Cordel: Da poesia à pesquisa

Do Nordeste ao Sudeste, das feiras à sala de aula, dos clássicos de Leandro Gomes de Barros às pelejas virtuais dos poetas contemporâneos, o Cordel viveu e ainda vive muitas histórias em sua épica trajetória através dos séculos.

Não há novidade em afirmar que o Brasil é um imenso caldeirão cultural. Sua história, marcada pela presença de múltiplos agentes étnicos, legou ao povo brasileiro (e à humanidade) um tesouro de manifestações artísticas sem igual no planeta. Nossos folguedos, lendas, costumes e artes populares têm a força característica duma gente que, a despeito do desprezo e da perene tentativa de malogro que promovem aqueles que detêm o poder econômico, finca os pés no solo que tem debaixo de si e se arvora aos céus, ramificando e frutificando conforme dita sua própria natureza exuberante.

Um dos lenhosos ramos desta árvore, quase caule, é nossa célebre literatura popular em verso, o Cordel, cujo antecessor europeu teria aqui desembarcado a partir das primeiras caravelas lusitanas que aportaram nosso litoral. Em terras brasileiras, ainda guardando resquícios da cultura medieval, o Cordel se desenvolveria de forma tão fantástica quanto muitas de suas aventuras românticas, porém, com autenticidade tal que jamais seria sequer pendurado em cordões até que alguns estudiosos lhe cunhassem tal denominação em substituição aos nomes que lhe deram seus primeiros leitores: “rumance”, verso, folheto...

Do Nordeste ao Sudeste, das feiras à sala de aula, dos clássicos de Leandro Gomes de Barros às pelejas virtuais dos poetas contemporâneos, o Cordel viveu e ainda vive muitas histórias em sua épica trajetória através dos séculos.

Escrever sobre tudo isso não é tarefa das mais fáceis, principalmente se as circunstâncias exigem que todo o assunto seja encerrado numa obra objetiva e pouco volumosa, proeza reservada ao pesquisador sério e comprometido. Agora, se somarmos à capacidade investigativa o dom da autêntica poesia cordelista, temos mais que um tratado sobre o Cordel. E é exatamente isto que nos traz o livro Breve história da Literatura de Cordel, do pesquisador e poeta Marco Haurélio.

Marco é do interior da Bahia, mas hoje vive na capital paulista. Formado em letras, além de autor de títulos consagrados do Cordel, pesquisa o folclore brasileiro, tendo publicado já três livros relativos ao assunto: Contos folclóricos brasileiros, Contos e Fábulas do Brasil e Lá detrás daquela serra. Em 2010 lançou, pela editora Claridade, Breve história da Literatura de Cordel, que em 2015 teve sua segunda edição, revista e ampliada, onde são citados autores, obras, temas, trechos e tudo o mais que diz respeito a este gênero literário, com uma escrita fluida e agradável, voltada ao público em geral e avessa ao rigor academicista a que poderia se prestar.

“Dobrada a esquina do século e do milênio, a Literatura de Cordel do Brasil, contrariando previsões pessimistas, continua viva”. Nesses termos o autor inicia o primeiro capítulo, denominado de Chegança, após uma bela estrofe de abertura no estilo galope à beira-mar. Daí, traça um caminho que, partindo da literatura ibérica quinhentista, desemboca no Brasil da virada do século XIX ao século XX, época em que os pioneiros Leandro Gomes de Barros e Silvino Pirauá, inspirados pela tradição oral e a convivência com os cantadores da região do Teixeira, na Paraíba, iniciam suas carreiras de “poetas de bancada”. Pelejas, ABC’s e romances seriam transcritos, adaptados e criados por poetas como João Martins de Athayde, Luís da Costa Pinheiro, Firmino Teixeira do Amaral, Manuel D’Almeida Filho, entre tantos outros, imortalizando personalidades como Cego Aderaldo e Lampião, e produzindo uma temática rica e diversa, que contaria com os ciclos do cangaço, das gestas de gado, dos épicos, do gracejo etc. De geração em geração a poesia do povo se firmava entre as maiores tradições nacionais.

Capítulo que versa sobre um movimento de grande relevância à trajetória cordelista é o intitulado de Renascer nordestino. Ele aborda a questão do ressurgimento do gênero no Ceará dos anos 90, promovido por uma geração de poetas cearenses dentre os quais podemos destacar os irmãos Klévisson e Arievaldo Viana, Rouxinol do Rinaré, Paiva Neves, Evaristo Geraldo e o também repentista Zé Maria de Fortaleza, que, após um período amargo de acentuada retração editorial e reiteradas previsões de morte do Cordel, transformam a cidade de Fortaleza num novo pólo produtor nacional e consequente berço de novos poetas e iniciativas de valorização da poesia dita popular.

Como acontece com todo bom poeta cordelista, em sua Breve história da Literatura de Cordel, Marco Haurélio confere grande densidade literária a um pequeno volume impresso, garantindo à sua Breve história (que, de fato, nada tem de efêmera) um lugar perene na historiografia do Cordel Brasileiro.

Eduardo Macedo