloqueio desumano a Cuba, não deu um senão sequer quando a Lei Torricelli, em 1991, tentou reviver a Emenda Platt; apoiou em todas as partes os golpes militares, desde o golpe de estado na Guatemala, em 1952; aos golpes no Brasil, no Chile, na Argentina e etc. (entre 1964 à 1974), os assassinatos, torturas e genocídios das ditaduras militares e seu “Plano Condor”, que custou a vida de 50 mil latino-americanos; a intervenção militar dos Estados Unidos (dos boinas verdes) na República Dominicana em 1965, na Guatemala em 1966, Bolívia em 1967; não deu um senão qualquer diante do massacre da Frente Patriótica na Colômbia, do assassinato de Salvador Allende, em 1973; durante os anos 80, apoiou os contras na Nicarágua em oposição à Revolução Sandinista, apoio à invasão de Granada, o assassinato do General Omar Torrijos no Panamá e depois a invasão deste país pelas tropas norte-americanas para retirar seu próprio ex-agente da CIA General Noriega do governo; nos anos 90 continuou sua história de relevância ignóbil apoiando a intervenção no Haiti; no atual século, o Plano Colômbia, o Plano Patriota e todo o genocídio do governo narcotraficante de Álvaro Uribe na Colômbia; apoiou a tentativa de Pedro “El Breve” contra revolução Bolivariana, e a tentativa de golpe contra Evo Morales na Bolívia. Assim a questão que se coloca é: quem precisa da OEA?

 

Cuba e sua revolução, apesar da OEA, venceram a barreira do isolamento, resistiu a todos os atentados, intrigas e golpes contra-revolucionários patrocinado pelos Estados Unidos, compartilhou os milagres do trabalho proporcionados pela revolução socialista com os países e povos oprimidos do mundo; os milagres da sua medicina revolucionária, da sua educação revolucionária, de sua engenharia, do sua cultura revolucionária, e o seu povo combatente e revolucionário e nesta base arrebatou a solidariedade não somente dos povos da América Latina, mas de todos os continentes. E quanto mais recebeu a solidariedade internacional dos humildes, dos pobres da terra, dos operários, dos povos revolucionários como foi o caso do povo soviético, o ódio e a sensação de impotência corroia os senhores oligarcas estadunidenses e os senhores oligarcas de nosso continente. Mas venceu a tudo isso, inclusive mostrou que a articulação destes abutres, a OEA, não representava nada e a história comprovou. Hoje, diante do fim da “guerra-fria e suja”, este instrumento de intervenção e controle dos povos latino-americanos, já não tem serventia.

 

A OEA não conseguiu isolar nem bloquear a experiência de Cuba. As revolucionárias iniciativas, impulsionadas por Fidel, Raul e Guevara, como foi o caso da Operação Verdade, que resultou na criação da Prensa Latina – Agência de Informação Latino Americana – , a iniciativa de criação do Granma Internacional, quebraram a barreira de silêncio e o bloqueio, fizeram reluzir a estrela de independência, liberdade e igualdade que Bolívar legou a Martí e este a Fidel, Raul, Guevara e a todo povo cubano. Hoje, esta estrela corre pelo continente, é como o complemento necessário à Espada de Bolívar, Sandino e Alfaro; à Lança de Tupac Amarú e à Machete de Zumbi, formando uma Coluna Invicta, como foi a de Luiz Carlos Prestes, da libertação e revolução Continental. Hugo Chávez, na Venezuela; Evo Morales, na Bolívia; Daniel Ortega, na Nicarágua; e os movimentos revolucionários na Colômbia, Equador, Peru, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e no Brasil. A revolução cubana não pode ser detida, a marcha dos povos da América Latina também não: Quem precisa da OEA?

 

Viva Cuba Socialista!

Viva Fidel, Raul e Che Guevara!

Viva a Revolução Continental!

Pátria ou Morte, Socialismo ou Morte: Venceremos!

 

 

Rio de Janeiro, 26 de Maio de 2009

 

P. I. Bvilla

 

Pelo OC do PCML(Br)

 

 

2Perrault, Gilles (Org). Peña, Paco, “As intervenções norte-americanas na América Latina”, in 'O livro Negro do Capitalismo”,Rio de Janeiro: Record, 1999 .

3Idem ob.cit

4Idem ob. Cit.

Ações do documento
Rádio Inverta

Radio Inverta
Rádio Inverta em TESTE: A Revolução está no ar! Mais uma frente de batalha na luta das idéias:

 

Mande seus comentário e sugestões
Correio Inverta
Assine e receba as novidades.
(Required)
INVERTA presente na Exposição Internacional de Bom Jesus do Itabapoana


 

 

 

Visite nosso estande, conheça nossa literatura

Saiba mais sobre a feira
Materiais da Cooperativa
Promoção

Livros

Revistas